quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Universitários relatam casos de depressão em rede social

Alunos da Universidade Federal da Bahia (Ufba) relataram diversos casos de depressão, ansiedade e até mesmo síndrome do pânico em uma rede social. Discursos como “eu não estou vivendo, estou apenas sobrevivendo”, “só penso em desistir da vida porque simplesmente não consigo mais sorrir sem depender de alguém” e “eu não tenho vontade de nada, só de morrer” foram compartilhados de forma anônima na página “Segredos UFBA” do Facebook. 
De acordo com a psicóloga Sarah Lopes, do Hapvida, transtornos psíquicos são bastante frequentes no ambiente acadêmico. “A mudança de rotina e a pressão que a universidade ocasiona nos alunos, com muita cobrança e necessidade de sucesso, faz com que as pessoas fiquem cada vez mais preocupadas e insatisfeitas”, afirmou Sarah. 
A depressão é um transtorno em que há uma alteração química no cérebro do indivíduo fazendo com que algumas substâncias cerebrais deixam de ser produzidas. Com esta situação não só a psique é deprimida, assim como os órgãos, o que acaba ocasionando sintomas corporais como cansaço, irritação, entre outros. Alguns fatores podem disparar o processo depressivo, como uma baixa tolerância a frustração, um desânimo, desestímulo, entre outros. De acordo com a psicóloga, a universidade não se configura como a causa da depressão, mas sim como um possível gatilho motivador. 
Sarah destaca, ainda, que para os transtornos serem instalados é necessário que exista uma pré-disposição. “Geralmente o processo é gradual. O que acontece é que nos primeiros momentos ninguém dá muita importância porque ele é gradativo e geralmente não é muito perceptível, mas existem certos fatores que podem desencadear”, ressaltou Sarah. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2020 a depressão será a maior causa incapacitante do mundo; a doença chegou a ser considerada o mal do século XXI, consolidando-se como uma epidemia global. Mesmo com a frequência dos casos, a depressão continua sendo tratada com preconceito, chegando a ser taxada como “frescura” por pessoas que a desconhecem.
Depressão na Ufba

A aluna Mariana Sokolonski, de 28 anos, que faz licenciatura em ciências naturais, relatou que teve depressão ao decorrer de seu primeiro curso na Ufba há 10 anos e que as pessoas, inclusive sua mãe, taxavam a doença como “frescura”. Ela conta que percebeu a doença quando começou a querer se machucar e se matar. “Eu queria me machucar e ficava mal sem nenhum motivo. Eu queria abrir um pacote de salgadinho e, quando não conseguia, tentava me ferir, por exemplo. A partir disso eu corri atrás de um especialista”, afirmou Mariana.  Com relação ao motivo, Mariana relata que a rotina universitária foi um dos fatores que desencadeou o seu processo depressivo. “Tinha outros fatores, mas eu me sentia muito só e muito pressionada quando entrei na faculdade. Eu não consegui encontrar apoio ninguém lá e acabei tomando um horror enorme que não consegui mais voltar para o curso que fazia”, contou. Ela ressaltou, ainda, que o então namorado dela chegou a terminar o relacionamento por conta da doença. “Ele não aguentou a barra”, revela. Mariana procurou apoio e hoje em dia não tem mais depressão, além do psicólogo ela buscou ajuda através da religião, frequentando um centro espírita.

Um estudante de administração que preferiu não se identificar conta que a universidade agravou sua depressão. “O período da universidade é muito difícil desde os meses que antecedem a escolha do curso. Quando você entra se depara, muitas vezes, com horários difíceis, uma convivência com classes sociais e realidades distintas e com a incerteza sobre o futuro”, explicou. Ele ressaltou que fez três vestibulares diferentes e que até o último dia de matrículas teve dúvida em que curso escolher. “Era muito difícil manter o sorriso e acordar cedo. Eu me sentia cansado fisicamente o dia inteiro e, com o passar dos semestres, o meu interesse só caía. Passei a faltar e me atrasar para as aulas. A situação piorou quando a época do estágio veio, porque eu precisava trabalhar e o desgaste só aumentava”, relatou. O estudante adicionou, ainda, que não tinha amigos naquela época e que ele escondia a situação para os mais chegados. Ele destacou que ainda tem depressão e que a situação ainda é muito presente em seu dia a dia. “Eu acredito que se tornou crônica”, ressaltou.



