CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
Cá estamos, neste grande Collegio, de novo entregues ao estudo, com a alma povoada de esperanças mirificas e sonhos maravilhosos. Com a emoção natural que nos desperta o raiar de uma vida nova, com a saudade que nos infunde a distância, nós nos entregamos aos livros. Começaram as aulas. De toda a parte dizem: é preciso estudar. Pois estudemos! É argamassado com o heroismo do nosso sacrifício e a força da nossa vontade que o futuro ha de vir brilhante, como num conto de fadas, espalhando a felicidade. [...] Que as nossas preces subam, puras e sinceras, até à azul esphera, para que, em o decurso do anno, tenhamos a benção de Deus, protector dos nossos estudos, dos nossos trabalhos, das nossas esperanças, da nossa vida. E que sempre, sempre, extenda sobre nós suas brancas azas, o anjo da Esperança, puro e carinhoso, fazendo desabrochar em nós as rosas do sonho, nesta vida nova.
Estamos em 1918, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. O texto em itálico – transcrito na grafia original, ainda não disciplinada pelas reformas ortográficas de 1943, 1971, 1990 e 2008 – vem da crônica Vida nova, publicada em 14 de abril daquele ano, no número 184 do Aurora Collegial, o “Periódico Quinzenal da divisão dos Maiores” do Colégio Anchieta, como proclamavam seus editores.
Quem assina a crônica é um mineiro de 15 anos, “alumno do 2º Anno”, chamado Carlos Drummond de Andrade.
Vida nova foi a primeira das onze crônicas que o futuro poeta de Claro enigma publicaria no Aurora Collegial, o primeiro jornal estudantil do Brasil, fundado em 25 de maio de 1905 pelo padre jesuíta Luiz Yabar, então reitor do Colégio Anchieta. Editado e escrito pelos próprios alunos, o jornal existiu até 1922.
Nos dois anos em que estudou no internato do colégio, Drummond foi assíduo colaborador da publicação. Seus textos estão agora reunidos em 11 Crônicas de C. Drummond de Andrade: Os primeiros escritos do maior poeta brasileiro!, brochura que é distribuída aos visitantes do colégio, um esplêndido palácio amarelo, em estilo neoclássico, cercado por jardins com manacás-da-serra pontilhados por flores brancas e lilases. A iniciativa da publicação foi do padre Luiz Antonio de Araújo Monnerat, mais conhecido como padre Toninho, reitor do Anchieta desde 2014.
Fundado por padres jesuítas italianos em 1886, o colégio passou recentemente por uma extensa renovação para celebrar, neste ano, o seu 140º aniversário. A reforma, também por decisão de padre Toninho, incluiu a instalação, dentro da antiga biblioteca dos padres, de um pequeno museu, que recebe visitas guiadas todos os domingos.
Ali estão expostas em carteiras escolares cobertas por vidro preciosidades como as primeiras crônicas de Drummond, seus boletins escolares e várias edições do Aurora Collegial. O museu também exibe cartas trocadas entre os padres e intelectuais, como Euclides da Cunha – que teve dois de seus filhos internos no colégio – e Rui Barbosa.
Paraninfo da turma do terceiro ano, em 1903, Rui Barbosa proferiu na ocasião seu famoso discurso Palavras à juventude, em que diz: “Sede, meus caros amiguinhos, tais quais o verdor florescente de vossos anos o exige: afervorados, entusiastas, intrépidos, cheios das aspirações do futuro e inimigos dos abusos do presente. Mas não vos reputeis o sal da terra.”
Matriculado no Colégio Anchieta no dia 3 de março de 1918, Drummond recebeu várias distinções no pouco tempo que permaneceu lá, como menções honrosas nas disciplinas de latim, francês, religião e português, além de prêmios por comportamento e dedicação. Com tais reconhecimentos, tornou-se apto a colaborar com o tabloide feito pela “divisão dos maiores do Collegio Anchieta”.
Menos de dois anos depois da matrícula, porém, ele foi convidado a deixar o Anchieta. Ao que se sabe, seus problemas começaram por divergências intelectuais com um dos professores ou, na justificativa do colégio, por “insubordinação mental”.
Enquanto circulava comigo pelo pequeno museu do colégio, padre Toninho, figura simpática e entusiasmada, contou que, no final dos anos 1970, Drummond escreveu a um padre da escola para pedir cópias dos textos que publicou no Aurora Collegial – o que atestaria a superação de eventuais ressentimentos pela expulsão. Em um texto autobiográfico dos anos 1940, entretanto, Drummond ainda comentava o episódio com amargura: “Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam.” Já em sua última entrevista – realizada por Geneton Moraes Neto em julho de 1987, semanas antes da morte do poeta, aos 84 anos –, Drummond tratou o assunto com leveza: “Já falei tanto mal dos padres que me expulsaram, já esculhambei tanto, que hoje estamos quites.”
Conversa fiada, último texto de Drummond no Aurora Collegial, foi publicado na edição de 19 de outubro de 1919, doze dias antes de seu aniversário de 17 anos. É uma crônica recheada de ironia, revelando um autor mais maduro e menos ingênuo. Começa assim:
Quando a chuva cae sobre qualquer parte deste mundo pouco serio, tudo reverdece, desde as plantas, excepto as dos pés, té a alegria amortecida dos homens. A chuva é benéfica [...]. Mas, se insiste em alagar-nos a terra, trazendo-nos á physionomia um ar carrancudo de spleen, – é um berreiro louco por ahí fora, a pedir ao céo que feche as torneiras e faça parar a liquida avalanche... O céo attende, e manda a secca, mortal, arida, medonha.
Pois é isto o que acontece com um jornal. Chove a collaboração, e os redactores exultam. Tiras e laudas juncam, abarrotam as mezas de trabalho. Nada melhor! Eis porém, excessiva essa fúria d’escrevinhar, e os pobres dos jornalistas torcem a tromba, como quem diz: “Hum! Isso não está a me cheirar bem...” [...] Com o alarma dos redactores, há falta d’originaes! Cousa aliás pouco original, mas authentica. Sim, escasseiam as tiras, ficando o periódico abarbado com uma verdadeira “secca cearense” de trabalhos.
Dois meses depois, o colégio perderia seu maior talento. Mas o museu jesuíta hoje conserva, para a posteridade, o início da verdejante trajetória de Carlos Drummond de Andrade.
Fonte: PIAUÍ/UOL/REPRODUÇÃO - 22/08/2026 22h:25