Miller, assessor de comunicação de Donald Trump, e Flávio Bolsonaro (Reprodução/Instagram/Jason Miller)
Muitas são as razões políticas que levaram Jason Miller, assessor de comunicação especial da Casa Branca, a fretar o jatinho particular que transportou o fugido Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro e candidato derrotado à presidência, a deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos. As motivações do auxiliar de Donald Trump não são alheias ao mundo dos negócios. Miller é registrado como um dos principais lobistas de uma concorrente de mineradoras e metalúrgicas brasileiras na produção de pelotas de ferro e aço nos EUA, a Mesabi Metallics, para quem presta serviços desde 2025.
Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a firma SHW Partners LLC., da qual Jason Miller é sócio, faturou US$ 240 mil, ou R$ 1,3 milhão (na cotação atual do câmbio), para representar a Mesabi Metallics no Congresso.
O assessor, que presta serviços a Trump desde junho e tem relação antiga com o presidente americano e a família Bolsonaro, exerceu sua influência na Casa Branca para viabilizar um projeto da Mesabi que reduz a dependência da indústria americana de exportações de pelotas de ferro, cujo principal fornecedor é o Brasil, por meio da Vale e da Samarco, joint venture da mineradora com a BHP.
Em setembro, a Mesabi anunciou um investimento de US$ 15 bilhões para construir um moinho para fabricar aço. O projeto se tornou viável somente após o tarifaço de Trump aos principais exportadores da commodity metálica aos EUA, como o Brasil.
Sob efeito de uma taxa de 37,5% ao entrarem no mercado americano, o aço é um dos itens mais exportados do lado brasileiro da balança comercial entre os dois países. Dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), do MDIC (Ministério de Desenvolvimento de Indústria e Comércio), apontam que 71,1% da exportação de produtos semi-acabados ou em forma primária de aço e ferro foram destinados aos EUA entre janeiro e setembro deste ano.
O papel de Jason Miller na fuga de Flávio — e no lobby
Fontes da agência de notícias “Reuters” e do jornal “The New York Times” apontam Jason Miller como fiador do voo do jato privado Gulfstream G400, operado pela companhia de táxi aéreo argentina Baires Fly, que saiu de Puerto Iguazu a Guaiaquil, no Equador, levando Flávio Bolsonaro, sua esposa e as duas filhas para os EUA.
A Casa Branca informou que Flávio Bolsonaro terá visto e poderá permanecer nos EUA por tempo indeterminado, sob a condição de “parole”, uma autorização que o governo americano dá a quem pede refúgio por razões humanitárias.
Documentos do Ato de Divulgação de Lobby (LDA-2), submetidos a cada trimestre pelas firmas que movimentam negócios junto aos parlamentares americanos, mostram que a SHW Partners atuou em defesa dos interesses da Mesabi Metallics por quase um ano, entre 15 de agosto de 2025 até 31 de julho de 2026.
Diferente de como funciona no Brasil, o lobby profissional é uma atividade regulamentada nos Estados Unidos. Escritórios de relações governamentais podem ser contratados tanto por empresas e organizações da sociedade civil americanas quanto por órgãos estrangeiros, desde que prestem contas ao Congresso sobre os contratos, valores e a atividade-fim.
Formulários da SHW Partners indicam que Miller atua como lobista desde 2020, no final do primeiro mandato de Trump, e é o único representante inscrito pela firma. É ele quem assina os formulários enviados às autoridades. Próximo a Trump, voltou a percorrer os corredores do Congresso americano em nome do lobby mais recentemente, quando o empresário tomou posse para seu segundo mandato.
De largada, Jason Miller firmou um contrato com a embaixada da Índia em Washington em abril de 2025, com promessa de prestar “consultoria estratégica, planejamento tático e assistência” nas relações governamentais do consulado indiano junto ao Congresso e à Casa Branca. A embaixada concordou em pagar US$ 150 mil ao mês para Miller, durante um ano, totalizando US$ 1,8 milhão, sendo que US$ 450 mil seriam adiantados a cada trimestre.
Em agosto do mesmo ano, ele firmou outro contrato com a Mesabi Metallics. A mineradora, apesar de operar nos EUA, é controlada por um conglomerado indiano chamado Essar Group, dono de 100% da Mesabi, segundo os formulários LDA-2.

A empresa precisava destravar a aprovação de um megaprojeto de infraestrutura que combinaria por meio de uma ferrovia uma mina de ferro, a primeira a ser inaugurada em 50 anos no estado de Minnesota, construída no Cinturão do Ferro do estado, com um moinho de aço em Iowa. Para isso, era necessário afrouxar leis ambientais do governo do ex-presidente Joe Biden.
