quarta-feira, 27 de maio de 2026

INSS: Irmão de administradora da empresa de Flávio Bolsonaro é um dos alvos da PF por fraudes contra aposentados

 

Fraudes contra aposentados - Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e Flávio Bolsonaro na CPMI (Agência Senado)



 Fraudes contra aposentados: a Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram nesta quarta-feira (27) uma nova fase da Operação Sem Desconto, investigação sobre descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS. A ação, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), cumpre 31 mandados de busca e apreensão, oito medidas cautelares de monitoramento eletrônico e outras constrições em Pernambuco, São Paulo, Paraíba e no Distrito Federal.

A operação mira alvos ligados a entidades e empresas mapeadas no rastro da fraude bilionária contra aposentados. Entre os nomes investigados estão Felipe Macedo Gomes, Igor Dias Delecrode, Anderson Cordeiro de Vasconcelos, Américo Monte Júnior, Rogério Soares de Souza, Gutemberg Tito de Souza, Zacarias Canuto Sobrinho, Cleiton dos Santos Medeiros, Daniel Gerber, Alexandre Caetano dos Reis, Carlos Henrique da Rocha Gonçalves e Everaldo Felício de Macedo Júnior. A PF preservou o sigilo da lista nominal em sua nota oficial.

Sócio e contador do “Careca do INSS”, Alexandre Caetano é irmão de Letícia Caetano dos Reis, que consta como “administradora” na Flavio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.

Aberta em 16 de abril de 2021, a empresa é registrada no Setor de Mansões Dom Bosco (Lago Sul), em Brasília, mesmo endereço da mansão comprada por Flávio por R$ 5,97 milhões em março de 2021 com empréstimo do Banco de Brasília (BRB), instituição estatal comandada pelo governo do Distrito Federal que é investigada por tentar comprar o Banco Master, de Daniel Vorcaro, liquidado pelo Banco Central (BC).

De acordo com a Polícia Federal, a ofensiva aprofunda a apuração sobre crimes contra a administração pública, organização criminosa, estelionato previdenciário e ocultação de patrimônio. O foco é reconstruir a cadeia que viabilizou a cobrança em massa de mensalidades diretamente na folha de pagamento de beneficiários.

PF mira os “golden boys” das fraudes contra aposentados do INSS

O núcleo central da nova fase é formado por empresários identificados como os “golden boys” do bolsonarismo no golpe bilionário do INSS. O grupo reúne Felipe Macedo Gomes, Igor Dias Delecrode, Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Américo Monte Júnior, associados a entidades como Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, AASAP e ANDDAP.

A articulação entre os empresários, as associações e a estrutura de descontos foi detalhada na cobertura sobre os “playboys do INSS” beneficiados nos governos Temer e Bolsonaro. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) rastreou como entidades privadas obtiveram autorização para operar descontos sobre benefícios previdenciários e como os repasses se converteram em patrimônio, influência política e redes de proteção.

Felipe Macedo Gomes desponta como o personagem mais proeminente deste bloco. Ligado à Amar Brasil, à fintech RendBank e a empresas investigadas, ele ingressou no centro político do escândalo ao doar R$ 60 mil à campanha de Onyx Lorenzoni ao governo do Rio Grande do Sul em 2022. A conexão foi aprofundada em reportagem sobre a campanha de Onyx e as empresas suspeitas de fraudar o INSS em R$ 143 milhões.

Durante a CPMI, Felipe Gomes permaneceu em silêncio quando questionado sobre o núcleo bolsonarista da fraude no INSS. O empresário também se calou diante de perguntas sobre a suspeita de propina envolvendo Onyx Lorenzoni, episódio documentado na matéria sobre o “golden boy” de Bolsonaro na comissão.

Amar Brasil, Master Prev, AASAP e ANDDAP no radar

Igor Dias Delecrode, Anderson Cordeiro e Américo Monte Júnior completam o eixo empresarial. Igor é associado à AASAP e atua como operador tecnológico do esquema. Anderson mantém ligações com a Master Prev, e Américo vincula-se à Amar Brasil e à ANDDAP. As quatro entidades são alvos prioritários das frentes de investigação da CGU, AGU, PF e CPMI.

