quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Conexões Espúrias: FLÁVIO BOLSONARO VIAJOU EM JATO DE VORCARO, DIZ REVISTA

                             foto:A rota entre Fort Lauderdale e Brasília em que Flávio viajou com a mulher e as duas filhas - Reprodução

Voo em janeiro de 2025 se deu na mesma aeronave em que o ministro Alexandre de Moraes foi filmado desembarcando sete meses depois.



O senador Flávio Bolsonaro voou em uma aeronave de Daniel Vorcaro em janeiro de 2025 ao regressar da Flórida para Brasília após uma viagem em família. É o mesmo jato executivo de alto padrão, de prefixo PP-NLR, que transportou o ministro do STF Alexandre de Moraes em agosto do mesmo ano, conforme revelou o jornal O Globo

A piauí apurou que a empresa Prime You, que tinha então Vorcaro como um dos sócios, já era dona de um terço das cotas da aeronave na data do voo. A aquisição foi realizada no fim de 2024.

A viagem de Flávio, candidato à Presidência pelo PL, foi feita em família: com a mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal. Entre os passageiros estava ainda o amigo Willer Tomaz, o advogado e empresário que já foi preso no escândalo da JBS e é investigado no esquema de desvios bilionários do INSS. Tomaz confirmou à piauí que era dono de uma das três cotas do avião.

Além de detentora de outra dessas cotas, a Prime You também era operadora do jato, por meio da Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços, que integra seu portfólio. Segundo informações da própria empresa, a Prime You teve Vorcaro como sócio de 2021 até setembro de 2025.

Um relatório da Polícia Federal mostra que cada uma das cotas de 33,33% valia 5,5 milhões de dólares em maio de 2025. Nessa época, a empresa negociava a transferência da participação para o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, que acabou não se concretizando.

O jornal O Globo foi o veículo que revelou na semana passada que a Polícia Federal encontrou, durante as investigações sobre as fraudes no INSS, registros de que Flávio e Tomaz viajaram juntos de Fort Lauderdale para Brasília em 19 de janeiro de 2025, véspera da posse de Donald Trump. Reportagem de Patrik Camporez informou que o grupo viajou numa aeronave operada pela Prime You. 

A piauí identificou que esse avião é o Legacy 650 de prefixo PP-NLR, ao cruzar registros históricos de tráfego aéreo, uma planilha de movimentos aeroportuários e informações do Registro Aeronáutico Brasileiro – parte desses dados estava disponível na CPI do Crime Organizado. Os registros históricos de tráfego aéreo no site ADBS-Exchange mostram que, em 19 de janeiro de 2025, o PP-NLR decolou do Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale-Hollywood, atravessou o Caribe e o Norte da América do Sul e pousou em Brasília. Uma planilha de movimentos aeroportuários confirma que o PP-NLR chegou a Brasília vindo de Fort Lauderdale naquele dia. Data, origem e destino coincidem com o voo de Flávio e Tomaz identificado pela PF e revelado pelo Globo

A proprietária formal do PP-NLR era a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade que concentrava a propriedade compartilhada do jatinho, dividida em três participações da seguinte forma: a de Willer Tomaz, por meio da Alcazar Holdings (empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual ele é o único sócio); a de Laércio Cosentino, fundador da TOTVS; e a terceira, que já pertenceu ao empresário Gabriel Szlezynger Lacerda, da petroquímica Unigel, e foi vendida à Prime de Daniel Vorcaro “no fim de 2024”.

A informação foi confirmada para a piauí por Lacerda. Ele acrescentou que não conhecia Daniel Vorcaro e que toda a negociação foi feita com a Prime.

A Fraction 024 também mantinha uma relação financeira direta com o Banco Master. Em uma comunicação ao Coaf, o Bradesco registrou que, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, a empresa transferiu 7,6 milhões de reais ao banco de Vorcaro, em 36 operações. No mesmo período, fez outros 6,5 milhões de reais em pagamentos à Prime Aviation.

Além de Vorcaro, a Prime You tinha como sócio Maurício Quadrado, dono da Planner, uma grande corretora paulistana que também é alvo da Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Coincidentemente, através do fundo Sharks FIP Multiestratégia, administrado pela Trustee, Quadrado era um dos cotistas de um outro bem do qual Tomaz tinha cotas: uma mansão em Angra dos Reis na qual Flávio comemorou o aniversário da filha em fevereiro de 2026.

Na passagem pela Flórida, Flávio e Willer estiveram no Hard Rock Hotel & Casino, onde, segundo a coluna de Lauro Jardim, do Globo, passaram a noite de 18 para 19 de janeiro, antes de retornarem ao Brasil. “Lá, Willer retirou 236 mil dólares em dinheiro vivo”, escreveu o colunista. Ao comentar a notícia, Willer Tomaz afirmou que ficou hospedado no hotel por oito dias, mas negou a jogatina. Essa foi uma dentre várias viagens que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz fizeram juntos, que incluíram ainda um safári na África do Sul dois meses depois, em março de 2025. Além disso, a proximidade entre Flávio e Willer se estende aos imóveis do advogado. Em agosto, como revelou a piauí, Flávio Bolsonaro usou durante a campanha em São Paulo um apartamento que a empresa de Tomaz havia comprado em fevereiro passado de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, com deságio de 2 milhões de reais.

