quarta-feira, 18 de março de 2026

SP: Brasileiro é vítima de tráfico humano no Camboja após golpe do emprego

                                              Arte:Metrópoles





Um brasileiro, natural de São Paulo, foi atraído com uma oferta de emprego e agora é vítima de tráfico humano no Camboja, país do sudeste asiático. O Ministério das Relações Exteriores (MRE – Itamaraty) acompanha o caso. O nome dele não será divulgado para preservar a segurança da vítima.

Um familiar do homem disse ao Metrópoles que ele informou a família, em novembro do ano passado, que iria trabalhar no interior de São Paulo. Desde então, as comunicações com os parentes se tornaram escassas, pontuais e em horários alternativos.

Na última sexta-feira (13/3), a família descobriu que ele está em um complexo no Camboja, vítima de tráfico humano. O homem revelou que chegou ao país ainda em novembro e que teve o passaporte apreendido ao desembarcar.

Os indícios demonstram que ele está em um complexo sob poder de criminosos e que é forçado a aplicar golpes cibernéticos – como comumente é feito com brasileiros vítimas de tráfico humano. O homem disse trabalhar em jornadas de 16 horas por dia.

Agressões e ameaças


Os familiares no Brasil conseguiram fazer uma breve chamada de vídeo com o rapaz. Durante a ligação, foi possível perceber que ele estavam sob monitoramento rigoroso. Por isso, utilizaram códigos para identificar a situação da vítima.

Ele contou à família que recebe punições, como choques e agressões, e que está tentando voltar para o Brasil. Para isso, precisa pagar uma “multa” no valor de 800 dólares aos criminosos, e só então recuperar o passaporte apreendido.

Apreensiva, a família divulgou sobre o caso nas redes sociais. A publicação chegou ao conhecimento dos criminosos no Camboja, que passaram a fazer graves ameaças à vítima. “Eles vão me matar, vão me prender, é uma máfia”, disse o homem a um familiar que conversou com a reportagem.

Ainda assim, o afirmou que “a empresa que está agora é melhor do que a última”, provavelmente se referindo aos complexos onde há centrais de aplicação de golpes cibernéticos.

Um familiar, que teme que ele nunca seja liberado, acreditas que o rapaz pode estar “obedecendo os chefes da empresa”. “Parece que ele não está ciente da gravidade do problema”, disse ao Metrópoles.

Itamaraty acompanha o caso


A família do rapaz acionou o Itamaraty após ter conhecimento da gravidade do caso. A pasta informou aos familiares que a denúncia seria encaminhada por Nota Verbal ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional do Camboja, com pedido que o Ministério do Interior seja informado do caso. O Ministério do Interior, responsável pela Polícia Nacional do país, também foi notificado.

“Cabe apenas à Polícia Nacional do Camboja investigar as denúncias e proceder à liberação das vítimas”, disse o Itamaraty.

O ministério informou ainda que ocorre no Camboja, no momento, a Operação XXL, que busca combater “scam centers” no território e, desde janeiro, realizou várias batidas em complexos em todo o país. A ação deve continuar até o final de abril.

“Infelizmente, não há como garantirmos o resultado ou o tempo de resposta das autoridades locais, tampouco eliminar integralmente eventuais riscos inerentes a esse tipo de situação”, explica a pasta.

Ainda assim, o encaminhamento formal da denúncia constitui, neste momento, o principal instrumento disponível para mobilizar as autoridades competentes e possibilitar a verificação do caso”, disse o ministério em resposta à família da vítima.

Em resposta à reportagem, o Itamaraty afirmou que tem conhecimento do caso por meio da Embaixada do Brasil em Phnom Penh, capital do Camboja.

O ministério disse que aplica o Protocolo Operativo Padrão para o Atendimento de Vítimas Brasileiras do Tráfico Internacional de Pessoas (POPTIP), “instrumento que orienta a atuação coordenada de autoridades brasileiras, inclusive no exterior, para identificação, proteção e assistência consular às vítimas, bem como para facilitar seu retorno seguro ao Brasil quando necessário”.

“O governo federal segue trabalhando no fortalecimento das políticas públicas de prevenção, identificação e assistência às vítimas, em cooperação com autoridades nacionais e internacionais, além de promover campanhas de conscientização para reduzir a vulnerabilidade de potenciais vítimas”, afirmou a pasta.

