sábado, 11 de fevereiro de 2017

Medicina: A brasileira, o israelense e o bebê palestino

                  Sem fronteiras. Antes da operação, em Israel, Denise (no centro) explica o procedimento aos médicos árabes e judeus-foto:reprodução
“Foi uma das experiências mais emocionantes da minha carreira.” Vinda de uma médica que tem como rotina operar bebês ainda no útero – por essência algo já tocante –, a frase resume a importância da história da qual a cirurgiã Denise Pedreira, de São Paulo, acaba de fazer parte. Denise é uma das maiores especialistas em Medicina Fetal do mundo. No final de janeiro, ela esteve em Israel para, junto com colegas judeus e palestinos, salvar um bebê palestino. Todos na mesma sala de operação, dividindo crenças e línguas distintas e provando, mais uma vez, que barreiras políticas ou religiosas são facilmente derrubáveis quando prevalece o senso de humanidade.
O palco desse acontecimento foi o hospital Hospital Hadassah, no lado judeu de Jerusalém. Lá, o coordenador do serviço de medicina fetal é o israelense Yuval Gielchinky. Em 2014, durante um congresso na França, ele conheceu a técnica criada por Denise para a correção da mielomeningocele. Trata-se de um defeito congênito caracterizado por uma falha no fechamento da coluna que deixa exposta a medula espinhal (onde estão os nervos que ligam o cérebro ao resto do corpo).O ideal é que seja corrigido até a 26ª semana de gestação para evitar sequelas neurológicas. Até a criação de Denise, a única forma de fazer isso era a realização da cirurgia a céu aberto (leia mais no quadro). O procedimento embute grande risco de vida à mãe, especialmente, e ao feto. A médica desenvolveu uma forma de consertar a má-formação usando a fetoscopia, estratégia que resulta em risco bem menor de complicações.
Yuval é amigo do palestino Firas Abdeljawad. Os dois se conheceram em 2009, durante o curso de especialização no King´s College Hospital, em Londres. Desde então vivem uma amizade que fronteira nenhuma ameaça. O judeu Yuval opera no Hadassah as pacientes do árabe Firas, já que no hospital do lado palestino consegue-se apenas diagnosticar os problemas. Corrigi-los, só na instituição judia, onde as palestinas são atendidas de graça.
Foi nesse cenário que entrou a brasileira Denise. Ela e sua equipe receberam o convite para ensinar o método laparoscópico aos israelenses. Estavam selecionadas duas pacientes, uma israelense e outra, palestina. Primeiro foi operada a israelense. No dia seguinte, a palestina, que se encontrava em situação mais difícil.
PAUSA PARA REZAR


Antes do procedimento, já no centro cirúrgico, Denise deu uma aula aos colegas. Os palestinos chegaram atrasados. Tinham encontrado dificuldades para passar do lado árabe à área judia de Jerusalém. Dentro da sala, as diferenças desapareceram: ou foram superadas ou respeitadas. Único a falar árabe, o neurocirurgião israelense encarregou-se de conversar com a paciente palestina. “Ele deu uma super atenção a ela”, lembra Denise. No meio da cirurgia, os árabes se retiraram por um momento. Foram rezar.
As duas pacientes estão bem e aguardam o nascimento de filhos saudáveis graças à união de palestinos, judeus e brasileiros.“Salvar vidas está acima de qualquer fronteira”, disse Yuval à ISTOÉ. “Tenho colegas em cada país do mundo”, conta o médico. Ele, Denise e Firas protagonizaram mais um belo capítulo da medicina que associa a excelência técnica com o verdadeiro valor de cuidar, não importa de quem.

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         imagem:reprodução




fonte:Revista Istoé/edição 11/02/17/reprodução
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