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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Do Intercept Brasil: O ELO MILITAR Exclusivo: Coronel com alto cargo no governo Bolsonaro empresta conta bancária a Fabrício Queiroz, mostra documento

                                                 foto:reprodução

Um coronel da reserva do Exército indicado assessor da presidência da Casa da Moeda do Brasil pelos generais do governo Bolsonaro cultiva há duas décadas uma relação de confiança mútua com Fabrício Queiroz. Ele mesmo, o acusado de operar o esquema milionário das rachadinhas do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio.

coronel Washington Luiz Lima Teixeira é o primeiro elo claro entre um militar com cargo no alto escalão do governo Bolsonaro com Queiroz, homem-bomba do clã presidencial. As relações entre os dois incluem a venda de um imóvel e uma procuração em que o coronel Teixeira deu a Queiroz “amplos poderes” para operar suas contas bancárias pessoais na Caixa.

Graças ao apoio do que chamou, em entrevista ao Intercept, de “um grupo seleto [de oficiais] dentro da força”, Teixeira, 61 anos, é assessor da presidência da Casa da Moeda desde novembro de 2020. Ali, ganha salário bruto de R$ 22 mil mensais. Ele diz ter sido escolhido diretamente pelo presidente da empresa e vice-almirante da reserva da Marinha, Hugo Cavalcante Nogueira.

As ligações do coronel Teixeira com Queiroz estão documentadas em cartórios do Rio de Janeiro. Ao longo das últimas seis semanas, pedimos cópias e analisamos 15 documentos. O mais intrigante deles é a procuração assinada em dezembro de 2009 pelo então coronel da ativa do Exército dando ao então assessor de Flávio Bolsonaro “amplos poderes” para operar suas contas bancárias pessoais. Ela segue válida, a julgar pela ausência de registros de seu cancelamento.

O documento está registrado no 8º Ofício de Notas, Centro do Rio, e torna oficial que o coronel Teixeira e sua mulher, Ana Maria de Medeiros Teixeira, nomearam Queiroz como procurador de ambos “junto e perante a Caixa, em quaisquer de suas agências e departamentos”.

O acordo dá a Queiroz poder para “acompanhar e dar andamento a processo habitacional, podendo abrir, movimentar e liquidar contas, tomar ciência dos despachos, cumprir exigências, juntar e retirar documentos, requerer, recorrer, concordar e ajustar condições do mútuo, pagar taxas de serviços, assinar os contratos necessários, ajustar preços, prometer comprar, comprar”.

O documento confere também a Queiroz o poder de efetuar saques bancários e assinar cheques das contas do coronel Teixeira. Além disso, o então assessor de Flávio ganhou o direito de usar como garantia para empréstimos “o imóvel situado na rua Baronesa”. Trata-se de um apartamento localizado em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, uma região controlada pela milícia, e que pertencia ao coronel. O imóvel foi vendido a Queiroz em uma transação que, segundo os documentos registrados em cartório, se prolongou por 19 anos e só teve desfecho justamente quando surgiram as primeiras reportagens sobre o escândalo das rachadinhas, em dezembro de 2018.

Atualmente, quem vive no apartamento é a Débora Melo Fernandes, ex-esposa de Fabrício Queiroz, segundo o que ele mesmo disse ao Intercept. Apesar disso, o registro geral do imóvel, que consultamos em 28 de março no 9º Ofício de Registro de Imóveis do Rio, ainda traz o nome de Teixeira como proprietário do apartamento.

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Trecho da procuração em que o coronel Teixeira e a esposa dão a Fabrício Queiroz até mesmo o poder de movimentar contas bancárias deles.

 

Reprodução

À época em que foi assinada a procuração, em dezembro de 2009, Teixeira era militar da ativa no Exército e Queiroz operava o esquema das rachadinhas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, segundo a denúncia apresentada em outubro de 2020 pelo Ministério Público estadual. Os promotores acusam a organização criminosa comandada por Flávio de desviar e lavar dinheiro público em compras de imóveis em nome do político. Ele e Queiroz negam.

Falando sob a condição de não terem as identidades reveladas, funcionários da Caixa disseram que o único procedimento necessário em caso de transferência do financiamento seria a aprovação do cadastro de Queiroz no banco. Eles também afirmaram que a procuração com amplos poderes dada a Queiroz pelo coronel Teixeira é desnecessária e raramente vista em situações como essa. O caminho mais fácil e habitual seria estabelecer uma procuração com fim específico – a transferência do imóvel.

Entrevistados, nem Queiroz nem Teixeira explicaram porque optaram pela procuração de amplos poderes.

Conversamos com Queiroz duas vezes por telefone. Na primeira vez, em 30 de março, ao ser questionado sobre a procuração, se irritou e desligou o telefone sem responder.

Uma semana depois, no dia 7 de abril, telefonamos novamente para Queiroz. Dessa vez, ele atendeu e nos deu uma entrevista de 30 minutos – que, fez questão de dizer, também gravou. Queiroz contou que, no intervalo de uma semana entre as nossas ligações, procurou o coronel Teixeira para conversar sobre a reportagem que estávamos apurando. Ambos deram versões semelhantes e evasivas à pergunta: qual a finalidade real da procuração para Queiroz movimentar as contas de um coronel do Exército?

Queiroz e o coronel Teixeira disseram que a procuração servia apenas para pedir à Caixa os boletos do financiamento do apartamento que eventualmente atrasavam ou se perdiam, porque o oficial nem sempre estava no Rio de Janeiro e não conseguiria resolver essas pendências. Ambos negam que tenha havido qualquer movimentação financeira, saque ou outras operações bancárias.

Durante a entrevista com Queiroz, destacamos o trecho da procuração que detalha os amplos poderes que o coronel lhe deu. Na sequência se deu o seguinte diálogo:

Fabricio Queiroz – [rindo] Como eu vou [fazer] saque e depósito na conta de um coronel do Exército? Pelo amor de Deus, gente.

Intercept – É o que gostaríamos de entender, porque está registrado em cartório e assinado.

Queiroz – Assinado por ele, por mim, é… Com certeza o tabelião colocou coisas demais ali. Pô, eu custei a pagar esse apartamento. Eu ficava três, quatro, cinco meses sem pagar, [em seguida] fazia um empréstimo, quitava as prestações atrasadas. Eu trabalhava muito em segurança [privada] para conseguir quitar esse apartamento. Na época eu lembro que… Eu acho que através disso aí eu poderia pedir lá. […] Citar isso daí, foi equivocadamente que colocaram. Geralmente, quando tu faz uma procuração eles colocam várias coisas, várias coisas. Eu acho que foi um erro que teve, não teve nada além disso.

 

Já o coronel Teixeira nos disse que essa venda com contrato de gaveta era “comum” nos anos 1990.

“Por que o contrato é assim? Porque o apartamento fica no nome de quem financiou, mas existe, como disse, a compra por parte de uma terceira [pessoa] e você tem que fazer uma procuração. Eu, sendo militar, nem sempre estava no Rio de Janeiro. E de vez em quando eu era chamado pela Caixa para resolver problemas administrativos, boleto que não chegou, atraso de pagamento, etc. Então, era normal, e é normal, que a gente faça uma procuração para pessoa que comprou, para que ele resolva aquilo ali, se não você vai viver eternamente resolvendo problema para pessoa”.

Se, de fato, os poderes concedidos pela procuração foram “exagerados”e “jamais usados”, Queiroz e – principalmente – o coronel Teixeira jamais se preocuparam com um eventual mau uso deles, o que demonstra uma relação de profunda e mútua confiança.

O rolo do imóvel

A partir dos documentos levantados em nove cartórios do Rio, pudemos identificar que a primeira relação de negócios entre o coronel Teixeira e Fabrício Queiroz data de março de 1999. O objeto dela é justamente o apartamento da rua Baronesa, mais tarde citado na procuração. O imóvel pertencia a Teixeira, que o havia comprado via financiamento dez anos antes, em 1989. De acordo com a escritura, o valor venal é de R$ 229 mil.

Segundo a escritura registrada no 4º Ofício Notarial do Rio, em março de 1999 Teixeira fez uma promessa de compra e venda do apartamento a Queiroz. Esse mesmo ato deu posse do imóvel a Queiroz, que assumiu também a responsabilidade de arcar com taxas e impostos dele.

Pelos termos do acordo, Queiroz e a então esposa Débora Melo Fernandes pagaram R$ 20 mil – R$ 83,7 mil, corrigindo-se o valor pelo IPCA – ao coronel e à esposa dele. Além disso, ficou registrado que os compradores se comprometiam a assumir as 72 parcelas restantes do financiamento ao longo dos seis próximos anos – ou seja, até 2005.

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O compromisso de compra e venda, de 1999: Queiroz pagou R$ 20 mil (R$ 87 mil atuais) e assumiu o financiamento do coronel Teixeira.

