quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Brasília: Vorcaro editava matérias do Metrópoles e determinava o que era publicado


                                               Daniel Vorcaro - Foto: Rubens Cavallari/Folhapress


Documentos e mensagens de texto obtidos pela Polícia Federal (PF) no aparelho celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que a cúpula do portal Metrópoles submetia matérias sobre o setor financeiro e o Banco Master ao crivo prévio do empresário antes do envio ao ar.

 As conversas expõem uma rotina na qual Vorcaro não apenas sugeria abordagens ou pautas de seu interesse, mas editava trechos, ordenava a remoção de informações incômodas e determinava a linha de cobertura de reportagens sensíveis.

O arranjo promíscuo entre o empresário e o veículo de comunicação de Brasília consolidou-se em 2024, ano em que o Banco Master firmou um contrato de publicidade com o portal no valor global de R$ 20 milhões. A partir do acerto milionário, estabeleceu-se um canal direto e ininterrupto entre Vorcaro e a CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan. Registros periciais da Polícia Federal apontam que pelo menos 14 reportagens foram enviadas antecipadamente ao ex-banqueiro para leitura e validação. Dessas, ao menos 11 sofreram alterações diretas, cortes de trechos ou reescritas integrais atendendo a exigências explícitas do dono da instituição financeira, além do registro de duas matérias veiculadas a pedido direto do banqueiro.

Contrato de R$ 20 milhões e a interferência editorial

A aproximação entre a instituição financeira e o veículo resultou em uma relação direta com a cúpula do portal e o empresário e ex-senador Luiz Estevão, fundador do Metrópoles, condenado a 31 anos de prisão por desvio de recursos públicos e que passou ao regime aberto em 2021 após cumprir parte da pena.

Pouco tempo após os primeiros contatos em maio de 2024, o fluxo de recursos começou a irrigar os cofres do portal. Em junho do mesmo ano, o Banco Master efetuou um primeiro pagamento de R$ 1 milhão. No mês seguinte, em julho, acertou-se a transferência de mais R$ 900 mil para financiar projetos de “educação financeira” vinculados a empresas do conglomerado Master, como a seguradora Kovr e o banco digital Will.

O peso financeiro do acordo gerou questionamentos internos na equipe do próprio banqueiro. Registros de conversas mostram que a assessora Ana Matos chegou a comentar com Vorcaro: “Tá caro esse Metrópoles”. A resposta do ex-banqueiro sintetizou o valor estratégico atribuído por ele ao portal:

“Coisa mais importante da nossa vida é esse Metrópoles.”

Dois dias depois, Vorcaro avisou sua equipe: “Dei ok pra Lilian”. Na sequência, Ana Matos questionou se o valor de R$ 20 milhões seria quitado totalmente pelo CNPJ do banco ou dividido com as empresas Kovr e Will. Em 2025, a quantia total foi liquidada pelo Master em parcelas de R$ 5 milhões. Em contrapartida, o dono da instituição passou a intervir ativamente na linha editorial.

Modificações sob encomenda: cortes, inserções e ocultação de dados

A interferência nas reportagens ocorria de forma direta. Em 2 de abril de 2025, no momento em que o Master enfrentava graves dificuldades financeiras, Vorcaro reclamou de uma informação publicada pelo portal sobre uma suposta oferta de compra de ativos do banco pelo valor de R$ 1. “Proposta de 1 real nunca existiu!”, escreveu o banqueiro. A resposta da CEO do portal foi imediata: “Tiramos”.

A informação veio a público em meio ao anúncio feito dias antes pelo Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do DF, sobre a intenção de adquirir 58% do capital do Master, uma operação de salvamento financeiro sob severas críticas e dependente da aprovação do Banco Central (BC).

No dia 9 de abril, a direção do portal comunicou a Vorcaro o recebimento de um documento sigiloso e combinou o envio de uma cópia física a ele. No dia seguinte, sugeriu uma pauta: “Me diga o que acha: um comparativo entre o balanço dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”. Vorcaro respondeu que a ideia poderia ser boa, mas exigiu: “Eu conseguiria dar uma olhada antes pra checar os dados”. A proposta foi aceita imediatamente com um “Claro!”, e o texto foi publicado no mesmo dia após passar pelo crivo do banqueiro.

A interferência repetiu-se em maio, em uma reportagem sobre a venda de ativos do banco ao BTG Pactual. Ao receber a minuta antes da publicação, Vorcaro pediu: “Pode retirar Hapvida do texto?”. O pedido foi aceito prontamente.

Pressão sobre o Banco Central e intervenção na cobertura política

A atuação de Vorcaro sobre o portal intensificou-se quando o diretor do Banco Central encarregado de analisar a compra do Master pelo BRB, Renato Gomes, manifestou postura crítica à operação, posicionamento que posteriormente levaria o BC a vetar o negócio e empurrar o Master para a liquidação extrajudicial.

Em agosto de 2025, a direção do Metrópoles enviou a Vorcaro uma entrevista com o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, que citava Gomes. O ex-banqueiro orientou: “Acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto. Senao perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o renato pra materia dele!”. A orientação foi seguida.

Dias depois, ao receber o rascunho de um perfil intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”, Vorcaro exigiu cortes e acréscimos: “Eu retiraria a parte de falência do banco”. Ele também sugeriu incluir que haveria “um racha no Bacen e Renato estaria contra”, além de “especulações de que, após seu mandato, estaria de malas prontas pra um dos bancões”. Todas as solicitações foram acatadas. A direção do portal respondeu: “Vamos publicar, ok??”. No dia seguinte, diante de um texto sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC, o banqueiro opinou: “Tiraria a última frase”, recomendação prontamente executada.

A interferência atingiu também o noticiário político. Ainda em agosto de 2025, incomodado com críticas feitas por Ricardo Cappelli, pré-candidato de oposição ao governo do DF que denunciava os riscos da compra do Master pelo BRB, Vorcaro pediu diretamente a contenção do opositor:

“Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”

A direção do portal respondeu incontenti: “Deixa comigo”.

A submissão manteve-se inalterada até o momento da prisão do empresário. Em 17 de novembro de 2025, dia em que Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal, a cúpula do portal enviou a ele uma mensagem final no WhatsApp com minutas de textos sobre a venda do Master à empresa Fictor antes que fossem ao ar. Após acatar as alterações solicitadas pelo ex-banqueiro, a CEO enviou: “Publicada hahahaha”.

Posicionamento do portal

Questionada sobre o envio prévio de reportagens a Vorcaro, Lilian Tahan afirmou que “checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”.

A executiva assegurou também que o contrato publicitário de R$ 20 milhões não possuía relação com a cobertura editorial, destacando como prova a publicação de diversas reportagens expondo a situação de empresas ligadas ao empresário, como o Banco Master, Ambipar, Fictor e Oncoclínicas. Sobre a pauta referente a Renato Gomes, afirmou que o diretor do BC se tornou relevante por se opor à transação com o BRB, assunto de grande interesse para a cobertura de Brasília. Em relação a Ricardo Cappelli, a CEO afirmou que Luiz Estevão sempre foi um crítico ferrenho da aquisição do Master pelo BRB e que o próprio ex-senador forneceu a Cappelli análises técnicas apontando falhas nos balanços do banco estatal.

Apesar das justificativas, os registros de mensagens recuperados pela Polícia Federal expõem a cronologia e a extensão do controle exercido sobre o conteúdo publicado, evidenciando o comprometimento da autonomia editorial em favor de interesses financeiros privados.

fonte:REVISTA FÓRUM -15/10/2026

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