Os moradores do edifício l’Adresse, na Vila Nova Conceição, um dos bairros mais caros de São Paulo, tiveram a rotina ligeiramente alterada no início de agosto. Durante alguns dias, policiais legislativos à paisana fizeram varreduras nas áreas comuns e circularam livremente pelo prédio. A movimentação tinha uma razão: o edifício passara a ser usado por Flávio Bolsonaro. O candidato à Presidência ficou ali durante alguns dias da primeira quinzena do mês, período em que se reuniu com integrantes de sua equipe para definir as últimas estratégias de campanha, gravou vídeos para o horário eleitoral, que começaria a ser exibido no dia 16, teve encontros na Faria Lima e participou de podcasts.
Flávio estava instalado num apartamento de 158,87 m2, três vagas de garagem e uma sala ampla, integrada a uma varanda gourmet de onde se avistam os prédios da região. Na Avenida República do Líbano, a cinco minutos de carro, ficava o comitê de campanha do presidenciável, para onde ele se deslocava para gravar as lives de quinta-feira, estratégia que herdou – em conteúdo e estética – do pai, Jair Bolsonaro.
O uso do l’Adresse tem um contexto peculiar. Poucos meses antes da chegada de Flávio Bolsonaro, o imóvel pertencia a Fabiano Zettel, cunhado e principal operador financeiro de Daniel Vorcaro – e fora vendido numa transação a um só tempo curiosa e irregular.
Zettel comprara o apartamento em 17 de abril de 2025, por 5,5 milhões de reais – um valor condizente com o mercado. Curiosamente, menos de dez meses depois, em 10 de fevereiro de 2026, vendeu-o por 3,5 milhões de reais à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz. O negócio, revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado pela piauí, significou para Zettel uma perda nominal de 2 milhões de reais, cerca de 36% do que havia desembolsado pelo imóvel.
Além da generosidade incomum, a transferência acabou sendo registrada em cartório em 4 de março, mesmo depois do STF determinar o bloqueio dos bens de Zettel, o que havia acontecido dois meses antes, e na mesma data em que ele foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero.
O que não se sabia até agora é que, meses depois de trocar de mãos entre o operador de Vorcaro e Tomaz, o apartamento serviu de base em São Paulo para a campanha presidencial do senador.
Apiauí foi até o edifício, conversou com moradores e com uma funcionária da escola onde ficavam estacionados os carros usados pela Polícia Legislativa. Eles confirmaram tanto a presença de Flávio no apartamento quanto a movimentação dos agentes durante sua estadia. A reportagem também localizou uma influenciadora que viveu no imóvel no período em que ele ainda pertencia a Zettel. Ela confirmou que o empresário, que também foi pastor da Igreja Batista da Lagoinha, frequentava o apartamento quando estava em São Paulo.
A presença da segurança de Flávio não passou despercebida. As varreduras feitas pelos agentes incomodaram alguns moradores, que pediram ao síndico acesso às imagens das câmeras de segurança para saber exatamente o que ocorrera nas áreas comuns. Foram informados, porém, de que as gravações haviam sido apagadas acidentalmente.
A piauí procurou o síndico do l’Adresse para saber como as imagens foram apagadas e se a administração do condomínio havia sido previamente informada sobre a presença dos agentes e sobre a hospedagem de Flávio Bolsonaro. Ele não respondeu aos contatos da reportagem.
Willer Tomaz primeiro negou, em conversa por telefone com a reportagem, que Flávio Bolsonaro tivesse usado seu imóvel na Vila Nova Conceição. Um dia depois, enviou uma nota afirmando não conhecer Fabiano Zettel nem Daniel Vorcaro, e que jamais teve qualquer “relação pessoal, comercial ou societária” com os dois. Mesmo perguntado especificamente sobre Flávio Bolsonaro, ele não faz qualquer menção a ele nessa nota.
