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quarta-feira, 9 de abril de 2025

SP: Incor se manifesta sobre alunas que zombaram de transplantada

FOTO:DIVULGAÇÃO
                                           


São Paulo – O Instituto do Coração (Incor) de São Paulo afirmou que apura “rigorosamente” o caso de duas estudantes de medicina que compartilharam um vídeo no TikTok — tirado do ar –, em que expõem o caso de uma paciente submetida a três transplantes cardíacos.

As alunas fazem chacota de Vitória Chaves da Silva, de 26 anos, insinuando que a quantidade de procedimentos cirúrgicos decorreu da insinuada negligência da paciente, que morreu em 28 de fevereiro — nove dias depois do compartilhamento do vídeo feito por Gabrielli Farias de Souza e Thaís Caldeira Soares Foffano.

“O Incor, referência na América Latina nas áreas de cardiologia e pneumologia, reafirma seu compromisso com a ética e a confidencialidade, e informa que não divulga dados de pacientes”, diz trecho em nota encaminhada à reportagem.

A instituição acrescentou repudiar “veementemente” atitudes que “violem esses princípios”, garantindo que “adotará todas as medidas cabíveis” sobre a conduta das duas alunas.

A instituição acrescentou repudiar “veementemente” atitudes que “violem esses princípios”, garantindo que “adotará todas as medidas cabíveis” sobre a conduta das duas alunas.

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Vídeo foi tirado do ar
Alunas expuseram caso de paciente
Estudantes mencionam infromações inverídicas, segundo família de paciente

Procurada, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), disse que as alunas atualmente não têm qualquer vínculo acadêmico com a universidade ou com o Incor. As estudantes estavam no hospital em função de um curso de extensão de curta duração (um mês). “Assim que foi tomado conhecimento do fato, as universidades de origem das estudantes foram notificadas para que possam tomar as providências cabíveis”, diz nota.

“Internamente, a USP está tomando medidas adicionais para reforçar junto aos participantes de cursos de extensão as orientações formais sobre conduta ética e uso responsável das redes sociais, além da assinatura de um termo de compromisso com os princípios de respeito aos pacientes e aos valores que regem a atuação da instituição”, completa o texto.

Gabrielli e Thaís foram procuradas pelo Metrópoles sem sucesso até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.


Fonte: METRÓPOLES - 09/04/2025

segunda-feira, 24 de março de 2025

Oktoberfest 2025 quer vetar funk, pagode e sertanejo para preservar raízes alemãs


         
                     
                                  

(Folhapress) – A organização da Oktoberfest, tradicional festa anual que acontece na cidade catarinense de Blumenau, anunciou que irá adotar medidas para restringir determinados gêneros musicais nas áreas externas de circulação do público. A partir da próxima edição, estilos como samba, pagode, forró, sertanejo e funk não serão permitidos na programação oficial. As áreas internas já tinham essa proibição nos anos anteriores.

A ideia, segundo os organizadores, é reforçar a identidade cultural do evento, criado em Munique.
“A Oktoberfest Blumenau consolidou-se como evento de experiência e imersão cultural alemã, com o cancioneiro germânico como ponto focal”, disse nas redes sociais Guilherme Guenther, diretor-geral do Parque Vila Germânica, onde acontece o festival catarinense. “Já era assim nos palcos principais, agora também será na área externa.”

Ainda segundo ele, a ideia é garantir uma experiência que seria mais autêntica aos visitantes.
Em casos de descumprimento, medidas como a remoção de sistemas de som ou, em situações extremas, o corte de energia poderão ser aplicadas.

Essas restrições se aplicam apenas aos espaços oficiais da Oktoberfest. Áreas independentes, como o Camarote Spaten -a cervejaria oficial do evento- mantêm programações próprias e não precisam cumprir essas orientações.

Oktoberfest

Oktoberfest tem raízes alemãs

A próxima edição está prevista para acontecer entre 8 e 26 de outubro.

Inspirada na tradicional Oktoberfest de Munique, na Alemanha -que teve sua primeira edição em 1810-, a festa tornou-se um dos maiores símbolos da cultura bávara, reunindo música, danças, trajes típicos e cerveja. No Brasil, a Oktoberfest chegou a Blumenau em 1984.