 

Reprodução

Mesmo com o financiamento em nome de Teixeira, Queiroz deveria fazer os pagamentos mensais e apresentar os comprovantes ao oficial do Exército até que transferisse a dívida para seu nome ou quitasse o saldo devedor do imóvel. Porém, uma carta de notificação de 30 de junho de 2007, guardada pelo 2º Registro de Títulos e Documentos do Rio, indica que dois anos depois o financiamento não só ainda estava em aberto como havia parcelas atrasadas.

Assim, o documento deixava claro que, se tais exigências não fossem cumpridas, o contrato de compra e venda deveria ser cancelado. Mas, como se tratava de uma ação entre amigos, isso nunca ocorreu.

O documento foi emitido pela empresa gestora de ativos e alertava Teixeira da possibilidade de hipoteca e leilão público do apartamento caso não fossem pagas, em até 20 dias, as parcelas atrasadas. A dívida somava de R$ 6.402,03 – equivalentes a R$ 14,9 mil em valores corrigidos.

Trecho de documento de financiamento de veículo de 2012 de Fabrício Queiroz: ele declarava morar no apartamento do coronel Teixeira.

 

Reprodução

Outros dois documentos públicos, que tratam de financiamentos de automóveis, confirmam que Queiroz seguia morando (ou, pelo menos, que dizia morar) na rua Baronesa em 2009 2012.

Perguntamos a ambos como se conheceram. Ambos nos disseram que foram apresentados por um amigo em comum, de quem o coronel diz não se lembrar do nome. Já Queiroz disse apenas que se chamava Hernandes, um conhecido das quadras de futebol que trabalhava com vendas e com quem não tem mais contato. Ele negou que o amigo tenha participado da venda.

Queiroz, à época policial militar da ativa, não disse se tinha condições de assumir o financiamento aprovado na Caixa. É que não deu tempo ainda [para transferir o imóvel para seu nome]. Essas confusões. Eu sou muito relaxado quanto a isso. Inclusive, todo mundo fala, rapaz você tem que passar esse financiamento para o seu nome porque pode dar problema. Ele morre e falam que não comprei [o apartamento]”, disse Queiroz.

A coincidência com as rachadinhas

A negociação de compra e venda do apartamento da rua Baronesa, iniciada em 1999, só foi concluída no dia 7 de dezembro de 2018. Naquele dia, Queiroz e a àquela altura ex-esposa Débora Fernandes assinaram uma escritura de compra e venda do imóvel no 2º Ofício de Notas do Rio.

O documento foi registrado em cartório no dia seguinte ao da publicação da primeira reportagem que trouxe à tona o nome de Queiroz, publicada pelo Estadão. A matéria revelava que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, havia identificado movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão nas contas do assessor de Flávio Bolsonaro. As reportagens já citavam a transferência de um cheque de Queiroz para uma conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

O passo seguinte deveria ser a alteração da titularidade do imóvel, o que não ocorreu ao menos até 28 de março de 2022, como demonstra a matrícula pesquisada pelo Intercept. O apartamento segue em nome do coronel Teixeira.

A alteração de titularidade de um imóvel exige algumas formalidades.O vendedor precisa, por exemplo, apresentar certidão negativa de débitos junto aos governos federal, estadual e municipal. Por lei, só o registro do imóvel garante o direito de propriedade dele.

A certidão de compra e venda de 2018 indica que Fernandes continuava morando no apartamento, mas Queiroz havia se mudado para outro endereço também em Jacarepaguá. Nessa época, os dois já estavam separados e divorciados – e eram, ambos, investigados no caso das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Ao Intercept, Queiroz argumentou que “não tem condições” de passar o apartamento para seu próprio nome – ou o de Débora Fernandes.

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A escritura que concretiza a negociação do imóvel, em dezembro de 2018: emitida apenas três dias depois da reportagem que apresentou Fabrício Queiroz ao mundo e o vinculou à suspeita de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro.

 

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“Já zerou tudo, praticamente tudo, só falta eu passar para o meu nome. Estou meio enrolado, não posso agora gastar R$ 3 mil”, afirmou Queiroz, estimando o valor que a burocracia lhe custaria. O ex-assessor de Flávio afirmou que, apesar de não morar no imóvel da rua Baronesa, paga todos os custos de manutenção para a ex-esposa. Ele disse arcar com a “pensão alimentícia e o condomínio” de Fernandes, além das contas de água, luz e IPTU. “Pago porque isso vai ser o futuro das minhas filhas, vai ficar para elas”, justificou-se.

A escritura de compra e venda indica que os passos finais do negócio começaram em 29 de novembro de 2018, com o pagamento do imposto de transmissão do imóvel. Naquele momento, já havia sido deflagrada pela Polícia Federal a operação Furna da Onça, que investigava desvios de verba pública em gabinetes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Essa operação, que atingiu Queiroz, foi avisada com antecedência a Flávio pela Polícia Federal, segundo denunciou à Folha o articulador da campanha presidencial de Bolsonaro, Paulo Marinho. Empresário, Marinho depois rompeu com os Bolsonaro, apesar de seguir como suplente de Flávio no Senado.

Outro ex-aliado do clã, Abraham Weintraub, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, corroborou as denúncias de Marinho a respeito do vazamento da operação da PF. Flávio sempre negou que soubesse das informações previamente, mas Queiroz foi exonerado do gabinete dele na Assembleia menos de um mês antes da investigação se tornar pública.

Àquela época, o coronel Teixeira, já na reserva, exercia a função de coordenador logístico no Ministério da Integração nos últimos dias do governo Michel Temer. Na gestão Bolsonaro, a pasta foi integrada ao atual Ministério do Desenvolvimento Regional.

Ao Intercept, Queiroz e o coronel Teixeira negaram que o escândalo das rachadinhas tenha influenciado na negociação do apartamento. O militar considerou que a venda foi um alívio, apesar de se sentir exposto por isso.

“A gente, logicamente, não é alienado do mundo. Para mim só teve pontos positivos [a conclusão da venda]. Eu nunca imaginava, em 1999, qualquer situação ao que pudesse vir no futuro. Para mim foi bom, entendeu? Agora, a pergunta acho que tinha que ser direcionada para ele [Queiroz]. Acho que é mais interesse dele. Por que quem fica exposto nesse caso sou eu, né?”, argumentou Teixeira.

Queiroz nos respondeu que a venda se concretizou em dezembro de 2018 porque “foi a hora que eu tive tempo, que eu tava livre, tirei férias”. “Pedi minha exoneração [ do gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro] para resolver todos os meus problemas, tanto de saúde quanto particulares”, disse.

Perguntamos ao coronel se ele confiava em Queiroz e se faria a venda novamente e nas mesmas condições. Ele desconversou e disse que não se sentia à vontade para responder.

Nos hospitais Federais do Rio

Antes de chegar à Casa da Moeda, o coronel Teixeira já circulava no Planalto. Ele havia sido convocado pela Secretaria-Geral da Presidência da República para uma ação prioritária dos primeiros dias do governo Bolsonaro.

Escolhido pelo então ministro e general da reserva Floriano Peixoto, Teixeira participou entre fevereiro e julho de 2019 de uma força-tarefa batizada de Ação Integrada de Apoio à Gestão dos Hospitais Federais do Rio de Janeiro, listada como uma das metas dos primeiros 100 dias da administração dos militares. A contratação dele se deu por intermédio da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, ligada ao governo federal. O salário mensal girava em torno de R$ 10 mil, segundo nos disse.

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O coronel Washington Teixeira é o primeiro elo claro entre os militares do Exército com cargos no alto escalão do governo Bolsonaro e Fabrício Queiroz.

 

Foto: Reprodução

Durante a carreira como oficial da ativa, o coronel Teixeira ocupou cargos no Exército e do Ministério da Defesa em que detinha poder de decisão em processos de licitação, contratos e ordenamento de despesas. Num deles, respondeu a processo criminal em que foi acusado de participar de um esquema de emissão de notas frias para a aquisição de medicamentos e equipamentos para o hospital militar do Recife. Foi inocentado.

As acusações contra o coronel estão detalhadas em uma auditoria militar. Foram identificados os crimes de estelionato, corrupção passiva, corrupção ativa, falsificação de documentos que causaram prejuízos de R$ 4 milhões aos cofres públicos. A Justiça Militar apurou denúncia contra 18 pessoas. Teixeira foi absolvido, mas outras dez pessoas, entre civis e militares, foram condenadas à prisão pelo Superior Tribunal Militar. As penas variaram de quatro a seis anos de prisão.

Washington Teixeira é da turma de 1985 da Academia Militar das Agulhas Negras, a Aman, responsável por formar todos os oficiais do Exército brasileiro. O currículo dele, disponível no site da Casa da Moeda, indica que ele se especializou em trabalhar em hospitais da força.

Na Aman, Teixeira escolheu a arma da intendência – a mesma de de um general famoso, Eduardo Pazuello, de quem foi contemporâneo na academia. No Exército, o pessoal da intendência é responsável por administrar a rotina e a burocracia do funcionamento dos quartéis. Mesmo em situação de combate, cabe à intendência cuidar de fazer chegar água, comida e suprimentos a quem está na linha de frente. Por tudo isso, os oficiais da intendência são tidos como os “civis” entre os militares – o que, no meio, é tudo menos um elogio. Eles também não podem, se chegarem a generais, ganhar a quarta estrela – o topo da carreira para quem é da intendência é ser general de três estrelas.