A CGU abriu 40 processos administrativos de responsabilização contra 38 associações e três empresas por fraudes nos descontos do INSS. A lista inclui AASAP, ABAPEN, Amar Brasil, AMPABEN Brasil (antiga Abenprev), ANDDAP e Master Prev. O órgão identificou o uso de plataformas eletrônicas para simular legalidade, ausência de biometria válida, descontos em nome de pessoas falecidas e áudios com ofertas enganosas.

Paralelamente, a AGU ajuizou ações cautelares contra os envolvidos e solicitou o bloqueio de R$ 3,92 bilhões em bens para garantir o ressarcimento aos aposentados e pensionistas. O segundo lote de ações atingiu 12 entidades associativas e três empresas de tecnologia.

O padrão de enriquecimento da rede extrapolou a estrutura associativa. O pastor César Belluci admitiu ter recebido uma BMW e um Rolex de Felipe Macedo Gomes, justificando os bens como ofertas pessoais. O deputado Rogério Correia também denunciou conexões financeiras e políticas, apontando elos entre a Igreja Lagoinha, o Banco Master, Nikolas Ferreira e o escândalo do INSS.

Unibap, Abapen, Abenprev e o núcleo de Brasília

A ofensiva atinge simultaneamente o braço formado por Unibap, Abapen e Abenprev. O bloco investiga Rogério Soares de Souza, Gutemberg Tito de Souza, Zacarias Canuto Sobrinho, Cleiton dos Santos Medeiros, Daniel Gerber e Carlos Henrique da Rocha Gonçalves. A apuração foca na administração, defesa jurídica, intermediação e ocultação financeira dos repasses.

Nos arquivos da CPMI, Gutemberg Tito de Souza figura como ex-presidente da Unibap, com requerimentos aprovados para Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) e quebra de sigilos. A comissão também deferiu a quebra de sigilos de Rogério Soares de Souza e Zacarias Canuto Sobrinho.

Daniel Gerber consta nos requerimentos parlamentares como sócio-administrador da Thinking Blue, empresa suspeita de receber mais de R$ 4 milhões da Unibap. Carlos Henrique da Rocha Gonçalves também teve RIFs e sigilos bancários e fiscais quebrados, evidenciando o esforço para mapear o fluxo de recursos descontados dos aposentados para consultorias e intermediários.

A Unibap consta no relatório da maioria da CPMI como operadora de descontos ilegais. No balanço sobre a fraude do INSS no governo Bolsonaro, a entidade aparece associada a figuras do entorno bolsonarista, incluindo a atuação de Pietro Lorenzoni, filho de Onyx Lorenzoni, como advogado da associação.

Alexandre Caetano, Careca do INSS e Flávio Bolsonaro


O nome de Alexandre Caetano dos Reis retorna ao foco das autoridades por sua ligação com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS e apontado pela PF como o articulador central do esquema. A relação ganhou contornos políticos porque Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, administrava uma empresa pertencente a Flávio Bolsonaro.

A triangulação foi revelada na reportagem sobre a administradora de empresa de Flávio Bolsonaro e o elo com o Careca do INSS, culminando no pedido de convocação do senador, documentado na matéria onde Flávio Bolsonaro virou alvo de requerimento na CPMI.

A complexa rede de interesses foi detalhada na análise sobre os vínculos capazes de arrastar Flávio Bolsonaro para o caso INSS. O relatório final da maioria defendeu expressamente o indiciamento de Flávio Bolsonaro, gerando intensos embates e tentativas de blindagem por parte de parlamentares alinhados ao ex-presidente.

Preso em fase anterior da Operação Sem Desconto, o Careca do INSS é tratado como o lobista com ligação política direta com a gestão Bolsonaro. O rastreio de seu patrimônio revelou manobras como o registro de uma BMW atribuída ao operador no nome da esposa de um ministro bolsonarista do TCU.

Everaldo Felício e a facilitação no INSS


Em Pernambuco, a operação alcança Everaldo Felício de Macedo Júnior, ex-gerente executivo do INSS em Garanhuns. O envolvimento de um ex-dirigente regional valida a tese de que o esquema dependia da facilitação e omissão dentro da estrutura da própria Previdência Social.

O envolvimento de altos quadros públicos já havia sido detectado. Investigações anteriores indicaram que um ministro de Bolsonaro atuou como peça-chave para consolidar o esquema. Outra apuração detalhou o desvio de R$ 2 bilhões em fraudes sob o conhecimento de um ex-ministro do governo Bolsonaro.

