quarta-feira, 5 de novembro de 2025

No MT: Doação de mais R$ 1,4 milhão para pastor divide fiéis e levanta suspeitas de irregularidades


                                         foto:reprodução


Uma denúncia interna envolvendo a Igreja Batista Nacional do Cristo Rei (IBN-CR), uma das maiores congregações evangélicas de Várzea Grande (MT), provocou forte repercussão entre fiéis e abriu uma crise dentro da instituição. O caso diz respeito à doação de recursos da igreja para a construção de uma casa de descanso no município turístico de Chapada dos Guimarães, destinada ao pastor Osvaldo Coutinho, líder histórico da congregação e figura respeitada no meio evangélico mato-grossense.


Segundo denúncia apresentada pelo vice-presidente da igreja, pastor Wlademiro Neto, o valor total da doação ultrapassaria R$ 1,4 milhão, dinheiro retirado dos cofres da igreja para financiar a chamada “parte cinza” da obra — termo usado para designar a fase estrutural de uma construção. A casa, erguida em uma área nobre, possui piscina, janelas panorâmicas e acabamento de alto padrão, o que reforçou o debate sobre o uso de recursos eclesiásticos em benefício pessoal de líderes religiosos.

Em carta enviada ao Conselho Administrativo da instituição, datada de 8 de fevereiro deste ano, Wlademiro afirmou que as movimentações foram feitas sem aprovação da diretoria nem do conselho administrativo, contrariando o estatuto da igreja. “Essas movimentações financeiras foram realizadas sem aprovação formal e sem transparência nos registros contábeis. Secretários e tesoureiros da gestão anterior declararam desconhecimento sobre qualquer reunião que tivesse aprovado essa doação”, escreveu o pastor.

O documento detalha ainda os valores supostamente pagos: R$ 677 mil em 2023 e R$ 793 mil entre janeiro e novembro de 2024, totalizando R$ 1.470.269,72, com novos pagamentos previstos até janeiro de 2025. Segundo Wlademiro, o tema teria sido omitido de atas oficiais, e somente após insistência as informações foram parcialmente apresentadas em uma nova reunião, em fevereiro deste ano.

Defesa e versões divergentes

A direção da IBN-CR, hoje presidida por Osvaldo Coutinho Junior, filho do pastor beneficiado, nega qualquer irregularidade. Em nota oficial, a igreja confirmou a doação, mas garantiu que o ato foi “legítimo, transparente e aprovado pelos órgãos competentes”, caracterizando-o como um gesto de gratidão pelos mais de 40 anos de ministério do pastor jubilado.

“A doação foi aprovada por deliberação da diretoria e posteriormente ratificada em assembleia. Todos os valores foram devidamente lançados na contabilidade sob a rubrica de doação, e o pastor Osvaldo arcará com os tributos incidentes sobre o bem”, diz a nota. O texto também destaca que parte do valor inicialmente repassado seria um adiantamento devolvido posteriormente, o que estaria registrado em ata.


Repercussão e críticas teológicas

A denúncia dividiu a comunidade religiosa de Várzea Grande e rapidamente se espalhou pelas redes sociais. Perfis no Instagram e no Facebook publicaram fotos da mansão com legendas que exaltavam o “gesto de honra” da igreja, enquanto críticos chamavam o caso de “escândalo gospel” e questionavam a coerência entre fé e ostentação.

Nos comentários, fiéis se mostraram polarizados. Apoiadores defenderam o ato como “um dever e uma recompensa merecida”. “Quem critica não sabe o quanto o pastor Osvaldo serviu a Deus e à igreja. Ele merece cada tijolo dessa casa”, escreveu uma seguidora. Já opositores lembraram o exemplo de Jesus e a desigualdade social: “Enquanto muitos irmãos vivem de aposentadoria e lutam para pagar o aluguel, o pastor ganha uma mansão. Isso não é o Evangelho”.

Enquanto isso, o vice-presidente denunciou, renunciou ao cargo e, dias depois, enviou uma nova carta elogiando a diretoria como “dedicada e íntegra” — o que a cúpula da igreja aponta como contradição em relação à denúncia. Ainda assim, o episódio segue repercutindo e alimentando o debate sobre ética, poder e transparência na administração de igrejas no Brasil.

A polêmica colocou em xeque não apenas a reputação da liderança da IBN-CR, mas também a credibilidade das instituições religiosas diante de fiéis que exigem mais clareza sobre o destino das ofertas e dízimos. Como disse um dos comentaristas nas redes: “O problema não é o presente — é esquecer que o dinheiro vem de quem acredita estar ajudando a obra de Deus, não a erguer mansões na Chapada.”


Fonte: REVISTA FÓRUM/REPRODUÇÃO 05/11/2025

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