A carreira de Teixeira foi a típica para um oficial da intendência. Ele passou a maior parte do tempo no serviço ativo em cargos de controle de contas, ordenamento de despesas e realização de licitações de órgãos do Exército e hospitais militares.

CPI da Pandemia levantou a suspeita de que gestão dos hospitais federais do Rio estaria sob influência direta de Flávio Bolsonaro.

A experiência com processos de compras e a rede de amigos que estabeleceu na caserna levaram Teixeira a participar do governo Bolsonaro. Em fevereiro de 2019, uma das prioridades do recém-iniciado mandato era organizar a burocracia, os processos licitatórios e os trâmites internos dos seis hospitais federais do Rio de Janeiro.

Esse projeto foi comandado inicialmente pelo coordenador da campanha de Bolsonaro e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, morto em março de 2020. Ele esteve à frente das Ações Integradas e denunciou que milicianos comandavam o hospital federal de Bonsucesso. Poucas semanas depois da denúncia, Bebianno saiu do governo rompido com Bolsonaro e o filho 02, o vereador Carlos.

A CPI da Pandemia do Senado levantou a suspeita de que a gestão dos hospitais federais do Rio estaria sob influência direta do senador Flávio Bolsonaro. Ele sempre negou.

Teixeira e outros seis colegas coronéis do Exército foram levados ao grupo de coordenação após a queda de Bebianno pelas mãos do general Floriano Peixoto, que assumiu a vaga de ministro. Atualmente, Peixoto preside os Correios.

Uma das pessoas que esteve à frente dessas ações nos contou, sob a condição de não ser identificada, que foi opção de Peixoto a entrada dos militares em Bonsucesso, “onde havia muita denúncia de má prática e sabotagem”. Teixeira informa em seu currículo que trabalhou no grupo como consultor. Mas há poucos registros públicos sobre as funções que desempenhava no cargo. A única vez em que Teixeira aparece na agenda de Floriano Peixoto é no dia 26 de março de 2019, mas não há detalhes do que foi tratado pelos dois.

Teixeira nos confirmou que a escolha dos militares para a Ação Integrada se deu por opção da Secretaria-Geral da Presidência, a partir da indicação de amigos do Exército.

“Sou do tempo em que a gente falava assim, naquele dia de São Cosme e Damião vai dar [bala]. Aí você já sabia, e naquele dia e hora você estava lá. Você fica sabendo, as pessoas conversam, né?”, afirmou, ao nos explicar como chegou ao cargo. Ele disse ainda que amigos da caserna o avisaram sobre o processo, mas que a escolha se deu por análise de currículo na Secretaria-Geral da Presidência.

Queiroz e os Bolsonaro

Policial militar aposentado e há décadas amigo íntimo de Jair Bolsonaro, Fabrício Queiroz atualmente é pré-candidato a deputado federal pelo PTB do Rio. Tendo apoio da família presidencial, ele não se intimidou nem mesmo com os processos e as denúncias do Ministério Público do Estado do Rio que o levaram a prisão. Os promotores o acusam de ser operador do esquema de desvio de verba pública e lavagem de dinheiro que movimentou R$ 2 milhões entre 2007 e 2018 no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Queiroz já foi descrito pelo próprio presidente como um homem que “fazia rolo”. Os documentos públicos levantados por nós em nove cartórios do Rio de Janeiro indicam que, por um lado, Bolsonaro tem razão. Por outro, jogam mais dúvidas sobre os segredos que guarda o homem de confiança da família presidencial.



Um coronel da reserva do Exército indicado assessor da presidência da Casa da Moeda do Brasil pelos generais do governo Bolsonaro cultiva há duas décadas uma relação de confiança mútua com Fabrício Queiroz. Ele mesmo, o acusado de operar o esquema milionário das rachadinhas do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio.

coronel Washington Luiz Lima Teixeira é o primeiro elo claro entre um militar com cargo no alto escalão do governo Bolsonaro com Queiroz, homem-bomba do clã presidencial. As relações entre os dois incluem a venda de um imóvel e uma procuração em que o coronel Teixeira deu a Queiroz “amplos poderes” para operar suas contas bancárias pessoais na Caixa.

Graças ao apoio do que chamou, em entrevista ao Intercept, de “um grupo seleto [de oficiais] dentro da força”, Teixeira, 61 anos, é assessor da presidência da Casa da Moeda desde novembro de 2020. Ali, ganha salário bruto de R$ 22 mil mensais. Ele diz ter sido escolhido diretamente pelo presidente da empresa e vice-almirante da reserva da Marinha, Hugo Cavalcante Nogueira.

As ligações do coronel Teixeira com Queiroz estão documentadas em cartórios do Rio de Janeiro. Ao longo das últimas seis semanas, pedimos cópias e analisamos 15 documentos. O mais intrigante deles é a procuração assinada em dezembro de 2009 pelo então coronel da ativa do Exército dando ao então assessor de Flávio Bolsonaro “amplos poderes” para operar suas contas bancárias pessoais. Ela segue válida, a julgar pela ausência de registros de seu cancelamento.

O documento está registrado no 8º Ofício de Notas, Centro do Rio, e torna oficial que o coronel Teixeira e sua mulher, Ana Maria de Medeiros Teixeira, nomearam Queiroz como procurador de ambos “junto e perante a Caixa, em quaisquer de suas agências e departamentos”.

O acordo dá a Queiroz poder para “acompanhar e dar andamento a processo habitacional, podendo abrir, movimentar e liquidar contas, tomar ciência dos despachos, cumprir exigências, juntar e retirar documentos, requerer, recorrer, concordar e ajustar condições do mútuo, pagar taxas de serviços, assinar os contratos necessários, ajustar preços, prometer comprar, comprar”.

O documento confere também a Queiroz o poder de efetuar saques bancários e assinar cheques das contas do coronel Teixeira. Além disso, o então assessor de Flávio ganhou o direito de usar como garantia para empréstimos “o imóvel situado na rua Baronesa”. Trata-se de um apartamento localizado em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, uma região controlada pela milícia, e que pertencia ao coronel. O imóvel foi vendido a Queiroz em uma transação que, segundo os documentos registrados em cartório, se prolongou por 19 anos e só teve desfecho justamente quando surgiram as primeiras reportagens sobre o escândalo das rachadinhas, em dezembro de 2018.

Atualmente, quem vive no apartamento é a Débora Melo Fernandes, ex-esposa de Fabrício Queiroz, segundo o que ele mesmo disse ao Intercept. Apesar disso, o registro geral do imóvel, que consultamos em 28 de março no 9º Ofício de Registro de Imóveis do Rio, ainda traz o nome de Teixeira como proprietário do apartamento.

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Trecho da procuração em que o coronel Teixeira e a esposa dão a Fabrício Queiroz até mesmo o poder de movimentar contas bancárias deles.

 

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À época em que foi assinada a procuração, em dezembro de 2009, Teixeira era militar da ativa no Exército e Queiroz operava o esquema das rachadinhas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, segundo a denúncia apresentada em outubro de 2020 pelo Ministério Público estadual. Os promotores acusam a organização criminosa comandada por Flávio de desviar e lavar dinheiro público em compras de imóveis em nome do político. Ele e Queiroz negam.

Falando sob a condição de não terem as identidades reveladas, funcionários da Caixa disseram que o único procedimento necessário em caso de transferência do financiamento seria a aprovação do cadastro de Queiroz no banco. Eles também afirmaram que a procuração com amplos poderes dada a Queiroz pelo coronel Teixeira é desnecessária e raramente vista em situações como essa. O caminho mais fácil e habitual seria estabelecer uma procuração com fim específico – a transferência do imóvel.

Entrevistados, nem Queiroz nem Teixeira explicaram porque optaram pela procuração de amplos poderes.

Conversamos com Queiroz duas vezes por telefone. Na primeira vez, em 30 de março, ao ser questionado sobre a procuração, se irritou e desligou o telefone sem responder.

Uma semana depois, no dia 7 de abril, telefonamos novamente para Queiroz. Dessa vez, ele atendeu e nos deu uma entrevista de 30 minutos – que, fez questão de dizer, também gravou. Queiroz contou que, no intervalo de uma semana entre as nossas ligações, procurou o coronel Teixeira para conversar sobre a reportagem que estávamos apurando. Ambos deram versões semelhantes e evasivas à pergunta: qual a finalidade real da procuração para Queiroz movimentar as contas de um coronel do Exército?

Queiroz e o coronel Teixeira disseram que a procuração servia apenas para pedir à Caixa os boletos do financiamento do apartamento que eventualmente atrasavam ou se perdiam, porque o oficial nem sempre estava no Rio de Janeiro e não conseguiria resolver essas pendências. Ambos negam que tenha havido qualquer movimentação financeira, saque ou outras operações bancárias.

