A prefeitura de São Paulo bancou, em janeiro, um salário de R$ 76 mil a Bárbara Regina Correia de Moraes para ser coordenadora dos Centros de Informações Turísticas (CIT) da cidade. A remuneração acontece por intermédio da Agência Quarter, que a coluna vem mostrando pertencer a Marcelo e Victor Correia de Moraes, irmãos dela, ainda que esteja em nome de uma mulher que vivia de aluguel em um cortiço.
O valor é o dobro do salário de R$ 38 mil do prefeito Ricardo Nunes (MDB). O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), por exemplo, ganha cerca de R$ 36 mil. Mesmo com os polêmicos penduricalhos, só dois auditores fiscais do município ganharam mais do que isso em dezembro.
Além do salário de Bárbara – que sozinha ganha mais do que todos os técnicos em turismo somados que atendem turistas nos CITs –, a coluna encontrou diversas inconformidades nas prestações de contas do contrato de R$ 36 milhões entre a Secretaria Municipal de Turismo e a Quarter.
No papel, a empresa pertence a uma ex-sócia do secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, que é indicado político do vereador Gilberto Nascimento Jr (PL). O próprio Nascimento tem salário de R$ 26 mil – ou seja, Bárbara ganha o triplo de um vereador.
Em nota à coluna, a Quarter disse que o pagamento de R$ 70 mil a Bárbara trata-se de um bônus “condicionado ao cumprimento de metas e desempenho do exercício anterior” – ela trabalhou durante 11 dias para o projeto durante o ano interior. O bônus, pago com dinheiro público, não é previsto no contrato com a SMTur. Bárbara não respondeu pedidos de comentários.
Irregularidades em contrato
Desde o final de 2023, a secretaria de Turismo paga, por exemplo, pelo aluguel de uma televisão de 85 polegadas e de um “mapa tátil” em cada um dos oito Centros de Informações Turísticas. O mapa só existe no CIT da Paulista e as televisões vistas pela coluna têm, na verdade, 40 polegadas.
À coluna a Quarter alegou que “determinados espaços não comportavam” uma TV 85 polegadas e que, para produzir o mapa, depende de envio do material por parte da secretaria. Ainda assim, o contrato nunca foi redimensionado e, todo ano, a prefeitura paga R$ 200 à Quarter pelo aluguel de itens inexistentes.
A Secretaria de Turismo nunca questionou a ausência dos equipamentos e renovou o contrato em janeiro mantendo as cláusulas nunca cumpridas. A secretaria também paga, todo mês, R$ 785 por cada ponto de internet, um valor muito acima do mercado.
Pelo contrato, a Quarter deve oferecer, entre outros, um gerente, um coordenador-geral, cinco supervisores técnicos e 26 técnicos de turismo. Diferente dos contratos sem transparência que agência tem com a SPTuris como intermediária, neste ela precisa apresentar o holerite dos contratados, que precisam ser registrados com carteira de trabalho.
Esses documentos mostram que a prefeitura paga à Quarter R$ 9 mil por cada técnico em turismo, mas a agência paga menos de um terço disso (R$ 2,8 mil) aos trabalhadores, com carteira assinada. A mesma conta – um terço do pago à prefeitura à Quarter chegando no bolso do trabalhador – vale para todos os cargos mais baixos.
Enquanto isso, Bárbara, a irmã dos donos, foi contratada em 17 de dezembro (em substituição à própria mãe). Já em janeiro, foi premiada com um bônus de R$ 57 mil sobre seu salário fixo de R$ 19 mil, fazendo que seus rendimentos como gerente dos CITs chegassem a R$ 76.800. A prefeitura paga R$ 29 mil pelo cargo.
Na folha de ponto (acima), uma coincidência: em todos os dias trabalhados, Bárbara entrou exatamente às 9h, saiu para almoçar exatamente às 12h, voltou exatamente às 13h e finalizou o dia exatamente às 18h, o que pode ser um indício de que a folha foi manipulada.
