Flávio Bolsonaro, senador do PL, e Douglas Ruas, eleito governador do Rio de Janeiro -foto:reprodução
A Baixada Fluminense é um paradoxo. Muitas pessoas dependem de políticas sociais e auxílio do governo, mas “batem no peito” e dizem que escolherão candidatos da extrema direita, que defendem a redução de benefícios e programas. “Dizem que os Bolsonaro são a salvação do povo. Eles têm uma visão extremamente unilateral, individualista e utilitarista”.
O relato é de uma jornalista moradora do município de São João de Meriti, que compõe a Baixada Fluminense acompanhado por Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados e Seropédica, segundo definição da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). O Amado Mundo teve acesso a áudios que descreveram como foi a disputa do segundo turno na região, e como o contexto, reunindo fortes atuações da milícia e da igreja, favoreceu a extrema direita.
Coação, exposição e insegurança
Carros elétricos, com músicas estrondosas, bandeiras gigantes, comícios e manifestações a favor de Flávio Bolsonaro, ex-candidato à presidência do PL, e de outros candidatos da extrema direita. Esses elementos fizeram parte da rotina em São João de Meriti, área que também é marcada pela forte presença das milícias nas comunidades.
Em 2022, o Mapa dos Grupos Armados, desenvolvido pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF), divulgou que as milícias chegaram a controlar 48,6% de todas as áreas sob domínio de grupos armados na Baixada.
“Eu não vi uma manifestação de esquerda. Nada, absolutamente nada. Nenhuma organização. Eu não sei se é por medo ou se é por desorganização mesmo. Eu percebo que aqui na Baixada Fluminense as ações de esquerda estão muito isoladas. Ainda não souberam ocupar as redes sociais e as ruas”, relata a jornalista.
“É um grande problema, porque acaba desequilibrando o que a Justiça Eleitoral procura de todas as formas sustentar, que é o equilíbrio entre as diferentes propostas, igualdade de oportunidade entre os diferentes candidatos. No fim, essas medidas manipulam a opinião pública e afetam a liberdade de escolha dessas pessoas”, afirma Carlos Enrique Caputo, doutor em direito e mestre em direito parlamentar, eleições e estudos legislativos, em entrevista ao Amado Mundo.
“É mais do que uma coação. É um negócio mais sofisticado”, explica José Cláudio Souza Alves, professor do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e pesquisador do tema há mais de 30 anos, em conversa com o Amado Mundo. “Quando você tem grupos armados estabelecidos em um local, toda a comunidade estabelece interações com eles. Ninguém é louco de se contrapor. O normal é se aproximar para tentar obter alguma vantagem”.
“Se você não busca uma aproximação, começa a ter problemas e dificuldades para encontrar resoluções. Existe uma tensão que vai muito além do medo do dia a dia. É difícil você se contrapor e não achar que aquilo vai ter consequências. Muitas vezes, a coerção não é exercida pela violência, mas sim pela pressão das figuras que se colocam como benfeitores na comunidade”, completa o pesquisador.
O controle das milícias se tornou ainda maior quando o poder se tornou econômico, detalha Caputo. Organizações criminosas passaram a influenciar nas operações mais simples dentro de suas comunidades, como a distribuição de gás e a contratação de serviços de internet. Além de impedirem a livre concorrência, os líderes também cortam os serviços básicos de quem não se alinha ao que é proposto para a comunidade.
“A Baixada Fluminense talvez tenha sido o primeiro modelo de cooperação eleitoral de comunidade. É evidente que isso se expandiu para muitas regiões do Brasil. O crime organizado observou como uma experiência e levou para outros setores. É um grande problema, mas que pode ser solucionado. O que nós precisamos é de uma maior presença do Estado”, aponta Caputo.
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Em nome de Deus?
“Há um agravante muito sério. Em São João de Meriti, os bolsonaristas geralmente são da religião protestante. O que o pastor fala, elas obedecem. É rebanho mesmo, que não pensa e apenas obedece. Existem problemas seríssimos de interpretação textual. Eles acham que é preciso seguir o que o pastor determina e pronto, não há o que contestar. É a minha preocupação”, detalha o áudio da jornalista.
A Baixada Fluminense consolidou-se como a região com a maior proporção de evangélicos do estado do Rio de Janeiro. Municípios como Paracambi (46,7%), Seropédica (46,3%) e Queimados (44,6%) têm os maiores índices de protestantes, segundo dados apresentados no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Muitas vezes, as pessoas não têm informações ou acessos, e acabam sendo influenciadas pelo ambiente. Quando um pastor ou qualquer representante religioso abre a boca, a opinião é considerada importante”, diz Joana Bahia, coordenadora do Núcleo de Estudos da Religião (Nuer) e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em entrevista ao Amado Mundo.
As igrejas protestantes promovem projetos sociais com frequência na Baixada Fluminense, segundo a jornalista de São João de Meriti. “Há iniciativas lideradas por outras organizações e religiões, mas que não alcançam a visibilidade conquistada pelos protestantes na região. Existem pessoas de esquerda envolvidas em ações isoladas. Não há uma massa atingindo em favor do social. O protestantismo faz isso muito bem na Baixada”.