Durante a entrevista com Queiroz, destacamos o trecho da procuração que detalha os amplos poderes que o coronel lhe deu. Na sequência se deu o seguinte diálogo:

Fabricio Queiroz – [rindo] Como eu vou [fazer] saque e depósito na conta de um coronel do Exército? Pelo amor de Deus, gente.

Intercept – É o que gostaríamos de entender, porque está registrado em cartório e assinado.

Queiroz – Assinado por ele, por mim, é… Com certeza o tabelião colocou coisas demais ali. Pô, eu custei a pagar esse apartamento. Eu ficava três, quatro, cinco meses sem pagar, [em seguida] fazia um empréstimo, quitava as prestações atrasadas. Eu trabalhava muito em segurança [privada] para conseguir quitar esse apartamento. Na época eu lembro que… Eu acho que através disso aí eu poderia pedir lá. […] Citar isso daí, foi equivocadamente que colocaram. Geralmente, quando tu faz uma procuração eles colocam várias coisas, várias coisas. Eu acho que foi um erro que teve, não teve nada além disso.

 

Já o coronel Teixeira nos disse que essa venda com contrato de gaveta era “comum” nos anos 1990.

“Por que o contrato é assim? Porque o apartamento fica no nome de quem financiou, mas existe, como disse, a compra por parte de uma terceira [pessoa] e você tem que fazer uma procuração. Eu, sendo militar, nem sempre estava no Rio de Janeiro. E de vez em quando eu era chamado pela Caixa para resolver problemas administrativos, boleto que não chegou, atraso de pagamento, etc. Então, era normal, e é normal, que a gente faça uma procuração para pessoa que comprou, para que ele resolva aquilo ali, se não você vai viver eternamente resolvendo problema para pessoa”.

Se, de fato, os poderes concedidos pela procuração foram “exagerados”e “jamais usados”, Queiroz e – principalmente – o coronel Teixeira jamais se preocuparam com um eventual mau uso deles, o que demonstra uma relação de profunda e mútua confiança.

O rolo do imóvel

A partir dos documentos levantados em nove cartórios do Rio, pudemos identificar que a primeira relação de negócios entre o coronel Teixeira e Fabrício Queiroz data de março de 1999. O objeto dela é justamente o apartamento da rua Baronesa, mais tarde citado na procuração. O imóvel pertencia a Teixeira, que o havia comprado via financiamento dez anos antes, em 1989. De acordo com a escritura, o valor venal é de R$ 229 mil.

Segundo a escritura registrada no 4º Ofício Notarial do Rio, em março de 1999 Teixeira fez uma promessa de compra e venda do apartamento a Queiroz. Esse mesmo ato deu posse do imóvel a Queiroz, que assumiu também a responsabilidade de arcar com taxas e impostos dele.

Pelos termos do acordo, Queiroz e a então esposa Débora Melo Fernandes pagaram R$ 20 mil – R$ 83,7 mil, corrigindo-se o valor pelo IPCA – ao coronel e à esposa dele. Além disso, ficou registrado que os compradores se comprometiam a assumir as 72 parcelas restantes do financiamento ao longo dos seis próximos anos – ou seja, até 2005.

20-04-2022-coronel-queiroz-doc-2-fix-final

O compromisso de compra e venda, de 1999: Queiroz pagou R$ 20 mil (R$ 87 mil atuais) e assumiu o financiamento do coronel Teixeira.

 

Reprodução

Mesmo com o financiamento em nome de Teixeira, Queiroz deveria fazer os pagamentos mensais e apresentar os comprovantes ao oficial do Exército até que transferisse a dívida para seu nome ou quitasse o saldo devedor do imóvel. Porém, uma carta de notificação de 30 de junho de 2007, guardada pelo 2º Registro de Títulos e Documentos do Rio, indica que dois anos depois o financiamento não só ainda estava em aberto como havia parcelas atrasadas.

Assim, o documento deixava claro que, se tais exigências não fossem cumpridas, o contrato de compra e venda deveria ser cancelado. Mas, como se tratava de uma ação entre amigos, isso nunca ocorreu.

O documento foi emitido pela empresa gestora de ativos e alertava Teixeira da possibilidade de hipoteca e leilão público do apartamento caso não fossem pagas, em até 20 dias, as parcelas atrasadas. A dívida somava de R$ 6.402,03 – equivalentes a R$ 14,9 mil em valores corrigidos.

Trecho de documento de financiamento de veículo de 2012 de Fabrício Queiroz: ele declarava morar no apartamento do coronel Teixeira.

 

Reprodução

Outros dois documentos públicos, que tratam de financiamentos de automóveis, confirmam que Queiroz seguia morando (ou, pelo menos, que dizia morar) na rua Baronesa em 2009 2012.

Perguntamos a ambos como se conheceram. Ambos nos disseram que foram apresentados por um amigo em comum, de quem o coronel diz não se lembrar do nome. Já Queiroz disse apenas que se chamava Hernandes, um conhecido das quadras de futebol que trabalhava com vendas e com quem não tem mais contato. Ele negou que o amigo tenha participado da venda.

Queiroz, à época policial militar da ativa, não disse se tinha condições de assumir o financiamento aprovado na Caixa. É que não deu tempo ainda [para transferir o imóvel para seu nome]. Essas confusões. Eu sou muito relaxado quanto a isso. Inclusive, todo mundo fala, rapaz você tem que passar esse financiamento para o seu nome porque pode dar problema. Ele morre e falam que não comprei [o apartamento]”, disse Queiroz.

A coincidência com as rachadinhas

A negociação de compra e venda do apartamento da rua Baronesa, iniciada em 1999, só foi concluída no dia 7 de dezembro de 2018. Naquele dia, Queiroz e a àquela altura ex-esposa Débora Fernandes assinaram uma escritura de compra e venda do imóvel no 2º Ofício de Notas do Rio.

O documento foi registrado em cartório no dia seguinte ao da publicação da primeira reportagem que trouxe à tona o nome de Queiroz, publicada pelo Estadão. A matéria revelava que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, havia identificado movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão nas contas do assessor de Flávio Bolsonaro. As reportagens já citavam a transferência de um cheque de Queiroz para uma conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

O passo seguinte deveria ser a alteração da titularidade do imóvel, o que não ocorreu ao menos até 28 de março de 2022, como demonstra a matrícula pesquisada pelo Intercept. O apartamento segue em nome do coronel Teixeira.

A alteração de titularidade de um imóvel exige algumas formalidades.O vendedor precisa, por exemplo, apresentar certidão negativa de débitos junto aos governos federal, estadual e municipal. Por lei, só o registro do imóvel garante o direito de propriedade dele.

A certidão de compra e venda de 2018 indica que Fernandes continuava morando no apartamento, mas Queiroz havia se mudado para outro endereço também em Jacarepaguá. Nessa época, os dois já estavam separados e divorciados – e eram, ambos, investigados no caso das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Ao Intercept, Queiroz argumentou que “não tem condições” de passar o apartamento para seu próprio nome – ou o de Débora Fernandes.

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A escritura que concretiza a negociação do imóvel, em dezembro de 2018: emitida apenas três dias depois da reportagem que apresentou Fabrício Queiroz ao mundo e o vinculou à suspeita de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro.

 

Reprodução

“Já zerou tudo, praticamente tudo, só falta eu passar para o meu nome. Estou meio enrolado, não posso agora gastar R$ 3 mil”, afirmou Queiroz, estimando o valor que a burocracia lhe custaria. O ex-assessor de Flávio afirmou que, apesar de não morar no imóvel da rua Baronesa, paga todos os custos de manutenção para a ex-esposa. Ele disse arcar com a “pensão alimentícia e o condomínio” de Fernandes, além das contas de água, luz e IPTU. “Pago porque isso vai ser o futuro das minhas filhas, vai ficar para elas”, justificou-se.

A escritura de compra e venda indica que os passos finais do negócio começaram em 29 de novembro de 2018, com o pagamento do imposto de transmissão do imóvel. Naquele momento, já havia sido deflagrada pela Polícia Federal a operação Furna da Onça, que investigava desvios de verba pública em gabinetes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Essa operação, que atingiu Queiroz, foi avisada com antecedência a Flávio pela Polícia Federal, segundo denunciou à Folha o articulador da campanha presidencial de Bolsonaro, Paulo Marinho. Empresário, Marinho depois rompeu com os Bolsonaro, apesar de seguir como suplente de Flávio no Senado.

Outro ex-aliado do clã, Abraham Weintraub, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, corroborou as denúncias de Marinho a respeito do vazamento da operação da PF. Flávio sempre negou que soubesse das informações previamente, mas Queiroz foi exonerado do gabinete dele na Assembleia menos de um mês antes da investigação se tornar pública.

Àquela época, o coronel Teixeira, já na reserva, exercia a função de coordenador logístico no Ministério da Integração nos últimos dias do governo Michel Temer. Na gestão Bolsonaro, a pasta foi integrada ao atual Ministério do Desenvolvimento Regional.