Sob Biden, a mineração no Cinturão de Ferro foi proibida por possível dano ambiental à Floresta Superior Nacional dos EUA, localizada no norte de Minnesota.
Em 2025, a Mesabi teve um orçamento de US$ 140 mil para lobby. Dessa verba, US$ 120 mil foi para a SHW Partners, de Miller, segundo os LDA-2 enviados ao Congresso, o que corresponde a 85% do total destinado. Esse valor, por sua vez, correspondeu por 78% da receita da SHW com o lobby no ano passado, de US$ 153.332.
Em 26 de abril de 2026, Jason Miller terminou seu contrato com a embaixada da Índia em Washington e, como presente de despedida, no dia seguinte, Trump reverteu a proibição da mineração no Cinturão de Ferro de Minnesota levantada pelo governo Biden.
Depois da queda da proibição, a Mesabi pagou então mais US$ 120 mil para a SHW Partners no segundo trimestre deste ano, conforme declarado pela empresa em formulário assinado por Jason Miller em 27 de julho. O contrato com a Mesabi terminou quatro dias depois, e Miller se tornou assessor especial da Casa Branca em setembro, com a saída da porta-voz de Trump, Karoline Levitt.
A balança contra o Brasil
Após o revés ambiental, o projeto da Mesabi Metallics tornou-se economicamente viável já sob o pretexto do tarifaço. Depois de Donald Trump aplicar tarifas a parceiros comerciais partir de abril de 2025, ficou mais barato extrair ferro e transformá-lo em aço nos EUA.
O projeto da Mesabi, assessorada por Jason Miller, era visto pela administração Trump como uma forma de proteger a indústria do aço americana, gerar mais empregos e uma resposta aos preços voláteis de produtos exportados com o tarifaço.
O Brasil é o maior exportador de ferro e aço dos EUA, e a situação para importações brasileiras piorou a partir de julho deste ano, quando os EUA resolveram aplicar uma sobretaxa de 25% que, somada à alíquota de 12,5%, resultou em uma taxa de 37,5% sobre produtos brasileiros.
Ao aço brasileiro foi aplicada a tarifa cheia. Contudo, o minério extraído ficou isento. Isso porque o Brasil tem um papel essencial para suprir a fatia do consumo do país que não é autossuficiente. Dados do Secretaria de Geologia do Departamento de Interior dos EUA mostram que o país importou 13,4 milhões de toneladas do minério entre 2021 e 2024. Desse total, 58% veio do Brasil, mais que o dobro da oferta do segundo maior exportador aos americanos, o Canadá, com 21%.
A Secex aponta que há uma queda de exportações do setor, em paralelo ao avanço da mineração sob Trump. Em agosto, mês seguinte ao tarifaço que mirou o Brasil, as importações de minério de ferro caíram de US$ 59 milhões para US$ 25,9 milhões.
O recado ao Brasil
O tarifaço foi decisivo para a abertura da mina de minério de ferro da Mesabi Metallics, como disse o próprio Donald Trump na cerimônia de anuncio de um projeto de US$ 15 bilhões para erguer o moinho de ferro em Iowa. A Mesabi ainda pretende investir mais US$ 3 bilhões para concluir a mina de ferro em Minnesota.
Para Trump, o projeto vem em bom tempo: Iowa e Minnesota são dois dos estados onde o partido Democrata, de oposição, tem fortes candidaturas que podem determinar a retomada do Senado americano das mãos dos Republicanos, que hoje têm maioria na Casa.

O presidente americano tem sido um ávido defensor das tarifas como uma forma de trazer indústrias de volta ao território americano, mesmo que, ao fim da cadeia, o valor pago pelas tarifas seja repassado ao consumidor.
“Nossa indústria está agora se reerguendo, de volta à vida. Todos estão construindo suas fábricas e plantas aqui porque não querem pagar as tarifas. Realmente, não é muito complicado”, comentou Trump durante o anúncio.
Ao justificar o discurso de Donald Trump, o secretário de comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, mandou um recado ao Brasil:
“[A mina] de dois bilhões e meio de dólares que produzirá minério de ferro para transformá-lo em pelotas de ferro. De onde vem esse ferro hoje em dia? Nós o importamos primeiramente do Brasil. Então dependemos do Brasil para fazer nosso aço na América porque o material vem de fora do país.”
fonte:por Pedro Knoth/AMADOMUNDO.COM - 03/11/2026