Rita Gonçalo, doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Mauro Kleiman, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), apresentaram o conceito de “urbanidade gospel” em pesquisa divulgada em 2023. O estudo detalha que os templos religiosos assumiram papéis que deveriam pertencer ao Estado, como a distribuição de cestas básicas, reabilitação de dependentes químicos, cursos profissionalizantes, reforço escolar e instauração de creches informais.
Ao ocupar espaços em que o Estado não está presente, a igreja promove não só benefícios para a comunidade, mas também estabelece uma vida social, afirma Bahia. “Dependendo da periferia, é o único local em que você vai ter sociabilidade. […] A igreja pode possibilitar que as pessoas se ajudem e procurem trabalho. É um lugar em que muita coisa acontece”.
“O ambiente da igreja e a sociabilidade de uma pessoa, acompanhada dos amigos e dos parentes, influenciam o voto. Mas isso não significa que uma pessoa vai votar exatamente como o pastor quer. Há uma mudança de perfil dos evangélicos e em outros segmentos religiosos recentemente, já não estão votando nos mesmos nomes. Políticos como Marcelo Crivella (Deputado Federal do partido Republicanos pelo Rio de Janeiro), que encontravam apoio de religiosos, não foram reeleitos. É difícil calcular qual é a influência direta dos pastores”, analisa Bahia.
“Eu moro em São João de Meriti há 40 anos. Pela primeira vez, havia uma placa enorme na frente da Prefeitura, com os dizeres: ‘feliz é a nação cujo Deus é o senhor’. O governo deveria ser laico, não? Qualquer governo dentro do Brasil, de acordo com a Constituição Federal. Ninguém grita, ninguém contesta”, desabafa a professora.
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‘Douglas Ruas veio deste sistema’
Douglas Ruas, do PL, eleito governador do Rio de Janeiro, consolidou uma votação expressiva nos 13 municípios que formam a Baixada Fluminense — o que foi fundamental para a conquista de uma vitória ainda no primeiro turno das eleições deste ano.
O menor índice de Ruas na Baixada Fluminense foi registrado em Duque de Caxias, onde ele alcançou plena maioria com 49% dos votos. O município em que o político conseguiu mais votos foi Magé, com 61%. Em São João de Meriti, a vitória de Ruas veio com 54% dos votos, segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“Douglas Ruas é um governador vindo desta mesma estrutura. Era um policial civil que acabou crescendo dentro do sistema. O pai, Nelson Ruas, foi capitão e é prefeito de São Gonçalo, uma cidade importante da região metropolitana do Rio de Janeiro. Todo o discurso de Douglas é baseado em ‘bandido bom é bandido morto’, o que o levou a ser governador. Como é possível mudar essa realidade apostando em confrontos armados nas áreas mais pobres e periféricas?”, questiona Alves.
O PL encontrou portas abertas para se aproximar desta população. Jair Bolsonaro se casou com Michelle Bolsonaro em 2007, época em que ela já mantinha fortes ligações com a Igreja Batista Atitude, a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus. A importância da representação religiosa se dá pela parceria com a pastora evangélica Damares Alves, senadora do partido Republicanos que representa o Distrito Federal eleita em 2022.
Ruas é alvo de uma investigação por suposto peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Porém, o inquérito está em fase de apuração e não gera uma suspensão automática dos direitos políticos, permitindo que o representante do PL assuma o cargo em janeiro, segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo.
O que esperar do futuro?
Alves é pessimista ao analisar as possibilidades de o Poder Público agir diretamente dentro dos microssistemas protegidos pelas milícias. O professor destaca que é preciso realizar investimentos consideráveis em planos a longo prazo, o que vai muito além do Ministério de Segurança Pública proposto por Lula durante a campanha presidencial.
“A extrema direita também ganha o apoio de áreas ativas do tráfico de drogas, por saberem que esses candidatos vão ‘manter o negócio funcionando’. […] Eles votam em um cara que diz que quer matá-los. É contraditório, mas essa mesa eleitoral nunca é disputada pela esquerda”, diz o pesquisador.
O primeiro passo é contar com uma polícia de inteligência articulada e trabalhada de forma cooperativa, que não transfere a responsabilidade para as esferas municipais, estaduais ou federais, opina Caputo. A partir de então, é possível promover medidas que enfraqueçam o crime organizado.
“A partir do momento em que o Estado chega em todos os lugares e propõe uma organização de vida e de comunidade, o poder das facções tende a diminuir e, claro, a favorecer essa igualdade de oportunidades nas disputas eleitorais. Muitos candidatos estão apoiados, inclusive financeiramente, no controle que as milícias exercem”, completa o advogado.
“A igreja e a milícia são duas instituições que deram certo no Brasil. Você pode me dizer que não é democracia, é crime organizado e puro clientelismo. É verdade, mas ainda assim, deram certo. É o que sobrou como auxílio e suporte para muitas pessoas nos momentos de crise. É algo muito forte nas comunidades, não é simples de lidar”, conclui Alves.
FONTE: amadomundo.com/reprodução - 04/11/2026 14h:16