Ao Intercept, Queiroz e o coronel Teixeira negaram que o escândalo das rachadinhas tenha influenciado na negociação do apartamento. O militar considerou que a venda foi um alívio, apesar de se sentir exposto por isso.

“A gente, logicamente, não é alienado do mundo. Para mim só teve pontos positivos [a conclusão da venda]. Eu nunca imaginava, em 1999, qualquer situação ao que pudesse vir no futuro. Para mim foi bom, entendeu? Agora, a pergunta acho que tinha que ser direcionada para ele [Queiroz]. Acho que é mais interesse dele. Por que quem fica exposto nesse caso sou eu, né?”, argumentou Teixeira.

Queiroz nos respondeu que a venda se concretizou em dezembro de 2018 porque “foi a hora que eu tive tempo, que eu tava livre, tirei férias”. “Pedi minha exoneração [ do gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro] para resolver todos os meus problemas, tanto de saúde quanto particulares”, disse.

Perguntamos ao coronel se ele confiava em Queiroz e se faria a venda novamente e nas mesmas condições. Ele desconversou e disse que não se sentia à vontade para responder.

Nos hospitais Federais do Rio

Antes de chegar à Casa da Moeda, o coronel Teixeira já circulava no Planalto. Ele havia sido convocado pela Secretaria-Geral da Presidência da República para uma ação prioritária dos primeiros dias do governo Bolsonaro.

Escolhido pelo então ministro e general da reserva Floriano Peixoto, Teixeira participou entre fevereiro e julho de 2019 de uma força-tarefa batizada de Ação Integrada de Apoio à Gestão dos Hospitais Federais do Rio de Janeiro, listada como uma das metas dos primeiros 100 dias da administração dos militares. A contratação dele se deu por intermédio da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, ligada ao governo federal. O salário mensal girava em torno de R$ 10 mil, segundo nos disse.

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O coronel Washington Teixeira é o primeiro elo claro entre os militares do Exército com cargos no alto escalão do governo Bolsonaro e Fabrício Queiroz.

 

Foto: Reprodução

Durante a carreira como oficial da ativa, o coronel Teixeira ocupou cargos no Exército e do Ministério da Defesa em que detinha poder de decisão em processos de licitação, contratos e ordenamento de despesas. Num deles, respondeu a processo criminal em que foi acusado de participar de um esquema de emissão de notas frias para a aquisição de medicamentos e equipamentos para o hospital militar do Recife. Foi inocentado.

As acusações contra o coronel estão detalhadas em uma auditoria militar. Foram identificados os crimes de estelionato, corrupção passiva, corrupção ativa, falsificação de documentos que causaram prejuízos de R$ 4 milhões aos cofres públicos. A Justiça Militar apurou denúncia contra 18 pessoas. Teixeira foi absolvido, mas outras dez pessoas, entre civis e militares, foram condenadas à prisão pelo Superior Tribunal Militar. As penas variaram de quatro a seis anos de prisão.

Washington Teixeira é da turma de 1985 da Academia Militar das Agulhas Negras, a Aman, responsável por formar todos os oficiais do Exército brasileiro. O currículo dele, disponível no site da Casa da Moeda, indica que ele se especializou em trabalhar em hospitais da força.

Na Aman, Teixeira escolheu a arma da intendência – a mesma de de um general famoso, Eduardo Pazuello, de quem foi contemporâneo na academia. No Exército, o pessoal da intendência é responsável por administrar a rotina e a burocracia do funcionamento dos quartéis. Mesmo em situação de combate, cabe à intendência cuidar de fazer chegar água, comida e suprimentos a quem está na linha de frente. Por tudo isso, os oficiais da intendência são tidos como os “civis” entre os militares – o que, no meio, é tudo menos um elogio. Eles também não podem, se chegarem a generais, ganhar a quarta estrela – o topo da carreira para quem é da intendência é ser general de três estrelas.

A carreira de Teixeira foi a típica para um oficial da intendência. Ele passou a maior parte do tempo no serviço ativo em cargos de controle de contas, ordenamento de despesas e realização de licitações de órgãos do Exército e hospitais militares.

CPI da Pandemia levantou a suspeita de que gestão dos hospitais federais do Rio estaria sob influência direta de Flávio Bolsonaro.

A experiência com processos de compras e a rede de amigos que estabeleceu na caserna levaram Teixeira a participar do governo Bolsonaro. Em fevereiro de 2019, uma das prioridades do recém-iniciado mandato era organizar a burocracia, os processos licitatórios e os trâmites internos dos seis hospitais federais do Rio de Janeiro.

Esse projeto foi comandado inicialmente pelo coordenador da campanha de Bolsonaro e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, morto em março de 2020. Ele esteve à frente das Ações Integradas e denunciou que milicianos comandavam o hospital federal de Bonsucesso. Poucas semanas depois da denúncia, Bebianno saiu do governo rompido com Bolsonaro e o filho 02, o vereador Carlos.

A CPI da Pandemia do Senado levantou a suspeita de que a gestão dos hospitais federais do Rio estaria sob influência direta do senador Flávio Bolsonaro. Ele sempre negou.

Teixeira e outros seis colegas coronéis do Exército foram levados ao grupo de coordenação após a queda de Bebianno pelas mãos do general Floriano Peixoto, que assumiu a vaga de ministro. Atualmente, Peixoto preside os Correios.

Uma das pessoas que esteve à frente dessas ações nos contou, sob a condição de não ser identificada, que foi opção de Peixoto a entrada dos militares em Bonsucesso, “onde havia muita denúncia de má prática e sabotagem”. Teixeira informa em seu currículo que trabalhou no grupo como consultor. Mas há poucos registros públicos sobre as funções que desempenhava no cargo. A única vez em que Teixeira aparece na agenda de Floriano Peixoto é no dia 26 de março de 2019, mas não há detalhes do que foi tratado pelos dois.

Teixeira nos confirmou que a escolha dos militares para a Ação Integrada se deu por opção da Secretaria-Geral da Presidência, a partir da indicação de amigos do Exército.

“Sou do tempo em que a gente falava assim, naquele dia de São Cosme e Damião vai dar [bala]. Aí você já sabia, e naquele dia e hora você estava lá. Você fica sabendo, as pessoas conversam, né?”, afirmou, ao nos explicar como chegou ao cargo. Ele disse ainda que amigos da caserna o avisaram sobre o processo, mas que a escolha se deu por análise de currículo na Secretaria-Geral da Presidência.

Queiroz e os Bolsonaro

Policial militar aposentado e há décadas amigo íntimo de Jair Bolsonaro, Fabrício Queiroz atualmente é pré-candidato a deputado federal pelo PTB do Rio. Tendo apoio da família presidencial, ele não se intimidou nem mesmo com os processos e as denúncias do Ministério Público do Estado do Rio que o levaram a prisão. Os promotores o acusam de ser operador do esquema de desvio de verba pública e lavagem de dinheiro que movimentou R$ 2 milhões entre 2007 e 2018 no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Queiroz já foi descrito pelo próprio presidente como um homem que “fazia rolo”. Os documentos públicos levantados por nós em nove cartórios do Rio de Janeiro indicam que, por um lado, Bolsonaro tem razão. Por outro, jogam mais dúvidas sobre os segredos que guarda o homem de confiança da família presidencial.

Fonte: ;INTERCEPT BRASIL -acesso e m 02/05/2022 às 10h:31


Econmomia: 'Estamos indo para o maior aperto monetário nos EUA em décadas', diz economista-chefe do Citi Brasil

 A expectativa de uma alta mais forte das taxas de juros nos EUA contaminou os mercados financeiros na semana passada, o que fez a Bolsa cair e o dólar voltar ao patamar próximo de R$ 5. Esse movimento será colocado à prova nesta semana. Tanto o banco central dos EUA (o Federal Reserve ou Fed) quanto o Banco Central do Brasil têm reuniões de política monetária para decidir o novo nível das taxas de juros. Segundo o economista-chefe do Citi Brasil, Leonardo Porto, esse ambiente de juros mais elevados prejudica os países emergentes, como o Brasil, porque favorece uma saída de capitais e aumenta a cotação do dólar.

É uma situação pior para o crescimento da economia, já prejudicada pelo aumento da Selic e pela inflação galopante. “A gente está indo para um ciclo de aperto monetário nos EUA que a gente nunca viu nas últimas décadas. Estamos falando de quatro aumentos sucessivos de 0,5 ponto em cada reunião, seguidos de vários aumentos de 25 pontos no final desse ano e no ano que vem inteiro. Isso já provoca um aumento importante nas taxas de juros internacionais”, afirma Porto na entrevista a seguir.

Em um relatório recente, o Citi fez um alerta sobre a inflação global, dizendo que há um risco de uma espiral de preços. Por que essa preocupação tão forte?

