As informações foram divulgadas em uma reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, que afirma que a instituição financeira ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é alvo de investigação da PF por supostas fraudes.
O banco teria manipulado o seu balanço financeiro para deixar de declarar pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos, em uma manobra para maquiar perdas e declarar lucro de R$ 31 milhões em 2025.
Segundo relatórios obtidos pela reportagem, o escândalo financeiro de Edir Macedo pode, no entanto, chegar a cifras bilionárias. A apuração mostra que há um saldo de investimentos de R$ 3 bilhões que sequer puderam ser auditados, valor equivalente a 75% do valor investido em fundos do banco.
O principal negócio do Digimais é financiamento de veículos considerados velhos, com mais de 10 anos de uso, e que normalmente são rejeitados por bancos tradicionais.
Em 2021, a carteira representava 94% das operações do banco. No entanto, diante das altas taxas de inadimplência e de problemas na justiça – em razão do financiamento de veículos quebrados -, o Digimais passou a vender essas carteiras, baixando para 52% a participação nas operações do banco.
A Hatikvah Participações acionou a justiça após comprar uma carteira de financiamentos veiculares que tinha carros roubados sendo vendidos.
“Estava com o carro há apenas 15 dias quando a polícia me parou falando que o carro era “dublê”, que só tinha a placa do carro real, mas o chassi e o motor eram de um outro carro, que tinha sido furtado”, disse ao Estadão o técnico de instalação de sistemas de segurança Rafael Cascardi, dono do Celta 2014 que comprou financiado pelo Digimais. Ele conseguiu a rescisão do contrato pela Justiça.
BTG anuncia compra
O BTG Pactual fechou um acordo para comprar o Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo. O negócio, anunciado ao mercado em 9 de abril, consolida um modelo de salvamento bancário que ganha força no Brasil: a transferência da “parte boa” de um banco asfixiado para um gigante do setor, com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) atuando na retaguarda para absorver o impacto e viabilizar a transação.
A operação repete a mesma engenharia financeira desenhada após o recente derretimento do Banco Master. Ativos saudáveis e carteiras rentáveis mudam de mãos, enquanto o risco sistêmico e a parcela tóxica do balanço encontram amparo no suporte institucional do fundo para evitar uma quebra generalizada.
O Digimais respirava por aparelhos e já era monitorado de perto pelas autoridades monetárias. Conforme revelou a Fórum em fevereiro, Edir Macedo foi forçado a injetar R$ 250 milhões de seu próprio patrimônio na instituição. A manobra emergencial tentou blindar o banco das exigências de capital do sistema financeiro e conter o contágio gerado pela crise do Master. O fôlego milionário, contudo, não sustentou as portas abertas por mais de dois meses.
A entrada do BTG não é uma simples compra de oportunidade no livre mercado. Em janeiro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou novas regras que permitiram ao FGC atuar diretamente na transferência de controle de bancos à beira do colapso, evitando o trauma de uma intervenção federal.
O fundo deixa de ser apenas um pagador de seguros para correntistas e passa a viabilizar negócios para os grandes atores do mercado. O suporte pode envolver o alongamento de prazos para o pagamento de dívidas ou o oferecimento de linhas de liquidez. Na prática, é uma estrutura que barateia drasticamente a compra para o BTG e evita o impacto de uma liquidação extrajudicial clássica.
O foco estratégico do negócio reside na escolha do que é absorvido. O Banco Digimais, que operava sob a alcunha de Banco Renner no passado, detém uma fatia considerável e rentável no financiamento de veículos automotores. Para o BTG, que avança agressivamente sobre o crédito de varejo, herdar essa base de clientes ativos representa um atalho altamente lucrativo.
O banco de André Esteves consolida sua posição absorvendo o “filé” do Digimais, enquanto as pontas soltas da gestão que levou a instituição de Edir Macedo ao limite são diluídas no grande acordo chancelado pelo mercado.
Como o FGC atua sob a fiscalização rígida do Banco Central do Brasil (BCB), a transação exige a aprovação do Estado. O comunicado oficial aos investidores confirma que o negócio depende da chancela da autoridade monetária e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que avalia concentrações de mercado.
As regras do CMN exigem ainda a abertura formal para o recebimento de propostas concorrentes. Trata-se de um rito procedimental para dar transparência e competitividade ao repasse de ativos socorridos pelo sistema, embora o BTG já desponte como o controlador natural. Reforçando a opacidade típica dessas operações, o valor final da transação é mantido em absoluto sigilo pelas partes.
R$ 250 milhões do próprio bolso
Alvo de suspeitas em meio ao escândalo do Master, o Clava Fort Bank, de André Valadão, da Igreja da Lagoinha, não é a única instituição financeira ligada a pastores midiáticos a ser tragada pelas investigações na Faria Lima. Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, teve que tirar R$ 250 milhões do próprio bolso para evitar que seu banco, o Digimais, entre em colapso.
O aumento de capital visa blindar o banco de uma investigação do Banco Central, já que a instituição do pastor, dono da Record, está com um capital próprio de 6,35%, segundo dados de setembro. O Digimais também teria um índice de capital – ativos do controlador – abaixo da média do mercado, que fica sempre acima dos 12%.
Sócio de Macedo, Roberto Campos Marinho Filho diz que o Digimais teve um prejuízo de cerca de R$ 500 milhões ao aceitar papéis podres do da Fictor, da Reag e do Banco Master como lastro de participação no fundo de investimento EXP1.
Os títulos das instituições, que quebraram com as investigações sobre a organização de Daniel Vorcaro, foram usados pelo banco de Edir Macedo para comprar 80% do fundo. Marinho, que é dono da Yards Capital, ficou 20%.
A Yards é a gestora do fundo, que foi à bancarrota após o estouro do Banco Master, e entrou com ação judicial para que Edir Macedo compre a carteira de R$ 462,2 milhões do fundo para cobrir o rombo.
O líder da Universal usou R$ 316,6 milhões em títulos podres do Master e da Reag, fundo que é controlado pelo também pastor Fabiano Zettel, da Igreja da Lagoinha – de Valadão, que é cunhado de Vorcaro.
Os outros títulos seriam do Fictor, que é investigado por participar do ecossistema do Banco Master.
Antigo Banco Renner, o Digimais foi comprado pela holding do pastor evangélico Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e dono da RecordTV.
Macedo planejava vender a instituição, que já tinha um comprador definido. A proposta seria justamente do Bluebank, de Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. A negociação emperrou diante das investigações do escândalo.
Em 2025, o Nubank, que tem na direção Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, chegou a sondar o banco de Edir Macedo. Mas, desistiu da aquisição diante da avalanche que viria logo adiante.
Fonte: REVISTA FÓRUM - 18/12/2026