Governo alerta para aumento de casos de tráfico humano entre brasileiros

Em 24 de fevereiro, o Itamaraty emitiu um alerta, apontando que “o Sudeste Asiático tem se consolidado como o principal foco de tráfico de cidadãos brasileiros para exploração laboral”.

Segundo a pasta, os brasileiros aliciados são recrutados por meio de redes sociais com falsas promessas de emprego em “call centers” ou supostas empresas de tecnologia em países como Camboja, Tailândia, Myanmar e Laos. As vítimas são principalmente jovens com conhecimentos em informática.

“As ofertas, direcionadas especificamente a brasileiros, incluem salários aparentemente atrativos, comissões por ‘ativos’ vendidos e custeio de passagens aéreas”, alertou o Itamaraty.

O ministério detalhou os tipos de fraudes on-lines frequentemente aplicadas pelas vítimas de tráfico humano: esquemas de jogos de azar, golpes com criptomoedas e relacionamentos amorosos fictícios destinados à extorsão de terceiros. Os alvos também são coagidos a aliciar novas vítimas de mesma nacionalidade.

Diante do cenário, o Itamaraty recomenda não aceitar ofertas de trabalho no sudeste asiático que prometam ganhos elevados, contratação rápida ou intermediação informal.

Triângulo Dourado: o epicentro de crimes cibernéticos no mundo

Cintia Meirelles, diretora da The Exodus Road Brasil, organização não-governamental (ONG) que atua no combate ao tráfico humano, aponta o “epicentro de crimes cibernéticos no mundo” está em uma região chamada Triângulo Dourado, no sudeste asiático, que abriga Tailândia, Mianmar, Laos e Camboja.

No território, alvos do tráfico humano são coagidas a praticar crimes que envolvem desde jogos de apostas à aplicação de golpes envolvendo namoros virtuais com supostas celebridades, em que as vítimas são extorquidas, além de investimentos em criptomoedas. Segundo a Interpol, esse mercado clandestino movimenta US$ 3 trilhões por ano.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que até 120 mil pessoas podem estar detidas em complexos em Mianmar e outras 100 mil pessoas detidas no Camboja – todas elas vítimas de tráfico humano e escravização moderna.

De acordo com Cintia, todos esses crimes são originários da região e ocorrem com frequência no território. “Por que essa região é crucial e por que tem toda essa problemática? Porque ninguém entra ali. Não existe uma força policial, não existe um governo que vai fazer uma ação imperativa e efetiva”, explica. As empresas que mantêm as vítimas reféns são dominadas pela máfia chinesa, afirmou a diretora da ONG.

“Imagina uma relação onde você tem um governo que está em guerra civil, e você tem vários tipos de grupos armados, disputando seus espaços, aliciando e lucrando. No topo disso você tem o governo da China com a máfia chinesa. É uma combinação perfeita para não ter articulação nenhuma”, declarou.

Como denunciar tráfico humano

Cintia destacou a falta de conhecimento da população sobre as formas de atuação e, principalmente, de como denunciar casos de tráfico humano — o que ela atribui a falhas das políticas públicas.

“Quais são os canais de prevenção que o governo federal oferece no Brasil? Quais são as campanhas que existem para falar sobre o tráfico de pessoas? Quais são os mecanismos? Quais são os canais de denúncia? Isso eu acho muito importante falar, porque nós não temos no Brasil. Existe no papel, mas na prática a gente perde”, provocou.

Conforme o MRE, o Portal Consular do Itamaraty alerta sobre o aumento do número de casos de recrutamento de brasileiros para trabalho em plataformas digitais de apostas, na Ásia, em condições migratórias e laborais precárias.

A pasta afirmou ainda que o Itamaraty tem ativa participação no IV Plano Nacional de Combate ao Tráfico de Pessoas. Neste âmbito, o órgão produziu guias online sobre tráfico de pessoas.

No país, para denunciar casos de tráfico de pessoas, contrabando de migrantes, tráfico de mulheres e outros crimes semelhantes às autoridades brasileiras, disque 100 ou ligue para o número 180.

Para entrar em contato com a Coordenação-Geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, ligue para (61) 2025-9663 ou (61) 2025-3992, ou mande um e-mail para traficodepessoas@mj.gov.br.

O MRE indica ainda pedir ajuda à National Human Trafficking Hotline (Linha Direta Nacional de Combate ao Tráfico de Pessoas, em tradução), com sede nos Estados Unidos (EUA). Para ligar para a polícia estadunidense, ligue 911.

Fonte: Milena Vogado/Metrópoles - 18/03/2026

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