A gente tem visto uma confluência de fatores que está inflamando os preços no mundo todo. E não parece que isso vai se dissipar no curtíssimo prazo. O primeiro são os problemas nas cadeias de fornecimento, de que a gente vem falando há muito tempo, mas que têm se escalado a cada momento. Nosso indicador de custo de supply-chain se mantém quase dez vezes maior do que era o patamar pré-pandemia. Esse é um primeiro fator. A questão da China e os novos lockdowns são outro. Não parece que vai acabar no curto prazo. Em paralelo, a gente está vendo o preço das commodities batendo recordes. Além disso, nos EUA, tem um mercado de trabalho extremamente apertado. A taxa de desemprego voltou para o patamar pré-pandemia e os salários estão subindo. Para completar, nos países emergentes, como o Brasil, a inflação corrente, que está muito alta, tende a contaminar mais a expectativa de inflação. O meu ponto é: os elementos sugerem que esse processo inflacionário mundial pode ser mais persistente do que se imaginava, com algumas particularidades específicas para cada uma das regiões.

Como isso se aplica no caso brasileiro?

No caso brasileiro, tem um quadro de inflação extremamente elevada, mas a gente acredita que está próximo do pico. O pico deve ser por volta do mês de abril, com a inflação próxima dos 12% (em 12 meses). E depois deve cair. O problema é que a distância é muito grande entre os 12% e os 3,5%, da meta de inflação deste ano, e entre os 3,25%, do ano que vem. Neste ano, não vai dar nem para chegar no teto da meta. A previsão é de que a inflação fique em 7,8%, acima do teto. Para o ano que vem, a gente acha que a inflação fica acima do centro da meta, mas dentro da banda, em 3,9%. Isso porque o Banco Central tem dado sinais de que já fez um serviço grande, e de que quer parar para observar. E isso restringe nossa perspectiva de alta da Selic. A gente acha que a Selic sobe na próxima reunião (nesta semana) em 1 ponto percentual, e mais 0,5 ponto em junho, chegando a 13,25%. Nas nossas contas, a Selic a 13,25% não vai ser suficiente para jogar a inflação no centro da meta em 2023, mas vai ficar dentro da meta.

Por que não?

Porque o Brasil está com uma inflação ainda muito elevada e existe um componente inercial importante. O melhor exemplo é o salário mínimo, que sempre reajusta em 1.º de janeiro pela inflação passada. Quanto mais alta a inflação, e quanto mais tempo ela fica alta, maior o risco de ela contaminar a expectativa de inflação, tornando o processo inflacionário mais rígido. Exige uma carga monetária (de juros) mais pesada para cair. A gente entende o Banco Central. O que ele já subiu de juro real não é pouco. O juro real está acima de 7%. É muita coisa. É acima de qualquer estimativa de juro neutro.

O que deve fazer a inflação cair a partir de abril?

Primeiro, tem um alívio da energia elétrica (uma vez que a bandeira tarifária extra deixou de ser cobrada a partir do último mês). Segundo, com o petróleo a US$ 100, a princípio não seria necessário fazer novos reajustes de preços de gasolina, o que já ajuda. E, terceiro, porque nosso time de commodities tem uma visão de que o preço das commodities vai cair no horizonte de médio e longo prazo. Ou seja, tem uma contribuição vindo de fora. Em paralelo, tem o impacto da política monetária que contém a demanda domesticamente. A dúvida é qual a velocidade de queda da inflação.

O processo inflacionário é mais preocupante no exterior do que no Brasil?

O Brasil está num estágio diferente. O Brasil enfrentou uma aceleração da inflação a partir do segundo semestre de 2020. O Banco Central começou a subir os juros no início de 2021. Foi o primeiro. A gente começou a enfrentar o processo inflacionário antes de outros países porque teve uma depreciação da moeda. Isso catalisou a inflação aqui. A visão é de que o BC brasileiro já fez muito mais o serviço, e daqui para frente o Fed, banco central americano, vai ter que fazer muito mais do que o Banco Central brasileiro. Nosso time de EUA, acha que o Fed vai ter que subir 0,5 ponto porcentual nas próximas quatro reuniões e depois 0,25 ponto até o fim do ano, e vai continuar subindo a taxa de juros até superar os 3,75% no final do ano que vem. É um longo caminho ainda. Aqui no Brasil estamos falando de mais duas altas.

A gente já fez uma parte do serviço.

Agora, a gente tem que ser vigilante, não pode também baixar a guarda, porque senão a inflação pode se perpetuar por mais tempo. Vai demorar algum tempo para reduzir a taxa de juros. Nossa visão é de que a queda de juros começa só no segundo semestre do ano que vem. meio do ano que vem?

Porque o desafio é grande. O desafio é trazer a inflação para o centro da meta. Considerando que a inflação está orbitando acima de 12% neste momento, para chegar em 3,25% é um longo caminho. Como o Banco Central está optando por fazer um ajuste mais suavizado, vai ter que ficar num voo de cruzeiro, mantendo esse patamar por mais tempo. O grande ponto de incerteza é a dinâmica do câmbio.

Por que o câmbio?

A gente está com uma visão de que o dólar fecha o ano em R$ 5,19 porque o ambiente global para países emergentes vai se deteriorar. A gente está indo para um ciclo de aperto monetário nos EUA que a gente nunca viu nas últimas décadas. Estamos falando de quatro aumentos sucessivos de 0,5 ponto em cada reunião, seguidos de vários aumentos de 25 pontos no final desse ano e no ano que vem inteiro. Isso já provoca um aumento importante nas taxas de juros internacionais. O melhor exemplo são as Treasuries (títulos do Tesouro americano) de dois anos. Elas estão hoje com um juros por volta de 2,70%, e que era de 0,70% no fim do ano passado. Foram quase 2 pontos porcentuais de alta num intervalo de quatro meses. Isso não é pouco. Quando tem um aumento tão intenso, começa a ter um risco de valorização do dólar frente a outras moedas, porque os capitais fluem para os EUA. Isso já está acontecendo, e o ajuste na taxa de câmbio é muito rápido. Nos últimos dias, ele já voltou para perto de R$ 5. Esse ajuste pode contaminar as commodities, que são cotadas em dólar. E o nível de aversão ao risco fica mais elevado. Os investidores ficam mais avessos a colocar recursos em países mais arriscados.

Já se esperava que o Fed iria subir os juros, e mesmo nessas condições, o Brasil registrou uma entrada forte de capital até pouco tempo atrás. O que mudou?

Mudou a sinalização do Jerome Powell (presidente do Fed), que colocou na mesa que é bem provável que o banco central americano suba os juros em 0,5 ponto porcentual na próxima reunião. Isso produziu uma mudança importante para o mercado de juros que, por sua vez, afetou o mercado de moedas, valorizando o dólar em relação às grandes moedas e exacerbando a depreciação das moedas emergentes.

O que isso indica no final das contas para o Brasil? Não dá para contar com uma queda do dólar para o alívio da inflação?

O que indica é que, para a gente, o cenário mais provável é um cenário em que o câmbio até o final do ano tende a fechar mais depreciado do que está hoje, incluindo já contando com a depreciação dos últimos dias. Esse ambiente global está ficando menos benigno, e é mais provável que continue se deteriorando à medida em que o mercado vai incorporando a ação dos bancos centrais, e em especial do Federal Reserve. É por causa disso que há uma reprecificação nos preços dos ativos de todo o mundo, potencialmente deteriorando o preço de países emergentes.

Nesse ambiente, o que esperar para a economia brasileira? Vocês revisaram para cima a previsão para o PIB. Por quê?

A revisão do PIB (Produto Interno Bruto) derivou dos sinais do primeiro trimestre que foram um pouco melhores do que a gente esperava até então. Em fevereiro, tivemos indicadores melhores, em especial, produção industrial e as vendas no varejo. O dado do PIB do quarto trimestre já tinha sido melhor do que a gente esperava. Mas decidimos não fazer uma revisão naquela época por causa da guerra da Ucrânia e da Rússia. Esse efeito da guerra na atividade está sendo mais localizado na Europa. Mas nas outras regiões ficou limitado. A gente mudou a projeção do PIB para positivo, de 0,1% este ano (antes a previsão era de -0,3%).

É uma projeção ainda de crescimento muito baixo, e menor do que a de outras instituições. Por quê?

Tem uma grande incerteza sobre quando a alta da Selic deve produzir um efeito negativo no PIB brasileiro. Estou vendo várias casas reduzindo o PIB de 2023, em vez do PIB de 2022 por causa desse componente. Nos nossos modelos, o juro real já está acima do neutro já há praticamente dois trimestres. Acredito que esse efeito já vai atuar agora no segundo, no terceiro e no quarto trimestre deste ano, como um vento contrário para a atividade. Estou vendo meus pares falando que esse efeito vai estar mais para o final deste ano do que início do ano que vem.

O que estão projetando para os próximos trimestres?

A gente prevê um crescimento do PIB no primeiro trimestre da ordem de 0,2%. E nos próximos, a gente está com uma média de contração de -0,2%.

Apesar da revisão para cima, não tem nada a se comemorar.