Procurado pela piauí, Flávio afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que hospedou-se apenas em hotéis da região. A piauí então questionou qual uso o candidato fez do imóvel. Não houve resposta até a publicação da reportagem.
Fabiano Zettel era uma figura-chave nos negócios de Vorcaro -- segundo a PF, o banqueiro é quem detinha o controle de pagamentos a partir de empresas com o nome de Zettel. Em um dos relatórios da investigação do caso Master, a Polícia Federal afirmou ter ficado “cabalmente constatado” que ele figurava como interposta pessoa, ou “laranja”, do banqueiro. Mensagens apreendidas pela PF mostram que Vorcaro recorria ao cunhado em tratativas financeiras relacionadas a personagens políticos e a negócios hoje sob investigação, como o financiamento do filme Dark Horse, transações com o resort Tayayá, que teve como dono o ministro Dias Toffoli e pagamentos ao senador Ciro Nogueira (PP).
O novo proprietário, Willer Tomaz, não é investigado no caso Master, mas sim no inquérito que apura fraudes no INSS. Sua relação com Flávio é íntima e remonta ao início do governo Jair Bolsonaro, quando o senador era investigado no caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Tomaz chegou a ser consultado para defendê-lo, mas não aceitou alegando estar atarefado em outros casos.
A relação entre os dois avançou conforme o governo Bolsonaro transcorria. Tomaz ajudou Flávio a articular indicações para tribunais superiores e outros órgãos do Judiciário. Interlocutores do advogado dizem que foi na casa dele que Flávio e Kassio Nunes Marques se conheceram. Letícia Caetano dos Reis, que administra o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, disse em entrevista à Agência Pública que chegou ao posto por indicação de Tomaz.
Oadvogado costuma contar a interlocutores que já fez viagens de lazer na companhia do senador e de sua mulher, Fernanda, amiga de sua esposa. Quando Flávio caiu de um quadriciclo numa praia do Ceará, foi num avião de Tomaz que voltou a Brasília para ser atendido no hospital DF Star.
Em fevereiro deste ano, Flávio comemorou os 12 anos da filha caçula em uma casa de Angra dos Reis que pertence à empresa de Tomaz, conforme revelou o ICL Notícias. O imóvel também pertence à WT Administração de Imóveis e Bens, de Tomaz, em sociedade com outros três investidores. Um deles é o fundo Sharks FIP Multiestratégia, administrado pela Trustee DTVM e ligado a Maurício Quadrado, que vem a ser ex-sócio de Vorcaro e também investigado no escândalo do Master. Os outros cotistas são o empresário Fabrício Bloisi, presidente do conselho do iFood, e o ex-fiscal Márcio Miranda Maia, investigado em uma operação do Ministério Público que apura suspeitas de corrupção na Secretaria da Fazenda de São Paulo.
A propriedade em Angra dos Reis ainda apresenta outro elo com Vorcaro: é administrada pela Prime You, a mesma empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual o ex-banqueiro foi sócio até setembro de 2025. Tomaz também já foi cotista, por meio da Prime You, de um jato Legacy 650 que teve Vorcaro entre os proprietários. A aeronave ganhou o noticiário depois de ter sido utilizada por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.
Sobre suas relações com a Prime You, Tomaz disse à piauí que sempre tratou diretamente com os executivos e a equipe comercial da empresa, sem qualquer intermediação de Daniel Vorcaro. A interlocutores, ele costuma atribuir a uma sucessão de coincidências o fato de seus negócios acabarem associados a personagens alvos de investigações.
Willer Tomaz possui outros dois imóveis em Angra dos Reis, onde Flávio também tem interesses políticos e econômicos. O senador é autor de um projeto de lei que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental para empreendimentos turísticos na região.
Num evento de campanha realizado em Angra no final de agosto, Flávio explicou o que pretende. “Temos muitas obras de infraestrutura que podem ser trazidas para essa região, em especial destravar as questões ambientais que têm impedido o desenvolvimento de Angra de uma forma correta. Tem milhões de brasileiros que gastam milhares de dólares para ir para Cancún, para a Indonésia, e a gente podia fazer a mesma coisa na região de Angra, Mangaratiba e Paraty”, disse.