Desde então, tornou-se a maior celebração de cultura alemã das Américas e a segunda maior Oktoberfest do mundo, atrás apenas da original. Em 2024, a versão brasileira recebeu quase 580 mil pessoas ao longo dos 19 dias de evento.


fONTE: ICL -24/03/2025

sábado, 7 de dezembro de 2024

Mulher que gravou passageira em avião foi candidata e denunciada pelo MPE

 

                                            Foto: reprodução/redes sociais

A advogada, nutricionista e escritora Eluciana Cardoso, mulher que gravou um vídeo expondo uma passageira que não queria ceder o assento próximo à janela do avião a uma criança, já foi denunciada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) por falsificar assinaturas em documentos entregues à Justiça.

Eluciana, que não é a mãe da criança, foi candidata a vereadora de Belo Horizonte pelo Cidadania em 2016 e a deputada estadual de Minas Gerais pelo Podemos em 2018.

Em julho de 2021, a mulher foi denunciada pelo MPE por apresentar documentos falsificados durante a prestação de contas da campanha dela de 2018. A íntegra do processo foi obtida pela coluna.

Segundo o MPE, a candidata teria falsificado a assinatura da irmã e do marido nos contratos e nos recibos entregues à Justiça Eleitoral para comprovação de gastos. Os familiares supostamente trabalharam na campanha dela e ganharam R$ 2 mil cada, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Eluciana admitiu ter assinado os documentos em nome dos parentes, mas esclareceu que o fez sem dolo, sem intuito de violar a fé pública.

O juiz da 29ª Zona Eleitoral de Belo Horizonte, Marcelo Gonçalves de Paula, acatou o argumento da defesa e decidiu, em março de 2022, pela absolvição de Eluciana do crime de falsidade ideológica.

Quem é a mulher que filmou passageira em avião

Eluciana Iris Almeida Cardoso tem 54 anos, mora em Belo Horizonte e já foi candidata a vereadora e a deputada estadual por Minas Gerais. É advogada, nutricionista clínica e escritora produtora cultural.

Eluciana não é a mãe da criança que estava dando birra no avião, no caso que ganhou notoriedade nesta semana. Ela filmou Jennifer Castro durante um voo da Gol e, no vídeo, perguntou se a passageira “tem algum problema”.

“Estou gravando a sua cara porque você não tem empatia com as pessoas. Isso é repugnante”, disse. As imagens foram publicadas nas redes sociais pela filha de Eluciana.

A mãe da criança não aparece nas imagens, mas, segundo Jeniffer, ela também a agrediu verbalmente.

Eluciana tem carteira na seccional de Minas Gerais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas, apesar disso, não tem costume de advogar. Nas redes sociais, ela investe em vídeos sobre nutrição e bem-estar.

Eluciana já foi homenageada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) pela “relevante contribuição na cultura nacional e na promoção de ações que visam propagar a literatura, a diversidade e a inclusão social, em apoio ao Institut Cultive Suisse Brésil”.

A homenagem tem autoria da deputada Ana Paula Siqueira (Rede) e ocorreu em junho de 2023, segundo informações disponíveis no site da ALMG.

Fonte: Tácio Lorran/Metrópoles - 07/12/2024

 

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

"Brancos de classe média atacam cotistas porque perderam privilégio de ser medíocres", diz escritor pioneiro das cotas


O escritor Jeferson Tenório, um homem negro, com barba e óculos, posa para foto em frente a uma estante de livros

CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Legenda da foto,Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2021, foi um dos primeiros estudantes a ingressar por cotas na UFRGS


"Pobre", "cotistas filho da p*, "só podia ser cotista", disseram estudantes de 

direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) a

 alunos da Universidade de São Paulo, durante um jogo universitário de handebol.

A repercussão dessas imagens ocorre menos de um mês após o lançamento do novo livro de Jeferson Tenório, De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras, 2024).

O romance que mergulha na experiência de um jovem negro que entra na universidade pública através do sistema de cotas.

O livro apresenta a história de Joaquim, um homem de 24 anos da periferia de Porto Alegre, com sentimentos conflituosos ao entrar em um mundo novo, branco e elitista.

Para o autor, o episódio dos jogos universitários exemplifica um ressentimento de uma classe média que tem herança escravagista.

"Existe uma elite acostumada a ser servida por pessoas pobres e negras. Em 15 anos, esses subalternizados passaram a ser seus colegas. Quando esses dois mundos se encontram, vemos justamente essas cenas que temos visto no meio acadêmico", diz o escritor.

