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O câncer de mama é a neoplasia maligna mais incidente entre as mulheres no mundo e no Brasil, com exceção dos tumores de pele não melanoma. Estimativas oficiais apontam cerca de 74 mil novos diagnósticos da doença por ano no país, cenário impulsionado pelo envelhecimento populacional e pelo aumento de casos em mulheres com menos de 50 anos. Historicamente, campanhas de conscientização como o Outubro Rosa concentram esforços no rastreamento contínuo para detecção precoce.
Para além de elevar as chances de cura para índices superiores a 95%, diagnosticar a lesão em estágio milimétrico abre caminho para abordagens terapêuticas muito menos invasivas, poupando a paciente de intervenções cirúrgicas agressivas e mutiladoras.
É o caso da crioablação, procedimento percutâneo que destrói a lesão maligna por congelamento celular profundo. Em vez de incisões cirúrgicas, a técnica utiliza uma agulha especial introduzida no centro do tumor, guiada por ultrassonografia em tempo real. De acordo com a mastologista e pesquisadora clínica do HCor, Vanessa Sanvido, a circulação de nitrogênio líquido no sistema reduz a temperatura na ponta da agulha a cerca de 160 graus negativos.
“Isso forma uma bola de gelo, chamada de iceball, englobando o tumor e uma margem de segurança ao redor. O choque térmico em ciclos congela, descongela e recongela a área, rompendo as membranas das células tumorais e provocando trombose nos microvasos. A célula entra em necrose e, com o tempo, o próprio sistema imune reabsorve o tecido”, explica a médica.
A aposentada Mitsue Kuroki descobriu o nódulo aos 77 anos durante seu check-up de rotina anual. Sem histórico prévio de internações hospitalares ou cirurgias na vida, ela aceitou participar do primeiro ensaio clínico brasileiro. “Foi simples, como se tivesse ido para um exame de rotina. Foi feito com anestesia local, não senti nada, só senti aquele friozinho. Aí, o tempo em que fiquei lá foi só levantar, sentar um pouco, colocar minhas roupas e saí de lá deambulando para a minha casa. Continuei com a minha rotina diária trabalhando na empresa, tranquilo”, relata Mitsue.
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A jornada da ciência brasileira no tratamento do câncer de mama
A aplicação da crioablação no país é amparada por ensaios clínicos conduzidos por centros de referência como o HCor, com fomento público da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O primeiro passo dessa trajetória deu-se por meio do estudo First, pioneiro no cenário nacional. Projetado como prova de conceito, o ensaio submeteu 20 pacientes ao congelamento da lesão e, semanas depois, realizou a ressecção cirúrgica convencional para verificação laboratorial.
“No First Trial foi comprovado que, para câncer de mama menor do que dois centímetros na ressonância magnética, a eficácia da crioablação foi de 100%”, detalha o mastologista Afonso Nazário, pesquisador principal do projeto.
Com a validação patológica comprovada, os cientistas deram início ao estudo Six, um ensaio clínico que compara diretamente a crioablação exclusiva com a cirurgia convencional. Na nova fase, a paciente não é submetida a nenhum corte posterior: o tumor é tratado exclusivamente pelo frio, com acompanhamento clínico e de imagem por longo prazo.
“Serão comparadas 375 pacientes com crioablação versus 375 pacientes com cirurgia. Elas serão seguidas por cinco anos para avaliar a taxa de recorrência. Embora já tenham sido incluídas cerca de 200 pacientes e com seguimento de um ano, os resultados são promissores”, pontua Nazário.
O alívio de trataro câncer de mama sem cortes cirúrgicos
A editora e tradutora Marisa K. A. de Siqueira Lopes, de 60 anos, foi diagnosticada com câncer de mama aos 59 e viveu a experiência do estudo SIX ao receber a opção de congelar a lesão sem necessidade de bisturi. “Foi um alívio saber que não teria de passar por cirurgia. Por mais simples que seja uma cirurgia, é sempre um processo estressante e preocupante”, afirma Marisa.
O procedimento em consultório durou menos de uma hora e exigiu apenas cuidados pontuais nas primeiras horas. “Não senti dor, só um leve desconforto que era perfeitamente suportável. Como tiveram de injetar um pouco de soro para evitar que a agulha do congelamento congelasse meu mamilo, o médico avisou que ficaria um pouco inchado nas primeiras 24 horas. Usei top de academia nos primeiros dias para imobilizar a mama e foi muito tranquila a minha recuperação”, relembra a editora.
