quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Na Flica: Historiadora Mary Del Priore fala sobre novo livro

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A carioca Mary Del Priore chega ao Recôncavo para abrir a sexta edição da Flica - Festa Literária Internacional de Cachoeira, evento realizado pela iContent e pela Cali, que começa amanhã, às 15h, e segue até domingo. Nesses quatro dias, o evento vai receber autores como Milton Hatoum, Ana Maria Machado, Conceição Evaristo e o colombiano Juan Gabriel Vásquez, primeiro latino-americano a participar da festa literária baiana. Toda a programação é gratuita e as mesas de discussão acontecem no claustro do Convento do Carmo. Outros eventos, como a Fliquinha, acontecem em vários pontos da cidade.
Amanhã, às 15h, Mary Del Priore vai falar sobre o seu novo livro, Histórias da Gente Brasileira que, em vez de se voltar para personagens épicos, faz um retrato da história do cidadão comum brasileiro, registrando seus hábitos, incluindo a vestimenta e a alimentação. “Eu queria um livro que desse prazer ao leitor. Que lhe permitisse ler história como se lê um romance”, diz a historiadora.
Histórias da Gente Brasileira é o primeiro volume de uma série de quatro livros. No terceiro, o cotidiano da Bahia será contado por meio de depoimentos de personalidades locais, como Pedro Calmon (1902-1985)  e Zélia Gattai (1916-2008).    

Seu novo livro,  Histórias da Gente Brasileira, em vez de se concentrar em uma grande personalidade histórica, volta-se para o cotidiano do cidadão “comum” brasileiro. Por quê

Eu queria fazer um livro que desse prazer ao leitor. Que lhe permitisse ler história como se lê um romance: com curiosidade, interesse, sem vontade de largar do texto. Daí a escolha de temas que lhe pudessem interessar: desde a descoberta da terra desconhecida e as peripécias da adaptação a um mundo novo até as transformações de vilarejos em cidades com seus ruídos, gritos de trabalho, cheiros e a mobilidade social de quem chegou aqui sem nada. Desde o que aprendemos de índios e africanos até os cuidados com o corpo, a comida, a indumentária e o sexo. Das crenças religiosas aos seres imaginários. Das formas de viver, de se constituir, de pensar e de resistir de nossos antepassados. Enfim, um catálogo de questões que não só apaixonam, mas revelam quem somos, de onde viemos.

Apesar de a senhora ser historiadora de formação, seus livros são consumidos pelo público comum, não apenas acadêmico. Como faz para encontrar uma linguagem acessível a todos? Essa é uma preocupação sua desde o início de sua carreira?

Penso que um bom livro de história é aquele que nos ensina alguma coisa, mas nos diverte ao mesmo tempo. E que não há contradição entre o rigor acadêmico na pesquisa de documentos e uma narrativa capaz de seduzir o leitor, descrevendo as situações de forma a torná-las visuais. Por isso invisto na simplicidade da escrita e na originalidade de temas que possam alargar nossos conhecimentos históricos. Chega de livros complicados com muitas informações teóricas que afastam o público de seu passado. Nosso passado é riquíssimo de personagens, paisagens, momentos de tensão e dramas. O que me interessa é dizer ao leitor, e da melhor maneira possível, a sua complexidade.

Muito se diz que o Brasil é um país que não cuida de sua memória, de seus registros históricos. A senhora concorda? Isso melhorou ultimamente?

Os arquivos são o lugar onde conseguimos ouvir um mundo desconhecido. Eles podem ser públicos e privados. Infelizmente, os governos não têm dado atenção a esse tipo de memória que repousa sobre instrumentos onerosos de conservação. Embora haja uma lei que obriga os municípios à preservação de seus arquivos, políticos que têm o que esconder preferem simplesmente esquecer. Não obedecem à legislação e até queimam a documentação que teriam que preservar. Quanto aos arquivos privados, há boas surpresas. Muita gente guarda velhos papéis, imagens e objetos, fugindo da sanha dos decoradores de Feng Shui que querem jogar tudo fora! Eu já fui beneficiada por vários colecionadores privados que me apresentaram documentos, que de outra forma não teriam sobrevivido. O importante é criar uma mentalidade de valorização da história e do passado para que todos se sintam responsáveis por eles.
Alguns de seus livros podem ser considerados best sellers e há outros autores especializados em história que têm vendido muito ultimamente, como Eduardo Bueno e Laurentino Gomes. Houve um aumento de interesse no tema por parte do público? A que atribui isso?

 Muitos acham que os brasileiros não gostam de história, mas nós somos a prova do contrário disso. As pessoas adoram saber o que aconteceu e quando. O importante é ter atenção em como contar história. Em todo o mundo, a história é um item importante nas estantes das livrarias e o público adora romances históricos. Daí a importância de uma linguagem que aproxime as pessoas dos fatos narrados. Eu aprendo muito com os jornalistas que são meus amigos. 
A senhora já escreveu algumas obras sobre a mulher e um deles é Pequena História da Transformação do Corpo Feminino. Na época da publicação, as redes sociais não tinham a força que têm hoje. A pressão pelo corpo “perfeito” aumentou?

Publicado pelo Senac nos idos de 1990, esse livro introduziu, de maneira modesta, algumas questões que vieram interessar a sociedade às ciências humanas: a da construção de paradigmas de estética no passado e no presente assim como os efeitos de exclusão dos que não cabem na forma da saúde, beleza e juventude. Os temas foram aprimorados em Conversas e Histórias de Mulher, lançado pela editora Planeta em 2011. Graças à difusão de imagens através das mídias faladas e escritas, a pressão pelo corpo perfeito se democratizou. Muitas mulheres querem aperfeiçoar sua forma física, mas cada qual à sua maneira. Não há mais um modelo, mas milhares. Em busca de melhoria da autoestima, os padrões se multiplicaram e as brasileiras não querem mais parecer as Barbies dos anos 70.
Quais os seus próximos projetos? Já está desenvolvendo algum especialmente?

Histórias da Gente Brasileira é uma tetralogia. O segundo volume sobre o Império brasileiro sai em novembro. O terceiro tem uma novidade: é todo contado a partir de memorialistas. O cotidiano da Bahia, por exemplo, é recontado na voz de pessoas como Pedro Calmon, Hildegardes Vianna, Zélia Gattai e outros que narram suas infâncias, a chegada do rádio, do cinema e das Grandes Guerras, a entrada no mundo do trabalho, descrevem as cidades e suas festas, o Brasil sob Getúlio... O último volume vai trazer novidade também. Só entrevistas. Nelas, veremos políticos falando de cotidiano e gente anônima falando de vida política.
Qual a importância de festas literárias como a Flica para o autor e para o público leitor?

A Flica é uma oportunidade única de leitores e autores se reunirem em torno do prazer de ler e do amor aos livros. É um momento de trocas intensas, de emoção e de aprendizado. O quanto não aprendemos das observações e críticas no momento de uma conversa? E como é bom, também, receber o carinho dos leitores. No campo coletivo, a Flica consagra a Bahia que teve pensadores e cientistas sociais da maior importância como um centro irradiador do que está se fazendo no estado. Tanto em literatura quanto em Ciências Humanas. E oferece ao Brasil a chance de conhecer uma cidade belíssima que foi palco de um dos momentos mais importantes de nossa história. Cachoeira governou a Bahia, como se capital fosse, durante a guerra para a expulsão dos portugueses em 1822. Nela, a gente brasileira de todos os estratos e cores se reuniu pela liberdade. Conheciam os ideais da Revolução Francesa e, em nome deles, foram à luta.


fonte:CorreiodaBahia
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