"Há um sentimento de frustração. Um sentimento de entender que não adianta ter só os meios de produção, que não é mais possível ser mediano e ser medíocre e ter as coisas mais facilitadas como uma classe média sempre teve."

Tenório é vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2021 com O Avesso da Pele (Companhia das Letras, 2020), livro com mais de 200 mil exemplares vendidos que explora as relações raciais no Brasil.

A obra que conta a história de Pedro, um jovem negro que reconta a história de seu pai após seu assassinato por policiais, entrou na lista Programa Nacional do Livro Didático.

No entanto, três estados, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, pediram o recolhimento de exemplares na rede de ensino. Nas redes sociais, o autor classificou o episódio como "censura".

Ele relata a experiência de ser o primeiro estudante a concluir uma graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) por cotas.

"Antes de me formar, lembro de ouvir nos corredores que seria difícil conseguir emprego, que nenhuma escola contrataria alguém formado por cotas. Diziam também que os cotistas diminuiriam as notas do curso, uma série de preconceitos que não se confirmaram", recorda.

Confira a entrevista abaixo.

BBC News Brasil - Falamos muito nos impactos econômicos da ascensão social. Mas para uma pessoa negra que está ascendendo socialmente, entrando numa universidade, por exemplo, quais são os impactos do ponto de vista psicológico e social dessa ascensão?

Jeferson Tenório - Esses são espaços historicamente marcados pela exclusão. Ao ingressar em um ambiente considerado para poucos, os alunos negros de periferia e de escolas públicas começam a enfrentar diversos conflitos.

O primeiro é a luta pela permanência. Na universidade, o aluno cotista enfrenta obstáculos que seus colegas, em geral, não enfrentam.

Meu livro aborda os primeiros cotistas. Naquela época, não havia redes de acolhimento, coletivos negros, movimentos nos diretórios acadêmicos, ou bolsas de estudo e pesquisa. Tudo era extremamente precário em termos de apoio e acolhimento.

Depois desse choque de realidade, o aluno cotista costuma vivenciar uma solidão. Em um primeiro momento, ele sente vergonha e até medo de dizer que é cotista.

Essa vergonha está ligada ao discurso de desvalorização, que questiona a capacidade desses estudantes, e ao medo de ser tratado de forma diferente por professores ou sofrer retaliações.

Um terceiro estágio surge quando o aluno cotista começa a se apropriar do ambiente acadêmico, mas também acaba sendo cooptado por ele. Nesse ponto, ele pode deixar de reconhecer as pessoas e os espaços de onde veio. Ele não consegue mais se identificar com o ambiente da periferia, nem enxergar seus antigos amigos como pares.

Isso pode levar este estudante a adotar comportamentos refratários ao lugar onde cresceu, criando uma sensação de estar dividido entre dois mundos, quase como se tivesse traído suas origens.

Meu livro explora essa questão: até que ponto esses alunos cotistas precisam ser aceitos, e qual é o preço de buscar aceitação em um ambiente tão branco, burguês e elitista?

BBC News Brasil - Já se passaram mais de dez anos da implementação das cotas e hoje, como você disse, já temos uma rede maior de apoio, por exemplo, nas universidades. Mas este ano vimos episódios como insultos a alunos cotistas ou mesmo o suicídio de um aluno bolsista de um colégio de elite em São Paulo. Por que esse ambiente continua tão hostil?

Tenório - É um ambiente hostil, porque é a natureza da universidade. É um ambiente competitivo, frio, anti afetuoso. É um lugar em que se privilegia muito mais a questão da razão. Como se não houvesse espaço para outro tipo de relação com o conhecimento.

Este caso recente aconteceu nos jogos universitários, que sabemos que têm um histórico de gritos misóginos, preconceituosos já há algum tempo. Esse ambiente esportivo também é quase como se fosse uma autorização para dizer e fazer qualquer coisa.

Também são alunos que muitas vezes ainda são calouros que ainda não fizeram uma discussão a partir de pressupostos teóricos. Ou seja, ainda não teve essa experiência e ainda vem com essa bagagem preconceituosa e racistas.

Mas existe um embate também com alunos que passam a conviver com alunos cotistas, que tem a ver também com uma herança escravagista.

Existe uma elite acostumada a ser servida por pessoas pobres e negras. Em 15 anos, esses subalternizados passaram a ser seus colegas. Quando esses dois mundos se encontram, vemos justamente essas cenas que temos visto no meio acadêmico.