A gente está falando de um crescimento um pouco acima de zero. Não é um dado promissor. Mas é melhor do que a gente previa antes. O ponto principal é que vai ter um custo na atividade. Para trazer a inflação para a meta, existe uma taxa de sacrifício. Esse sacrifício é um crescimento menor temporariamente. E este ano a gente deve ter que pagar esta taxa de sacrifício.

E no ano que vem?

Para o ano que vem, a gente está com uma estimativa de 1,2% para o PIB, que na nossa conta é levemente abaixo do que a gente acha que é o PIB potencial, que é de 1,5%. O crescimento do Brasil pré-pandemia rodava na casa de 1,5% por ano. Foi assim em 2017, 2018 e 2019. Era mais ou menos o que a gente crescia. O importante aqui é que o Brasil fez a política monetária (necessária), apertou, a economia desacelerou. A expectativa é trazer a inflação para baixo, e aí o BC começa a cortar taxa de juros. Então esse vento contrário (dos juros elevados) sai. E a economia volta para o seu crescimento potencial, de 1,5%. Por isso a gente tem previsão de 1,2% para 2023 e depois 1,5% para 2024. É um sacrifício que tem que ser feito. Não tem como trazer a inflação para baixo se não pagar algum tipo de taxa de sacrifício do ponto de vista da atividade econômica. A não ser que conte com choques favoráveis, como uma queda brusca do preço do petróleo ou o câmbio parado. Mas aí é contar com a sorte.

E não dá para contar com isso.

Não dá para contar com a sorte. A gente não está num nível de inflação confortável que pode se ficar sentado no piloto automático esperando vir um choque favorável. A gente está com uma inflação de dois dígitos há dois anos. No ano passado já foi dois dígitos. Para esse ano, a previsão é de 7,8%. Mas nesse momento ela está em dois dígitos. A gente não pode acomodar. Não pode baixar a guarda num quadro como este.

Por que o câmbio?

A gente está com uma visão de que o dólar fecha o ano em R$ 5,19 porque o ambiente global para países emergentes vai se deteriorar. A gente está indo para um ciclo de aperto monetário nos EUA que a gente nunca viu nas últimas décadas. Estamos falando de quatro aumentos sucessivos de 0,5 ponto em cada reunião, seguidos de vários aumentos de 25 pontos no final desse ano e no ano que vem inteiro. Isso já provoca um aumento importante nas taxas de juros internacionais. O melhor exemplo são as Treasuries (títulos do Tesouro americano) de dois anos. Elas estão hoje com um juros por volta de 2,70%, e que era de 0,70% no fim do ano passado. Foram quase 2 pontos porcentuais de alta num intervalo de quatro meses. Isso não é pouco. Quando tem um aumento tão intenso, começa a ter um risco de valorização do dólar frente a outras moedas, porque os capitais fluem para os EUA. Isso já está acontecendo, e o ajuste na taxa de câmbio é muito rápido. Nos últimos dias, ele já voltou para perto de R$ 5. Esse ajuste pode contaminar as commodities, que são cotadas em dólar. E o nível de aversão ao risco fica mais elevado. Os investidores ficam mais avessos a colocar recursos em países mais arriscados.

Já se esperava que o Fed iria subir os juros, e mesmo nessas condições, o Brasil registrou uma entrada forte de capital até pouco tempo atrás. O que mudou?

Mudou a sinalização do Jerome Powell (presidente do Fed), que colocou na mesa que é bem provável que o banco central americano suba os juros em 0,5 ponto porcentual na próxima reunião. Isso produziu uma mudança importante para o mercado de juros que, por sua vez, afetou o mercado de moedas, valorizando o dólar em relação às grandes moedas e exacerbando a depreciação das moedas emergentes.

O que isso indica no final das contas para o Brasil? Não dá para contar com uma queda do dólar para o alívio da inflação?

O que indica é que, para a gente, o cenário mais provável é um cenário em que o câmbio até o final do ano tende a fechar mais depreciado do que está hoje, incluindo já contando com a depreciação dos últimos dias. Esse ambiente global está ficando menos benigno, e é mais provável que continue se deteriorando à medida em que o mercado vai incorporando a ação dos bancos centrais, e em especial do Federal Reserve. É por causa disso que há uma reprecificação nos preços dos ativos de todo o mundo, potencialmente deteriorando o preço de países emergentes.

Nesse ambiente, o que esperar para a economia brasileira? Vocês revisaram para cima a previsão para o PIB. Por quê?

A revisão do PIB (Produto Interno Bruto) derivou dos sinais do primeiro trimestre que foram um pouco melhores do que a gente esperava até então. Em fevereiro, tivemos indicadores melhores, em especial, produção industrial e as vendas no varejo. O dado do PIB do quarto trimestre já tinha sido melhor do que a gente esperava. Mas decidimos não fazer uma revisão naquela época por causa da guerra da Ucrânia e da Rússia. Esse efeito da guerra na atividade está sendo mais localizado na Europa. Mas nas outras regiões ficou limitado. A gente mudou a projeção do PIB para positivo, de 0,1% este ano (antes a previsão era de -0,3%).

É uma projeção ainda de crescimento muito baixo, e menor do que a de outras instituições. Por quê?

Tem uma grande incerteza sobre quando a alta da Selic deve produzir um efeito negativo no PIB brasileiro. Estou vendo várias casas reduzindo o PIB de 2023, em vez do PIB de 2022 por causa desse componente. Nos nossos modelos, o juro real já está acima do neutro já há praticamente dois trimestres. Acredito que esse efeito já vai atuar agora no segundo, no terceiro e no quarto trimestre deste ano, como um vento contrário para a atividade. Estou vendo meus pares falando que esse efeito vai estar mais para o final deste ano do que início do ano que vem.

O que estão projetando para os próximos trimestres?

A gente prevê um crescimento do PIB no primeiro trimestre da ordem de 0,2%. E nos próximos, a gente está com uma média de contração de -0,2%.

Apesar da revisão para cima, não tem nada a se comemorar.

A gente está falando de um crescimento um pouco acima de zero. Não é um dado promissor. Mas é melhor do que a gente previa antes. O ponto principal é que vai ter um custo na atividade. Para trazer a inflação para a meta, existe uma taxa de sacrifício. Esse sacrifício é um crescimento menor temporariamente. E este ano a gente deve ter que pagar esta taxa de sacrifício.

E no ano que vem?

Para o ano que vem, a gente está com uma estimativa de 1,2% para o PIB, que na nossa conta é levemente abaixo do que a gente acha que é o PIB potencial, que é de 1,5%. O crescimento do Brasil pré-pandemia rodava na casa de 1,5% por ano. Foi assim em 2017, 2018 e 2019. Era mais ou menos o que a gente crescia. O importante aqui é que o Brasil fez a política monetária (necessária), apertou, a economia desacelerou. A expectativa é trazer a inflação para baixo, e aí o BC começa a cortar taxa de juros. Então esse vento contrário (dos juros elevados) sai. E a economia volta para o seu crescimento potencial, de 1,5%. Por isso a gente tem previsão de 1,2% para 2023 e depois 1,5% para 2024. É um sacrifício que tem que ser feito. Não tem como trazer a inflação para baixo se não pagar algum tipo de taxa de sacrifício do ponto de vista da atividade econômica. A não ser que conte com choques favoráveis, como uma queda brusca do preço do petróleo ou o câmbio parado. Mas aí é contar com a sorte.

E não dá para contar com isso.

Não dá para contar com a sorte. A gente não está num nível de inflação confortável que pode se ficar sentado no piloto automático esperando vir um choque favorável. A gente está com uma inflação de dois dígitos há dois anos. No ano passado já foi dois dígitos. Para esse ano, a previsão é de 7,8%. Mas nesse momento ela está em dois dígitos. A gente não pode acomodar. Não pode baixar a guarda num quadro como este.


Fonte: ESTADÃO - 02/05/2022 07h:36

domingo, 1 de maio de 2022

No Rio: 'Esse é branco mesmo': ato pró-Silveira tem sósia de 'viking do Capitólio'

 

Daniel Silveira, ao lado de homem travestido de "viking do Capitólio", em Niterói (RJ) - Matheus de Moura/UOL
Daniel Silveira, ao lado de homem travestido de 'viking do Capitólio', em Niterói (RJ)
Imagens: Matheus de Moura/UOL


Confira a reprotagem completa no link abaixo do site UOL de hoje(1)

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/05/01/ato-por-daniel-silveira-em-niteroi-reune-em-torno-de-3000-e-maioria-branca.htm

Lu do Magalu é a influenciadora virtual mais seguida do mundo

                                      imagem:reprodução

Lu, a realidade virtual da Magazine Luiza se tornou a maior influenciadora virtual do mundo. Criada em 2003, ela tem quase 6 milhões de seguidores no Instagram, quase 15 milhões no Facebook e 1,3 milhões no Twitter.