Além dela, a prefeitura paga acima do que ganha o prefeito a Ingrid Sanches de Almeida, que recebeu uma bonificação de R$ 30 mil em janeiro, fazendo seu salário ser de R$ 42 mil – vide documento acima.
Até o fim de 2024, Ingrid era quem liberava pagamentos à Quarter pela Secretaria de Turismo, já que trabalhava como coordenadora de Administração e Finanças, com salário de R$ 12,7 mil. Pediu para ser exonerada exatamente para trabalhar na Quarter, com salário base mais baixo, de 12,2 mil. A coluna apurou que ela é, na prática, a contadora da agência, paga pela prefeitura.
A Quarter foi contratada para realizar o serviço a partir de um pregão, em 2023. O contrato foi renovado no início de 2025 e novamente em janeiro deste ano. Nesse processo, a SMTur precisava cotar o serviço com três empresas, para verificar se renovar com a Quarter era a melhor opção.
As três empresas escolhidas pela SMTur para a pesquisa de mercado foram a VM produções, de Victor Correia de Moraes (irmão de Bárbara e de Marcelo Moraes, diretor operacional da Quarter), a Oleiro (de Claudete Santos, que na prática é a coordenadora dos CITs) e com a LGL Promoções (organizadora do Sports Summit e que, para prestar contas de repasse da prefeitura, cota com a Quarter como fornecedora), que envia sempre orçamentos muito acima do mercado – por exemplo, cobrando R$ 1,3 mil mensais por um ponto de internet. A LGL é fornecedora de lanches e buffets para eventos da prefeitura.
O que diz a Quarter:
Ao mencionar valores contratuais, é indispensável esclarecer que se tratam de contratações sob o regime CLT, cujo custo total não se restringe ao salário base do profissional. O valor global contratado compreende a integralidade dos encargos trabalhistas e previdenciários obrigatórios — tais como INSS patronal, FGTS, férias acrescidas de 1/3, 13º salário, provisões rescisórias, DSR e demais adicionais legais — além dos tributos incidentes.
Incluem-se ainda custos indiretos inerentes à operação, como seguros, despesas administrativas, gestão contratual, recrutamento e seleção, treinamento, coordenação operacional, sistemas de controle, compliance e demais recursos indispensáveis à execução regular e contínua dos serviços.
O valor global representa o custo total da operação, não podendo ser confundido com remuneração líquida ou salário nominal do colaborador. Diferenças apontadas em comparações simplificadas não configuram margem líquida, mas refletem a composição integral de custos obrigatórios e estruturais, conforme previsto em edital e na legislação vigente.
Referente ao mapa tátil, se trata de uma produção de conteúdo especifica e aguardamos o envio do material por parte da secretária.
As Centrais de Informação Turística (CITs) não possuem um padrão de metragem e cenografia uma vez que estão instaladas em diversos espaços, com características arquitetônicas próprias e limitações estruturais específicas.
Verificou-se, após análise técnica in loco, que determinados espaços não comportavam esse equipamento, seja por restrição de metragem ou layout.
Diante da inviabilidade física e com o objetivo de assegurar o cumprimento contratual e a adequada prestação do serviço, os equipamentos foram dimensionados conforme as condições reais de cada espaço disponibilizado pelo poder concedente, mantendo a funcionalidade e a qualidade do atendimento ao público.
No que se refere ao valor de R$ 70 mil mencionado, esclarece-se que não corresponde a salário fixo da colaboradora. O montante diz respeito a pagamento de caráter excepcional, que inclui bônus previsto na política interna de remuneração variável da empresa, programado para o mês de fevereiro e condicionado ao cumprimento de metas e desempenho do exercício anterior. A remuneração fixa pode ser aferida pela média dos demais períodos constantes nos registros oficiais.
A Quarter reafirma que atua em estrita conformidade com as normas trabalhistas, fiscais e contratuais aplicáveis, mantendo todos os recolhimentos e obrigações devidamente adimplidos e passíveis de verificação pelos órgãos competentes.
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