Procurado pela piauí, Tomaz enviou uma nota por meio de sua assessoria de imprensa na qual confirma que detinha um terço das cotas da sociedade proprietária do avião por meio de uma empresa de sua titularidade. Afirmou que a Prime You cuidava da gestão do jatinho e de sua escala de utilização. Disse ainda que apenas em abril de 2026 é que descobriu que Daniel Vorcaro “teria igualmente adquirido cota da aeronave” e que, ao tomar conhecimento disso, “denunciou o contrato, encontrando-se, desde então, em litígio” com a Prime You. “Willer Tomaz não conhece Daniel Vorcaro, jamais esteve com ele e nunca celebrou com ele qualquer negócio — de qualquer natureza.”

A nota também diz que o advogado oferecia “carona” a amigos quando havia assentos disponíveis, “sem qualquer custo, contrapartida ou benefício de parte a parte”. Ele não respondeu se Flávio e sua família foram seus convidados naquele voo.

O senador Flávio Bolsonaro e a defesa de Daniel Vorcaro não responderam aos pedidos de entrevista e às questões enviadas pela reportagem à sua assessoria de imprensa.

Após a divulgação do vídeo de Moraes e Viviane desembarcando do PP-NLR, Flávio atacou o ministro nas redes sociais: “Alexandre de Moraes é o principal responsável por Lula voltar à cena do crime. Ele sentou na cadeira, aparelhou o Estado inteiro e a sua máfia, implodiu a democracia sob o falso pretexto de protegê-la.” 

Aviagem à Flórida ocorreu em meio à aproximação entre Flávio e Vorcaro para financiar Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O cronograma do financiamento de 24 milhões de dólares previa o pagamento de 2 milhões em 20 de janeiro de 2025 e outros 2 milhões cinco dias depois.

No dia seguinte ao desembarque em Brasília, o senador escreveu a Thiago Miranda, intermediário das negociações com o banqueiro, pedindo que desse “um gás na resposta do jurídico do investidor”. Como a piauí revelou na reportagem Em cartaz, a caixa-preta, Miranda levou a cobrança a Vorcaro: “Cara, hoje é a data-limite daquele primeiro aporte do filme. Preciso acelerar.” 

O dinheiro não saiu naquele dia. Vorcaro passou a pressionar seu cunhado Fabiano Zettel, encarregado de viabilizar os repasses. Em 28 de janeiro, insistiu na prioridade do financiamento. Três dias depois, voltou a cobrar. Zettel alegava dificuldades para liberar a operação. A primeira parcela só foi transferida em 13 de fevereiro, 24 dias depois da data prevista. O comprovante, enviado por Zettel a Vorcaro no dia seguinte, registra uma remessa de 2 milhões de dólares da Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.

Conforme a piauí mostrou, Eduardo Bolsonaro passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro de 2025, mesmo mês em que o fundo Havengate recebeu a primeira parcela do financiamento de Vorcaro, de 2 milhões de dólares. Em 20 de março, formalizou sua licença da Câmara. Quatro dias depois, o fundo recebeu a segunda e a terceira parcelas, que somavam cerca de 3,7 milhões de dólares.

A Polícia Federal investiga o caminho desse dinheiro. Os recursos saíam da Entre Investimentos e Participações, empresa de Antonio Freixo Junior, conhecido como Mineiro, e eram enviados ao Havengate, no Texas. Só depois seguiriam para a produtora de Dark Horse. Uma das questões sob investigação é se todo o dinheiro foi destinado ao filme ou se parte permaneceu no fundo ou beneficiou Eduardo.

As mensagens mostram que Eduardo participava das discussões sobre como fazer os recursos chegarem aos Estados Unidos. Em uma conversa encaminhada por Thiago Miranda a Vorcaro em 21 de março, o então deputado defendeu que o dinheiro já estivesse em território americano. “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo”, escreveu.

Eduardo demonstrou preocupação com a capacidade da empresa brasileira de fazer as remessas. Se ela não tivesse “aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo”, advertiu, seria necessário enviar o dinheiro aos poucos, num processo que poderia levar cerca de seis meses. Propôs então: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”

Também pediu notícias de uma reunião e colocou Altieris Santana, sócio de Paulo Calixto, administrador do Havengate, à disposição para ajudar: “Inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja.”

Em acordo de colaboração premiada recentemente homologado, Antonio Freixo, o Mineiro, confirmou os pagamentos ao fundo Havengate de 12,3 milhões de dólares. Além disso, relatou às autoridades que fez saques e entregou malas de dinheiro a pedido de Vorcaro. Ainda não se sabe quem recebeu os valores em espécie nem se essas entregas tinham relação com o financiamento solicitado por Flávio Bolsonaro.

Abaixo, a íntegra da “nota de esclarecimento” enviada pela assessoria de imprensa de Willer Tomaz:

“O advogado Willer Tomaz detinha, por meio de empresa de sua titularidade, 1/3 das cotas da sociedade proprietária da aeronave mencionada — participação administrada pela Prime You, responsável pela gestão e pela escala de utilização do bem. Como é usual nesse tipo de estrutura, os voos por ele contratados eram de uso privado e não remunerado. Quando havia assentos disponíveis e amigos com destino coincidente, oferecia carona — gesto de cordialidade, sem qualquer custo, contrapartida ou benefício de parte a parte. Ao tomar conhecimento, em abril de 2026, de que Daniel Vorcaro teria igualmente adquirido cota da aeronave, Willer Tomaz denunciou o contrato, encontrando-se, desde então, em litígio com a Prime You. Willer Tomaz não conhece Daniel Vorcaro, jamais esteve com ele e nunca celebrou com ele qualquer negócio — de qualquer natureza.”

Breno Pires, de Brasília Colaboraram Ana Clara Costa e Allan de Abreu / REVISTA PIAUÍ -23/09/2026 às 13h:45

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