Segundo o levantamento The Most-Followed Virtual Influencers of 2022 (Os influenciadores virtuais mais seguidos de 2022), do site Virtual Humans, somando todas as redes ela possui mais de 55 milhões de fãs. A Lu apareceu no YouTube em 2009, lá, ela possui 2,63 milhões de inscrições e o Canal da Lu é basicamente formado de tutoriais sobre tecnologia, com muito conteúdo sobre o mundo dos games.

E ela não faz só publicidades dos produtos vendidos na loja: além de ser uma gamer assumida, Lu sempre se posiciona em assuntos como moda, feminismo e dá a sua opinião sobre o cotidiano.

“Pra mim, a moda é um espaço incrível e diverso, onde posso me expressar e fazer conexões potentes”, disse a influenciadora virtual numa publicação sobre moda, com Gaby Amarantos. Bem humorada, ela também compartilha memes sobre o dia a dia e se empolga quando o assunto é música. Confira:

Fonte: ESTADÃO - 01/05/2022

Bahia: Governador avalia reajuste em valor de bolsas de pesquisa para 4 universidades baianas

                                            foto:reprodução

O governador Rui Costa declarou neste domingo (1°) que avalia o reajuste do valor das bolsas de pesquisa, principal  renda de estudantes de mestrado e doutorado em universidades baianas. A situação de quem depende do benefício tem piorado ao longo do tempo.

Há pelo menos nove anos, as bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb) estão com o valor congelado, sem serem corrigidos pela inflação (saiba mais aqui).

 

“Estamos avaliando e vendo a possilidade dos aspectos legais já que estamos no ano eleitoral e tudo aquilo que significa aumento de valor tem que passar pela procuradoria [do estado] para validar em função da lei eleitoral. A gente tem em valores totais hoje o primeiro lugar no Brasil em apoio a mestrado e doutorado em todas as áreas”, disse Rui ao Bahia Notícias ao participar da inauguração do Hospital Mater Dei Salvador.

 

NOVO HOSPITAL


Na ocasião, o chefe do executivo estadual reafirmou a intenção de uma Parceria Público-Privada para tocar as obras do Hospital do Sistema de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos Estaduais (Planserv) (veja mais aqui).

 

“Nós convidamos para que eles possam atender o Planserv, e também para participar de um projeto que já publicado de uma PPP [Parceria Público-Pivada] para o hospital do servidor de 400 leitos onde nós queremos concentar os serviços de alta complexidade”, disse.


Fonte:BN - 01/05/2022 17h:45

Em Salvador: Paisagista Kátia Soria conta sobre planejamento do Mater Dei

 

Natureza e bem-estar: Paisagista Kátia Soria conta sobre planejamento do Mater Dei Salvador
Foto: André Carvalho / Ag. Haack / BN Hall

A paisagista soteropolitana Kátia Soria foi a escolhida para projetar o Hospital Mater Dei, que passa por um evento de solenidade de inauguração neste domingo (1º). 

 

Diante da importante tarefa, Soria declarou ter ficado feliz em participar da construção da unidade, juntamente com o renomado arquiteto Siegbert Zanettini.

 

"Foi uma alegria muito grande por eles terem contratado uma paisagista de Salvador, eles estão valorizando os profissionais locais, estou muito feliz também de participar com Zenetti, que é um arquiteto renomado no país e no mundo, ele é um encanto, tem um conhecimento muito grande na arquitetura hospitalar", declarou a paisagista.

 

Para decorar o ambiente do Mater Dei, Kátia Soria levou em conta três aspectos que considera importante. "Tentamos trazer ao ambiente hospitalar um conceito de humanização, natureza e bem-estar, foi isso que fizemos com o paisagismo", finalizou.

 

Kátia Soria é paisagista há 24 anos e declara tentar trazer a natureza, uma de suas paixões, em cada estrutura que projeta.


Fonte:BN -01/05/2022 - 17h:38

Bolsonaro entra ao vivo e enaltece apoiadores em ato contra STF e TSE na Paulista

 

Bolsonaro entra ao vivo e enaltece apoiadores em ato contra STF e TSE na Paulista
Foto: Marcos Corrêa / PR

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) participou em vídeo neste domingo (1º) de ato na avenida Paulista, em São Paulo, recheado de ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
 

Bolsonaro fez rápido discurso no qual enalteceu seus apoiadores e disse dever "lealdade a todos vocês" e que irá "onde vocês estiverem". Ele falou ainda em "liberdade" e repetiu ser o chefe de um governo que "acredita de Deus" e que "defende a família".
 

Bolsonaro participou de forma virtual, ao vivo em vídeo, direto do Palácio da Alvorada, em Brasília.
 

Na Paulista, manifestantes exibiam cartazes e faixas contra o Poder Judiciário. "Bolsonaro exerça seu poder constitucional" e "Tribunal Superior Eleitoral é um partido político inimigo do Brasil" eram algumas das frases estampadas nos cartazes.

 

Foi de um carro de som na avenida Paulista, no 7 de Setembro do ano passado, que Bolsonaro exortou desobediência a decisões judiciais e xingou o ministro Alexandre de Moraes,do STF, relator de inquéritos que têm como alvo o presidente e seus aliados.
 

Antes disso, em abril de 2020, o inquérito dos atos antidemocráticos foi aberto no STF a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República) para investigar aliados do presidente envolvidos com as manifestações que defendiam o fechamento do Supremo e do Congresso, além da volta da ditadura militar.
 

Pela manhã, em Brasília, Bolsonaro foi a ato contra o Supremo. A manifestação foi esvaziada, enchendo menos de uma quadra da Esplanada dos Ministérios. O presidente ficou por cerca de dez minutos e cumprimentou apoiadores.
 

"[Vim] cumprimentar o pessoal que está aqui na manifestação pacífica em defesa da Constituição, da democracia, e da liberdade. Então parabéns a todos de Brasília, bem como todos brasileiros que hoje estarão nas ruas", disse em live aberta em suas redes sociais.
 

Aliados do presidente defendiam que ele não participasse dos atos neste domingo, por temor de discursos radicalizados que possam acentuar a crise entre os Poderes. Mesmo sem discurso, Bolsonaro marcou presença em um ato incentivado por ele e que tem objetivo atacar um outro Poder.
 

Já integrantes do Legislativo e do Judiciário, com ou sem a presença do chefe do Executivo, temiam que as manifestações possam reeditar os atos de raiz golpista de 7 de Setembro do ano passado. Em Brasília, havia cartazes com pedidos para destituição de todos os ministros do Supremo.
 

Um dia antes, Bolsonaro usou um evento oficial em Uberaba (MG) para convocar seus aliados a participarem dos atos convocados para este domingo, 1º de Maio.
 

Em recado direto ao STF, o presidente disse: "[Aqueles] que, porventura, irão às ruas amanhã, não para protestar, mas para dizer que o Brasil está no caminho certo. Que o Brasil quer que todos joguem dentro das quatro linhas da Constituição. E dizer que não abrimos mão da nossa liberdade."
 

Na última sexta-feira, Bolsonaro havia modulado o discurso de crítica ao Supremo. Em entrevista à rádio Metrópole, de Cuiabá, disse que não quer peitar a corte, mas afirmou que ela cometeu excesso.
 

Já ministros do STF, após a nova ofensiva do presidente com ataques ao Judiciário e ao sistema eleitoral, reagiram em série em defesa das urnas e das instituições democráticas e contra pressões políticas na corte.
 

As declarações ocorrem depois de dias de silêncio ou discrição dos magistrados em meio à tensão entre os Poderes, desencadeada pelo indulto concedido por Bolsonaro a Silveira após sua condenação pelo STF a 8 anos e 9 meses de prisão e agravada por falas do ministro Luís Roberto Barroso sobre as Forças Armadas, rebatidas pelo Ministério da Defesa.

Fonte: BN - 01/05/2022  - 17h:30
 

Delegado diz que Bolsonaro tirou autonomia que PT deu à PF

                                          foto:reprodução

O delegado Alexandre Saraiva, da Polícia Federal, transferido da Superintendência da PF no Amazonas após enviar ao STF um pedido de investigação contra o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, afirmou que o governo Bolsonaro “comprovou que é possível aparelhar” a corporação e que a prática “gerou um precedente perigosíssimo”. Segundo ele, o atual governo tirou da corporação a autonomia que teria sido conquistada depois de 2003, com os governos do PT.

Saraiva foi removido da Superintendência da PF no Amazonas no ano passado. Ele comandou a maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil e foi retirado do cargo um dia após apresentar ao STF uma notícia-crime contra Ricardo Salles. Saraiva acusava Salles de dificultar as investigações.

O delegado afirmou que entrou na PF em 2003 e que nunca tinha recebido uma ligação telefônica “de político ou de superior para fazer ou deixar de fazer alguma coisa”. Saraiva disse que ele e os colegas ficaram “mal-acostumados” e que acreditavam que a corporação não “voltaria nunca a ser a polícia da ditadura militar”.

As declarações foram feitas por Saraiva durante participação no podcast Ciência e Política.

Fonte:Guilherme Amado/Metropoles  01/05/2022 12h:18