Já Lunna Barros, 21, estudante do Bacharelado Interdisciplinar de Ciências e Tecnologia, afirmou que não desenvolveu depressão, e sim ansiedade. “Desde a época do cursinho eu já apresentava alguns sintomas de ansiedade, mas nada demais. Quando entrei para a universidade me deparei com outras questões que agravou o quadro. Passei a ter crises fortes de dor de barriga, enjoo, ânsia de vômito e diarreia. Eu cheguei a ir ao hospital duas vezes para ver se tinha algum problema, mas nunca dava nada nos exames”, contou Lunna. Ela conta que por estar no Bacharelado, que exige uma nota alta para ingressar em outro curso, a situação ainda é pior. “Eu passei a não conseguir nem dormir, principalmente em época de provas. Eu fui procurar ajuda e agora consigo lidar melhor com a ansiedade. Ainda tenho alguns sintomas mas não tive mais crises”, afirmou. Todos os entrevistados afirmaram que, se tivessem que aconselhar pessoas que estão com indícios desses transtornos, indicariam que procurassem um especialista.

“Tamo Junto”

Uma mobilização ocorreu após a divulgação dos posts relatando depressão e síndrome no “Segredos UFBA”. Alguns alunos se reuniram e criaram um grupo para que pessoas que apresentassem transtorno se reunissem e debatessem sobre o tema. “O grupo surgiu após o post. A gente queria reunir pessoas, como se fosse um grupo dos alcóolicos anônimos, para discutir sobre as doenças”, explicou Manuela Barreiros, 24, uma das criadoras do grupo. A estudante de filosofia conta que o grupo já tem quase 170 membros e que já foi criado um outro grupo no WhatsApp. “A gente criou esse grupo para dar um suporte para pessoas que passarem mal, ou que tiverem alguma crise. Já aconteceram casos, inclusive, que a gente auxiliou e tentamos acalmar um dos membros dando dicas”, explicou Manuela. Outra medida realizada após a criação do “Tamo Junto” foi a criação de um grupo de crescimento com a professora Denise Vieira, que trabalha na ouvidoria da Ufba. “Depois de ver os posts do Segredos UFBA eu vi que alguns alunos tinham criado o grupo e resolvi fazer esses encontros para que eles debatessem temas da convivência universitária, nos aspectos emancipadores e nos aspectos dos obstáculos da vida acadêmica”, contou Denise. Ela ressaltou que existem casos que foram relatados à ouvidoria e que por isso, também, ela resolveu criar o grupo. O próximo encontro está marcado para dia 15 de outubro, na sede da ouvidoria da Ufba.

Suporte

A Ufba afirmou que oferece alguns serviços de apoio para o estudante, dentre os compartilhados com a população e os exclusivos. Os exclusivos são o Serviço Médico Universitário, que conta com diversas especialidades médicas, além da psiquiatria e da oferta de psicoterapia; e a Pró-reitoria de ações afirmativas que tem plantões de assistência psicossocial de manhã e pela tarde, atendendo demandas espontâneas. Já externamente existe o Instituto de Psicologia, que oferece atendimento à comunidade interna e externa, o Hospital das Clínicas e o Ambulatório Magalhães Neto.



Faculdades particulares
 A Universidade Católica do Salvador (UCSal) afirmou que dá suporte para alunos através do Plenus, que é um centro de atendimento à comunidade interna. De acordo com a assessoria, o Plenus acolhe alunos, funcionários e professores nas demandas psicossociais e pedagógicas. 
A Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Bahiana) divulgou que tem atividades clínicas, com atendimentos psicológicos, psicopedagógicos e psiquiátricos, direcionados a professores, estudantes e, quando necessário, atendimento à família. O Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge) afirmou que tem um instituto de saúde que possui, dentre outras especialidades, atendimento na área de psicologia. A Universidade Salvador (Unifacs) não respondeu o Bahia Notícias até o fechamento desta matéria.

FONTE: COLUNA SAÚDE DO SITE BAHIA NOTÍCIAS DE SALVADOR/REPRODUÇÃO
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