É um ressentimento de uma branquitude e medo da perda de um espaço que é desigual. E um desejo de uma manutenção dessa desigualdade, que se demonstra a partir de um desses marcadores sociais.

Como disseram alunos de medicina em 2022, também em um evento esportivo: "Sou playboy, não tenho culpa que seu pai é motoboy". Ou dizer que é pobre e cotista, como nesse episódio recente.

É uma forma de desvalorizar o que, na verdade, é um direito e uma conquista. Há essa inversão de valores justamente por esse medo e receio de uma perda de espaço.

BBC News Brasil - A raiz deste ressentimento da classe média é a mudança promovida pelas cotas?

Tenório - O filme Que Horas Ela Volta? (2015) explicita bem o início disso. Como a filha da empregada passa num dos vestibulares mais concorridos para arquitetura, e o filho da patroa, que tem tudo, não consegue passar?

Há um sentimento de frustração. Um sentimento de entender que não adianta ter só os meios de produção, que não é mais possível ser mediano e ser medíocre e ter as coisas mais facilitadas como uma classe média sempre teve. É um momento também dessa branquitude ser educada pela presença de cotistas.

Essa ideia de que é a universidade precisa ser diversa, ela tem que acontecer na prática. As cotas propiciam que haja justamente esses contatos. Essa convivência que faz bem para todo mundo.

Inclusive, para essa classe burguesa branca, que muitas vezes é alienada, muitas vezes não se dá conta, ou seja, não tem uma postura ética em relação ao outro, não se preocupa com o outro.

As cotas vão muito além de beneficiar pessoas negras e pobres, mas também ajudam nessa educação da branquitude.

BBC News Brasil - É inegável que houve uma efervescência no debate racial no país. Mas esse avanço alcançou as pessoas brancas? Elas também se engajaram em reflexões sobre a branquitude? Onde você enxerga que o debate racial avançou?

Tenório - Tivemos sim um avanço nas discussões raciais na universidade. É muito difícil hoje em dia que um professor, seja qual for a disciplina, em algum momento não passa por isso por esses temas, mesmo nos núcleos mais duros, como física, matemática, medicina.

Nesse sentido, houve um avanço e há quase uma naturalização já desse discurso na universidade. O que acontece é que a universidade não dá conta de como esse discurso chega na sociedade. Nisso, avançamos pouco.

O debate na universidade é muito efervescente, muito vivo, mas quando vai para a sociedade, para o grande público, fizemos pouca coisa. Para usar uma expressão da moda, estamos numa bolha.

Quem se importa que um estudante tenha dito aquelas coisas, quem acha que é que o que ele disse é racista, preconceituoso, é uma bolha. O grande público não está preocupado com isso.

Foto de Jeferson Tenório em preto e branco

CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Legenda da foto,Tenório levanta como bandeira a formação de novos leitores

BBC News Brasil - Você é de uma geração que lutou pelas cotas e também foi beneficiada por elas. Como foi sua experiência pessoal nesses ambientes?

Tenório - Entrei na universidade pública em 2004, no Bacharelado em Letras, sem as cotas. Na época, o sistema ainda não existia na UFRGS.

Não era exatamente o curso que eu queria, mas não consegui trocar. Trabalhei muito durante esse período e continuei no curso. Estudava para ser tradutor, mas o que eu realmente queria era ser professor.

Em 2007, começou o movimento na UFRGS pela implementação das cotas. Foi uma discussão intensa, com ocupações da reitoria.

Em 2008, as cotas foram finalmente implantadas, e fiz o vestibular novamente. Passei para o curso que queria: Licenciatura em Letras.

Me formei em 2010, aproveitando as disciplinas já cursadas. Com isso, me tornei o primeiro cotista negro a concluir a graduação na UFRGS.

Antes de me formar, lembro de ouvir nos corredores que seria difícil conseguir emprego, que nenhuma escola contrataria alguém formado por cotas. Diziam também que os cotistas diminuiriam as notas do curso, uma série de preconceitos que não se confirmaram.

Logo após me formar, fui contratado por uma escola particular em Porto Alegre. Durante a entrevista, mencionei que era cotista, e a diretora respondeu: "É exatamente esse perfil que queremos para nossa escola. Estamos trabalhando com questões antirracistas e queremos um professor que tenha essa experiência".

