foto:reprodução
A São Roque Prev possui duas atas antagônicas sobre a reunião em que seu Comitê de Investimentos decidiu comprar R$ 93 milhões em letras financeiras sem garantias do Banco Master, até o limite permitido. A decisão tornou o regime próprio de previdência social dos servidores públicos o mais afetado do país pela liquidação do Master pelo Banco Central.
Uma das atas, produzida no dia seguinte à reunião e enviada a órgãos de controle, diz que os conselheiros concluíram que o Master traria risco ao SRPrev – e compraram as letras mesmo assim.
A outra ata, publicada no site do regime próprio de previdência social dos servidores públicos de São Roque, relata que os conselheiros entenderam que investir no Master não aumentaria o risco.
A divergência foi notada pela vereadora Dani Castro (PSD), que tenta reunir assinaturas para a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre os aportes da São Roque Prev no Master. A base de apoio ao prefeito Guto Issa (PSD), formada por oito dos 15 vereadores, tem barrado as discussões.
Procurada pela coluna, a São Roque Prev confirmou a existência de duas atas e afirmou que não consta, nos arquivos da entidade, qualquer documento ou registro formal que esclareça a existência delas.
O que aconteceu em São Roque
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) permite que regimes próprios de previdência social (RPPS) aportem até 20% em ativos de renda fixa, e a São Roque Prev decidiu chegar a esse limite exclusivamente no Master.
A decisão de vender letras financeiras do BTG para comprar do Master foi tomada em reunião do Comitê de Investimentos em 27 de março de 2024. Um parecer técnico da consultoria Crédito & Mercado apontou que a substituição de letras com IPCA + 6,15% no BTG por uma de IPCA + 6,90% no Master geraria um ganho real de 7,75% mais a inflação acumulada de um período de 10 anos. O documento citou também que o banco tinha “modelo de gestão descentralizada, baseado em princípios de governança corporativa”.
A divergência nas atas vem a partir daí. Apesar de um relatório elogioso ao Master, a primeira versão da ata, produzida no dia seguinte da reunião e enviada à Câmara Municipal, ao Ministério da Previdência e a outros órgãos de controle, dizia que os membros do comitê entenderam que o Master “trará risco ao SRPrev”.
A ata publicada no site – e arquivada fisicamente na sede da SRPrev – diz o contrário: que o entendimento foi de que o Master era um banco que “não aumentará risco”. Este documento tem três vistos por página, enquanto a versão original tinha somente dois. Ambas contam com assinaturas de Vanderlei Massarioli, então presidente da São Roque Prev, e duas conselheiras: Lisete de Fátima Oliveira e Solange Siqueira Duarte Silva.
Massarioli não atendeu às ligações da coluna, nem respondeu à mensagem enviada. Solange desligou o telefone assim que este colunista se apresentou. Lisete não quis comentar.
De acordo com Bruno Caparelli, atual presidente da São Roque Prev, a ata encaminhada para a Câmara foi a mesma encaminhada ao TCE, MP e Ministério da Previdência, criada em março de 2024, conforme propriedade dos “metadados” do próprio documento.
Ata tem outras alterações
Há outra divergência entre as atas. Na adulterada, os dizeres “BANCO MASTER S/A CNPJ 33.923.798/0001-00” aparecem fora de contexto, em meio à explicação sobre o credenciamento de um fundo de investimentos. Na versão original, enviada à Câmara Municipal, ao Ministério Público de São Paulo e ao Tribunal de Contas do Estado, esse trecho não existe.
Após a decisão de março de 2024, a São Roque Prev comprou R$ 93 milhões em letras financeiras do Master, em meses consecutivos, até setembro daquele ano, com taxas crescentes, até chegar a IPCA + 7,2%.
Responsável por endossar os aportes da São Roque Prev nas letras financeiras do Banco Master, a consultoria Crédito & Mercado fez o mesmo em outros seis dos 18 fundos de previdência que investiram nesses títulos sem garantias.
Este ano, quando a compra do Master pelo BRB já havia sido barrada pelo Banco Central, o forte investimento em letras do Master passou a ser contestado por servidores e pela Câmara Municipal. A assessoria que sugeriu o negócio, a Crédito & Mercado, justificou-se dizendo que muitas notícias poderiam ser “só ruído, envolvendo questões políticas que nem sempre têm fundamento”.
Até aqui, apenas quatro vereadores assinaram o requerimento de CPI: Dani Castro (PSD), Marquinho Arruda (PL), Rafael Tanzi (Republicanos) e Paulinho Juventude (Rede). A cidade tem 15 vereadores, e são necessários cinco endossos para protocolar um pedido de CPI.
Castro entende que a existência de duas versões distintas da mesma ata é um fato extremamente grave. “Isso levanta sérias dúvidas sobre a integridade dos registros e reforça a necessidade de uma apuração rigorosa. A abertura de uma CPI na Câmara Municipal é não apenas legítima, mas necessária para esclarecer os fatos e proteger o patrimônio previdenciário dos servidores.”
No começo do mês, a Assembleia Legislativa de São Paulo instaurou CPI para investigar a compra de papéis do Master por institutos de Previdência de ao menos cinco municípios: Cajamar (R$ 87 milhões), São Roque (R$ 93 milhões), Araras (R$ 29 milhões), Santo Antônio de Posse (R$ 7 milhões) e Santa Rita d’Oeste (R$ 2 milhões).
Fonte: Demétrio Vecchioli/Metrópoles - 17/03/2026







