sexta-feira, 1 de maio de 2026

DF: “História de apagamento”, diz OAB sobre festival de música sem negros


                                            foto: Gustavo Moreno/Especial Metrópoles



 A Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF) se manifestou, nesta quinta-feira (30/4), sobre a ausência de artistas negros na programação do Festival Melodya, que integrou o Festival de Música Negra, no último fim de semana, em Ceilândia (DF). Para a entidade, a medida configura apagamento cultural.

“A participação quase nula de artistas negros na grade revela uma contradição evidente entre o discurso e a prática”, declarou ao Metrópoles a presidente da Comissão de Igualdade Racial (CIR) da OAB-DF, Tuanne Costa Silva. “Não se trata apenas de programação, mas de representatividade, coerência e respeito à cultura negra”, completou.


Essa exclusão também dialoga com uma história longa de apagamento. Quando um evento vinculado à música negra quase não abre espaço para artistas negros, reproduz-se uma lógica histórica de invisibilização que precisa ser enfrentada com responsabilidade.”

A presidente da Comissão de Igualdade Racial afirma que a pasta não foi formalmente acionada, mas que segue acompanhando a repercussão do episódio. Tuanne também comentou a respeito dos comportamentos do cantor Felipe Sales, que fez parte do festival e fez piada de cunho preconceituoso sobre o caso.

“Ainda que os conteúdos tenham sido retirados do ar [por parte do cantor], isso não afasta, por si só, a análise da conduta já praticada”, alerta Tuanne Costa Silva. “A orientação é que as pessoas eventualmente ofendidas busquem a assistência de um advogado especializado para avaliação das medidas cabíveis no caso concreto”, encerrou.

Como mostrou o Metrópoles, o cantor sertanejo Felipe Sales comentou, em meio a profissionais da cultura negra, que se sentia “um negão”, fazendo pouco caso da revolta da população. Felipe também publicou, em novembro de 2025, uma série de imagens com ofensas ao jogador brasileiro Vinícius Júnior para divulgar uma música. Após a publicação da reportagem, o indivíduo retirou os conteúdos do ar.

Festa preta sem artistas negros


O Festival de Música Negra, realizado entre 24 e 26 de abril, na Praça da Bíblia, em Ceilândia (DF), criou uma espécie de subevento, o Festival Melodya, dentro da própria grade de programação. O Melodya contou com 20 atrações, mas quase nenhum desses artistas são negros, indo contra o próprio nome do Festival de Música Negra.

O Melodya contou com artistas de renome nacional, como a cantora Paula Guilherme, os MCs Jhey e Matheuzim, o DJ Lucas Beat, entre outros. A funkeira Melody chegou a ser anunciada, mas não se apresentou. Após a divulgação do caso, o perfil do evento no Instagram foi desativado.

O Festival de Música Negra, que está em sua terceira edição, é organizado pela Associação Brasiliense e Promoção à Cultura, Diversidade e Formação do DF (ABC-DF). O projeto recebeu R$ 700 mil de fomento por parte da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Pnab).

Criada em 2022 pelo governo federal, a Pnab repassa recursos aos estados e ao DF para fomentar o setor cultural do país. O Ministério da Cultura é responsável por gerir a iniciativa.

Outro lado


Em resposta à reportagem, a produtora ABC-DF informou que possuía muito espaço vago na grade de programação e não dispunha de recursos financeiros para contratar artistas locais. Firmou-se, então, uma parceria com uma produtora de fora do DF que cuida da carreira dos artistas exibidos anteriormente na reportagem. O Festival Melodya, portanto, teria nascido dessa parceria.

0 comentários:

Postar um comentário