A relação de Tomaz com Flávio, porém, ia além dos encontros políticos e das gentilezas entre amigos. O senador frequentava havia anos outra propriedade do advogado em Angra: uma casa em Ilha Comprida que se tornara objeto de uma longa disputa judicial. A proximidade entre os dois era tamanha que, quando um dos envolvidos na disputa tentou encontrar uma saída para o caso, procurou Flávio e, antes dele, o próprio Jair Bolsonaro.
Deputado estadual por Minas Gerais durante oito mandatos e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado desde dezembro de 2025, Alencar Silveira Júnior foi ao Espaço de Exposição da Gameleira, em Belo Horizonte, na manhã de 1º de junho deste ano, com um objetivo bem específico. Naquele dia, Rubens Menin, dono da CNN Brasil e da Rádio Itatiaia, promovia um encontro entre Flávio Bolsonaro e empresários mineiros para que o candidato apresentasse suas propostas de campanha.
Alencar, como é conhecido, foi direto ao senador. “Eu falei para ele: ‘Você podia resolver o negócio lá da ilha’”, recorda. Flávio respondeu: “Eu não tenho nada com isso.” Alencar insistiu: “Mas você pode conversar com ele.” A conversa terminou com a chegada de um segurança do candidato. O “ele” a quem Alencar se referia era Willer Tomaz.
Três anos antes, Alencar já havia tentado obter a ajuda de Jair Bolsonaro. O então presidente fora a Belo Horizonte receber o título de Cidadão Honorário de Minas Gerais quando foi interceptado pelo deputado, que carregava uma pasta com a cronologia do caso, registros de imóveis e cópias de processos de uma guerra judicial em torno da casa em Angra dos Reis. “Eu pedi para ele resolver essa questão da casa, mas o presidente disse ter sido abandonado pelos amigos e que seria preso. Não aceitou pegar nenhum papel. Pediu para eu resolver com o Willer Tomaz”, conta Alencar.
Alencar tentou. Em 11 de julho, enviou uma mensagem a Tomaz para tratar da guerra jurídica em torno da Ilha Comprida. A disputa começara anos antes. Alencar havia adquirido 25% da casa, enquanto a Sport 70, sociedade do jogador Richarlison com seu antigo agente, Renato Velasco, ficara com os outros 75%. Surgiu então um problema: as pessoas que haviam vendido os direitos sobre o imóvel a Alencar e à Sport 70 não detinham a documentação definitiva da propriedade – um dos vendedores chegou a ser condenado por estelionato.
Richarlison já ocupava a casa e havia investido em sua reforma quando Tomaz entrou na história. O advogado procurou um dos herdeiros do imóvel e adquiriu seus direitos possessórios. Em seguida, conseguiu autorização para a transferência do direito de ocupação junto à Secretaria do Patrimônio da União (SPU), ainda durante o governo Bolsonaro.
A disputa foi parar na Justiça e, até agora, as decisões têm sido favoráveis a Tomaz. Flávio, que fez diversas visitas ao imóvel a partir de 2020, acabou arrolado como testemunha de Tomaz no processo.
Numa mensagem enviada a Alencar, à qual a piauí teve acesso, Tomaz deu o assunto por encerrado. “Ganhei tudo na justiça. Vcs não têm direito a nada [...] E vc fica criando essa narrativa envolvendo a política que nada tem a ver. Vc está escolhendo a pessoa errada para cobrar. Vai cobrar de quem recebeu. Comprou da pessoa errada. Nunca pagou IPTU, FORO, nada. Para de malandragem. Fica rodeando todo mundo. Que coisa feia.”
fonte:SITE REVISTA PIAUÍ/REPRODUÇÃO -16/09/2026 às 22h:18
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