Nada do que disseram sobre as cotas se confirmou. Pelo contrário, minha trajetória como cotista foi um diferencial positivo.

BBC News Brasil - Era também um ambiente hostil para você?

Tenório - A universidade sempre foi um espaço hostil, antes e depois das cotas. Nunca foi acolhedora, especialmente para quem vem de onde viemos — das periferias, com outra bagagem e outra experiência de vida.

Demorei muito para perceber as violências que sofria dentro desse ambiente. Elas não eram apenas explícitas, mas também estavam nos discursos de alguns professores, que não legitimavam determinados conteúdos ou autores.

Por exemplo, só descobri que Machado de Assis era negro durante o mestrado, em 2013. Foi nessa mesma época que li Carolina Maria de Jesus pela primeira vez.

Essa invisibilidade é uma violência. A universidade oferece um tipo de conhecimento como se fosse universal e único, desconsiderando outros saberes.

A minha experiência não foi tão dura quanto a do Joaquim, personagem do meu livro, porque, quando entrei pelas cotas, já conhecia minimamente os mecanismos da universidade. Já tinha alguma experiência acadêmica, o que ajudou a diminuir o impacto inicial. Ainda assim, foi uma vivência hostil.

BBC News Brasil - No seu livro, você usa a expressão "eterno estrangeiro", que remete a ideia de um não lugar. Hoje, como escritor negro, sente isso?

Tenório - Hoje, compreendo melhor minha trajetória, e isso me tranquiliza. Entendi que nossas origens são, em grande parte, inventadas ou imaginadas. Não temos uma origem documentada. Não sei quem foi meu tataravô ou de qual país africano vieram meus ancestrais.

Isso nos obriga a inventar uma história, criar uma ideia de origem que, na realidade, não existe. Essa compreensão me levou a aceitar que temos uma "raiz movente". É como se tivéssemos raízes, mas elas estão em constante movimento.

Quando entendi isso, percebi que me apegar a uma origem fixa não faria de mim uma pessoa melhor. Precisamos construir e reconhecer nossas histórias, mesmo sabendo que muitas delas são imaginadas.

Isso também me ajudou a lidar com o conhecimento ocidental, que é branco e dominante. Decidi aproveitar o que ele tem de melhor e criticar o que há de pior. Continuo fazendo isso.

Em De Onde Eles Vêm, isso é evidente no Joaquim: ele lê autores brancos e europeus consagrados, mas também os questiona. E, ao mesmo tempo, busca se aproximar de uma literatura produzida por autores negros. Esse movimento, para mim, é uma forma de retorno às origens, mesmo reconhecendo que essas origens são, em parte, fruto de uma construção imaginada.

Capa do livro De Onde Eles Vêm, com uma ilustração de fundo amarelo com um homem negro de costas em um terno azul e cabelo descolorido

CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Legenda da foto,De Onde Eles Vêm é o primeiro romance de Tenório após o sucesso de O Avesso da Pele

BBC News Brasil - Na terça-feira (19/11), uma pesquisa mostrou que, pela primeira vez, a maioria das pessoas no Brasil não são leitoras. Como você recebe esse dado?

Tenório - É um dado assustador, sem dúvida. E, se compararmos com outros países, a situação é ainda mais alarmante. Na França, por exemplo, a média é de 22 ou 23 livros por pessoa por ano. Aqui no Brasil, estamos em torno de 2,1 livros por ano. É um número muito baixo.

Por outro lado, precisamos refletir sobre o que significa ler. Será que a leitura se restringe a livros? A música, por exemplo, não pode ser considerada também uma forma de letramento?

O rap, o hip hop, o slam... Estou citando a música porque ela foi uma parte importante da minha formação como leitor. Na minha infância e adolescência, não tinha livros por perto, mas a música foi meu primeiro letramento estético. Ela também me educou sentimentalmente. E, pensando nos adolescentes de hoje, quando estão nas redes sociais, o que estão fazendo? Apenas consumindo vídeos ou também escrevendo e lendo?

Talvez ainda tenhamos a ideia de um "leitor ideal", aquele que senta sozinho com um livro, mas há outras formas de letramento acontecendo. Hoje, temos podcasts, que são um sucesso no Brasil, e audiolivros, que, embora menos populares, também têm um público. A leitura não é só com os olhos; pode ser também com os ouvidos.

