O governo brasileiro decidiu neste domingo (26) convocar para consultas o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, após considerar como uma afronta as declarações feitas pelo presidente argentino, Javier Milei, durante evento político realizado no sábado (25), em São Paulo. A informação foi publicada pelo jornal argentino Clarín.
Segundo a reportagem, a decisão foi tomada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, logo após seu retorno de uma viagem oficial à Ásia.
A medida representa um novo capítulo da crise diplomática entre Brasil e Argentina, agravada após Milei participar da convenção nacional do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Milei atacou Lula e Moraes durante evento
Durante o discurso, o presidente argentino fez duras críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chamando-o de “ladrão” e de “lixo socialista“. Milei também voltou a atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca” por ter negado autorização para que ele visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por decisão da Justiça, após condenação relacionada aos atos golpistas de janeiro de 2023.
As declarações provocaram reações imediatas de autoridades brasileiras. Horas depois do discurso, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, classificou as falas de Milei como uma manifestação incompatível com a civilidade que deve marcar as relações entre os Estados e afirmou que o argentino fez uma referência desrespeitosa a um integrante da mais alta Corte do país.
Governo brasileiro vê episódio como sem precedentes
De acordo com o Clarín, integrantes do governo brasileiro avaliam que a atitude de Milei não tem precedentes na história recente das relações entre os dois países.
Segundo fontes ouvidas pelo jornal em Brasília, o presidente argentino “não tem ideia do que é ser presidente e não tem códigos”.
Ainda de acordo com essas fontes, a viagem de Milei ao Brasil, acompanhado da secretária-geral da Presidência argentina, Karina Milei, e do chanceler Pablo Quirno, acabou gerando atritos com diferentes instituições brasileiras.
“Em uma viagem privada, ele conseguiu ofender os Poderes Executivo, Judiciário e o povo brasileiro, algo nunca visto em décadas de relação bilateral. Nem nos momentos de rivalidade entre os governos militares houve algo semelhante”, afirmaram as fontes ao Clarín.
Comparação com visita de Lula a Cristina Kirchner
A reportagem também informa que integrantes da diplomacia argentina tentaram comparar a viagem de Milei para apoiar Flávio Bolsonaro à visita feita por Lula à ex-presidente Cristina Kirchner, em julho de 2025.
Na ocasião, Cristina já cumpria prisão domiciliar em processo por corrupção. Segundo o jornal, o governo brasileiro tratou aquele encontro como uma visita de caráter privado e manteve distância institucional do episódio.
O Clarín destaca ainda que, apesar das divergências políticas entre os dois presidentes, Lula sempre tratou Javier Milei de forma respeitosa, sem recorrer a insultos ou ataques pessoais.
Crise diplomática se intensifica
A convocação do embaixador Julio Bitelli é considerada um dos mais fortes gestos diplomáticos adotados por um país para demonstrar insatisfação com a conduta de outro governo. O episódio aprofunda a deterioração das relações entre Brasil e Argentina, que já vinham enfrentando sucessivos atritos desde a posse de Javier Milei.
Fonte: REVISTA FÓRUM - 26/07/2026