Após o término das etapas, a preservação da anatomia foi total. “Não fiquei com absolutamente nenhuma cicatriz. Também não afetou em nada o formato da minha mama e não tenho nenhuma queixa de sensibilidade. A única lembrança é que na área do congelamento se formou um carocinho duro, com sensação de um pequeno disco, que o mastologista explicou que o corpo vai absorvendo lentamente até desaparecer”, conta Marisa.
O contraste com tratamentos invasivos foi marcante em sua história familiar: “Eu perdi meu marido com câncer de esôfago em 2017 depois de um tratamento hiperagressivo, um verdadeiro calvário de sofrimento. Saber que eu estava com câncer me assustou, mas depois de passar por uma crioablação tão tranquila e apenas uma semana de radioterapia, fiquei muito agradecida à ciência por essas novas tecnologias que possibilitam um tratamento mais humano e menos invasivo”.
Indicações clínicas e critérios de segurança
Apesar dos desfechos animadores, os especialistas reforçam que a crioablação não substitui a cirurgia para todos os perfis de pacientes. Os critérios de inclusão são estritos: tumores iniciais de até 1,5 centímetro (máximo de 2 cm), do tipo histológico carcinoma ductal invasivo, do subtipo molecular luminal (receptores hormonais positivos e HER2 negativo), com axila comprovadamente livre de metástases e lesão bem visível ao ultrassom.
“As evidências que temos hoje mostram que o método é muito eficaz no câncer de mama inicial, isto é, menor do que 2 centímetros. Portanto, a projeção é que poderá substituir no futuro a cirurgia em cerca de 10% a 15% dos casos. Especialmente em pacientes idosas ou com muitas comorbidades, em que o risco de realizar uma cirurgia seja alto”, esclarece Afonso Nazário.
Tumores maiores que 2 centímetros, multifocais, com microcalcificações extensas ou dos subtipos triplo-negativo e HER2 positivo não são elegíveis para a técnica. No Brasil, o procedimento não está liberado comercialmente em clínicas privadas ou hospitais fora do desenho dos ensaios clínicos aprovados por comitês de ética em pesquisa.
Custo-efetividade e o caminho até o SUS
Por ser realizado sob anestesia local em ambiente ambulatorial, o método dispensa leitos de internação, consumo de salas cirúrgicas de alta complexidade e anestesia geral, reduzindo infecções e encurtando o tempo de recuperação. No entanto, o custo de importação dos dispositivos ainda representa uma barreira relevante para a incorporação no Sistema Único de Saúde.
“No Six Trial essa avaliação de custo-benefício será feita. A expectativa é de que seja custo-efetiva na Medicina Suplementar. Para o SUS, o valor da sonda (crioprobe) ainda é muito alto: sem as taxas de importação, fica em cerca de US$ 3,2 mil”, pondera Nazário, que projeta a inclusão inicial da tecnologia no Rol de Procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) após o encerramento do estudo.
Para a mastologista Vanessa Sanvido, além do cálculo econômico, a desescalada cirúrgica devolve o bem-estar emocional à mulher. “A incisão na pele é puntiforme, de cerca de 3 milímetros, apenas para a entrada da agulha, sem ponto cirúrgico. Não há perda de volume mamário nem retração. Preservar a dignidade e a integridade do corpo da mulher enquanto curamos o câncer é um ganho psicológico incomensurável”, defende a médica.
O sentimento é compartilhado por Marisa Lopes: “É maravilhoso olhar para o próprio corpo hoje. Que surjam outras formas de tratar o câncer tão evoluídas quanto a crioablação, e que elas sejam acessíveis também na rede pública, para todas as mulheres, e não só para quem tem condições de pagar um plano de saúde”.
Mitsue Kuroki reforça que o diagnóstico precoce continua sendo a chave para abrir essas portas. “As mulheres têm que procurar fazer esses exames, porque no meu caso foi fundamental fazer o check-up anual. Não pode ficar se martirizando antecipadamente: com acesso ao tratamento adequado e pensamento positivo, há grande chance de tudo dar certo”, conclui.
fonte: Amado.mundo - 02/11/2026

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