Apesar desse cenário, não acredito que seja "terra arrasada". Claro que me preocupo, porque sou apaixonado por livros, pelo objeto em si. Por isso, meu trabalho é como o de uma formiguinha: tento formar leitores, especialmente de livros.

BBC News Brasil - Seu novo livro se estrutura em capítulos curtos e uma linguagem fluida. Hoje vivemos nesta disputa pela atenção no ambiente digital, textos cada vez mais curtos... Isso te influenciou para atrair novos leitores?

Tenório - Na verdade, a inspiração veio do Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, ele usa capítulos curtos, muitas vezes com apenas metade de uma página. Isso tinha a ver com a época, já que os textos eram publicados em folhetins e precisavam ser rápidos para atrair o leitor do jornal.

Se pensarmos bem, a lógica de hoje não é tão diferente. A rapidez está presente, mas ampliada, como no TikTok, onde temos apenas segundos para captar a atenção. Mais do que a estrutura dos capítulos, minha estratégia é criar uma linguagem acessível, sem barreiras linguísticas.

Evito palavras muito sofisticadas ou inversões gramaticais complicadas, buscando uma fluidez que atraia até mesmo quem nunca leu um livro inteiro. Sempre escrevo pensando no que gostaria de ler quando era jovem e não tinha tantas oportunidades.

Fonte: BBC BRASIL/REPRODUÇÃO 02/12/2024

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

SP: Após demissão, Ana Paula Minerato toma atitude após falas racistas serem expostas


                                         foto:reprodução


modelo Ana Paula Minerato se envolveu numa polêmica nesta segunda-feira (25/11) após áudios em que ela faz comentários racistas terem vazados nas redes sociais. As falas racistas da ex-Fazenda teriam sido enviadas durante uma conversa da musa da Gaviões da Fiel com o ex, o rapper KT, e seriam direcionadas à cantora Ananda, do grupo Melanina Carioca.

Após as declarações de cunho preconceituoso viralizarem nas redes sociais, Ana Paula Minerato bloqueou os comentários de internautas no seu perfil do Instagram. Apenas uma postagem recente segue com os comentários abertos: a da participação da modelo no programa Acerte ou Caia, da Record, apresentado por Tom Cavalcante. Seguidores aproveitaram a “brecha” para criticar a famosa.

“Trancou os comentários né medrosa?”, observou Tiago Kades. “O que vem por ai? (A) quem me conhece sabe (B) eu estava sob efeito de remédios (C) eu tenho até amigos”, comentou Denniela Riberio. “Trancar comentários não vai evitar a prisão não”, ironizou Bianca Veloso. “Vc sabia que racismo é crime lindona? A neguinha do cabelo duro que você se referiu dá um show em você”, disse Simone Molina.

Áudios racistas

Nas suas falas, Ana Paula Minerato se refere a Ananda como “empregada” e “mina do cabelo duro”. “A empregada [doméstica], a do cabelo duro. Você gosta de cabelo duro KT? Eu não sabia que você gostava de mina do cabelo duro”, começou ela. O rapper ainda tentou interromper, sem sucesso: “Sua fala é bem…”, disse ele, mas foi impedido de continuar.

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Ana Paula Minerato
Suposto áudio de Ana Paula Minerato com falas racistas vaza na web
Ana Paula Minerato, musa da Gaviões da Fiel

Em seguida, ela seguiu com as ofensas: “Você gosta de mina cabelo duro, de neguinha? Por isso ali é neguinha né, alguém ali um pai ou a mãe veio da África, tá na cara”, disparou. Em uma nova tentativa, KT aconselhou: “Não tem problema, linda [as características da moça]. Você não sabe o ambiente que você está aí. Você tá falando isso aí em voz alta”, ponderou ele.

Sem parar, Ana Paula Minerato se mostrou ainda mais enciumada: “Não tem problema? Sério? Por que você tem tanto cuidado com ela?”, questionou, sendo rebatida pelo ex: “Eu tenho cuidado com todo mundo, linda. De verdade, você não me conhece”, afirmou, calmamente.

No fim do bate-papo, ela proferiu mais falas preconceituosas: “Comigo você não teve, né? Nossa, mano, ela é feia, hein, tio? Car*lho, ela faixa de nega que ela usa é zoada, hein. Nossa, achei que ela era mais gatinha”, debochou.

fONTE:FÁBIA OLIVEIRA/METRÓPOLES - 25/11/2024