quinta-feira, 30 de julho de 2026

Economia: Decisão expõe fraude nas Americanas: “Vocês vão ser presos”, diz site


                                                   foto:Igo Estrela/reprodução


Sete dias antes de a Americanas comunicar ao mercado o rombo contábil bilionário que desencadeou um dos maiores escândalos corporativos da história do país, uma reunião interna mudou os rumos da empresa. Segundo decisão da Justiça Federal à qual a coluna teve acesso, o então diretor financeiro recém-empossado, André Covre, reagiu ao conhecer as irregularidades e afirmou: “Isso é fraude”.

Na sequência, ainda conforme a investigação da Polícia Federal reproduzida no documento, ele advertiu os presentes: “Vocês vão ser processados e presos”.

O episódio ocorreu no início de janeiro de 2023, poucos dias depois de Covre assumir o cargo por indicação de Paulo Lemann.

De acordo com a decisão, a Polícia Federal sustenta que o executivo chegou à companhia sem conhecimento das manipulações contábeis investigadas e foi apresentado, pela primeira vez, à real situação financeira da empresa durante reunião realizada com integrantes da antiga diretoria.

o informando a existência das chamadas “inconsistências contábeis”, que posteriormente deram origem à investigação da PF e do Ministério Público Federal sobre suposto esquema de fraude que teria perdurado por mais de uma década.

Segundo a investigação, as irregularidades consistiam em diferentes mecanismos que, em tese, ocultavam o verdadeiro endividamento da companhia e inflavam artificialmente indicadores financeiros apresentados ao mercado.

A Polícia Federal afirma que essas práticas permitiam que os balanços demonstrassem situação patrimonial mais favorável do que a real, influenciando investidores e negociação das ações da empresa.

As apurações deram origem à Operação Disclosure e já resultaram em denúncia contra ex-executivos da varejista.

Reunião

A decisão analisada pela coluna integra novo braço da investigação, voltado a apurar a eventual participação de acionistas de referência e de representantes de instituições financeiras.

Foi nesse contexto que, conforme a representação policial reproduzida na decisão, André Covre recebeu apresentação preparada pelo então diretor Marcelo Nunes sobre as operações contábeis sob investigação.

O documento relata que, ao tomar conhecimento do conteúdo, o executivo interrompeu a reunião, levantou-se e afirmou: “Isso é fraude”. Em seguida, apontando para os demais presentes, teria dito: “Vocês vão ser processados e presos”.

De acordo com a Polícia Federal, a reação de Covre marcou uma mudança na condução do caso dentro da companhia.

A representação afirma que, a partir daquele momento, as práticas deixaram de ser tratadas internamente como possíveis ajustes ou inconsistências contábeis e passaram a ser encaradas como potenciais ilícitos.

Ainda segundo o documento, o então presidente da Americanas, Sérgio Rial, pediu que Covre mantivesse a calma e evitasse conclusões precipitadas.

Mesmo assim, conforme a PF, o diretor financeiro passou a exigir levantamento detalhado das operações investigadas, incluindo dívidas com fornecedores, contratos de risco sacado, obrigações bancárias e outros passivos da companhia.

A decisão também registra que, no dia seguinte à reunião, a empresa contratou o escritório de advocacia Barbosa, Müssnich, Aragão (BMA), medida interpretada pela investigação como demonstração da necessidade imediata de assessoria jurídica especializada.

A Polícia Federal afirma ainda que a postura de Covre diferiu daquela atribuída aos executivos investigados. Conforme a representação, enquanto integrantes da gestão anterior demonstravam familiaridade com as práticas sob apuração, o então diretor financeiro manteve postura investigativa, solicitando documentos, planilhas e informações detalhadas sobre o endividamento da empresa e participando das discussões que antecederam a divulgação do fato ao mercado, em 11 de janeiro de 2023.

Leia a nota completa da defesa:

A assessoria de Carlos Alberto Sicupira, Paulo Alberto Lemann e Eduardo Saggioro Garcia reafirma que as diversas investigações que vêm sendo conduzidas ao longo de mais de 3 anos (nas quais foram examinados milhares de documentos, dados, e-mails, mensagens e foram celebrados 4 acordos de colaborações premiadas) são categóricas em demonstrar que os acionistas de referência e o Conselho de Administração eram sistematicamente enganados pela antiga Diretoria, como expressamente reconhecido pelo Ministério Público Federal, pela CVM e pelo Comitê Independente, alem da própria Polícia Federal.

A suposição de que os acionistas de referência sabiam da fraude não encontra qualquer amparo na realidade dos fatos e contraria a lógica econômica: entre 2013 e 2022, os acionistas de referência receberam cerca de R$ 700 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio, mas aportaram na Companhia, no mesmo período, mais de R$ 2,3 bilhões — ou seja, cerca de R$ 1,6 bilhão a mais do que receberam. Após a descoberta da fraude, aportaram ainda R$ 12 bilhões para a garantir que a Companhia se recuperasse e continuasse a exercer suas funções econômicas e sociais.

Ao contrário dos ex-diretores responsáveis pela fraude — que venderam ações da Companhia pouco antes da revelação do escândalo, em operações que somaram cerca de R$ 250 milhões, e que receberam centenas de milhões em bônus com base em resultados falsificados —, nenhum acionista de referência vendeu qualquer participação relevante na Companhia.


Fonte: MIRELLE PINHEIRO/METROPOLES - 30/07/2026 13h

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