A cronologia do golpe reforça a responsabilidade do alto escalão. A corporação confirmou a origem da fraude no INSS durante o governo Bolsonaro. Documentos oficiais revelaram que Sergio Moro e Paulo Guedes tinham pleno conhecimento das irregularidades. Os alertas existiam desde 2019, quando o Procon-SP notificou oficialmente o governo Bolsonaro.

Explosão de descontos e rombo bilionário

Auditoria da CGU revelou que 97,6% dos aposentados e pensionistas não autorizaram os descontos associativos. Entre os 1.273 beneficiários entrevistados nacionalmente, 1.242 confirmaram a cobrança indevida e 1.221 declararam não possuir vínculos com as associações.

O relatório expôs a escalada dos descontos indevidos a partir de 2019, atingindo o pico de entidades e valores desviados em 2022. A controladoria constatou que 70% das 29 entidades investigadas assinaram acordos de cooperação técnica com o INSS sem apresentar a documentação obrigatória.

O modus operandi baseava-se em pulverizar cobranças de baixo valor em milhões de benefícios, dificultando a percepção das vítimas e inviabilizando a reação individual. Em abril de 2025, a CGU estimou o prejuízo aos aposentados em R$ 6,3 bilhões.

Estrutura montada nas gestões Temer e Bolsonaro


O escopo da investigação esbarra na gênese política das instituições. Levantamento de abril de 2025 comprovou que oito das 11 entidades sob suspeita foram fundadas nos governos Temer e Bolsonaro. O dado consolida a tese de que a flexibilização dos acordos de cooperação serviu para institucionalizar a sangria na folha previdenciária.

A fase deflagrada nesta quarta-feira busca desarticular a arquitetura financeira da fraude, mapeando quem criou as entidades, forjou as autorizações de desconto, operou a tecnologia e ocultou os lucros.

CPMI do INSS e a cortina de fumaça da oposição


A CPMI do INSS pavimentou a trilha documental agora executada pela PF. O relatório da maioria recomendou indiciamentos severos, mas a comissão foi encerrada sem a aprovação do texto final, desfecho analisado na cobertura sobre o fim da CPMI do INSS.

Ao longo dos trabalhos, governistas denunciaram a blindagem de aliados por parte do comando bolsonarista. A proteção ficou evidente nas manobras para barrar convocações de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e executivos do Banco Master. Deputados chegaram a exigir o afastamento de Carlos Viana devido às suas ligações com o Banco Master, a Igreja Lagoinha, André Valadão e Nikolas Ferreira.

Simultaneamente, a oposição mobilizou campanhas de desinformação para desviar o foco das investigações. A produção de uma fake news envolvendo veículos de luxo e Frei Chico tentou ligar criminalmente o irmão do presidente Lula e o Sindnapi ao caso, tese amplamente refutada. A farsa foi desmontada em plenário quando a ex-secretária do Careca do INSS negou categoricamente qualquer repasse a Lulinha.

Lei federal encerra descontos associativos


Em resposta à crise, o presidente Lula sancionou a legislação que proíbe em definitivo os descontos associativos na folha do INSS. A medida veta as associações de aplicarem cobranças mensais diretas e institui mecanismos rigorosos de bloqueio de bens contra os fraudadores.

Balanço do INSS indica que mais de 4,1 milhões de beneficiários foram ressarcidos, totalizando R$ 2,8 bilhões devolvidos. Os segurados que ainda identificarem descontos irregulares podem registrar contestação pelo portal Meu INSS, pela Central 135 ou presencialmente nas agências dos Correios.

O rastreio do dinheiro sujo

A Operação Sem Desconto avança agora sobre a recuperação de ativos e a cadeia de comando da fraude. O foco investigativo é a rota do dinheiro, partindo das contas dos aposentados lesados até alcançar empresas de fachada, bancas de advocacia e bens de luxo dos operadores financeiros.

A PF reiterou que os alvos cumprem medidas cautelares e que a análise do material apreendido (dispositivos eletrônicos e registros contábeis) será fundamental para materializar as acusações de organização criminosa e lavagem de capitais. O inquérito reafirma o fato central: uma rede organizada sequestrou bilhões de reais de aposentados e pensionistas vulneráveis por meio de um aparelhamento sistêmico do Estado.


Fonte: REVISTA FÓRUM - 27/05/2026

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