Márcio Canella era prefeito de Belford Roxo até abril - Reprodução/Redes Sociais
Além de ser apontado como um "patrono político", o deputado eleito Márcio Canella (União) é investigado pela Polícia Federal sob suspeita de atuar como articulador entre integrantes do Comando Vermelho e de milícias no Rio de Janeiro.
Preso nesta quinta-feira (15), o político é suspeito de intermediar acordos com criminosos para a retirada de barricadas em áreas dominadas pelo tráfico. Em troca, segundo as investigações, haveria um compromisso de reduzir as operações da Polícia Militar nessas regiões após a realização de obras públicas.
De acordo com a PF, áudios obtidos durante as investigações indicam que o capitão da Polícia Militar Alessander Ribeiro Estrella Rosa atuava como intermediário entre a gestão municipal comandada por Canella e lideranças do CV, entre elas Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, e José Severino da Silva Júnior, o Soró.
Segundo os investigadores, o acordo previa que traficantes retirassem barricadas para permitir a execução de obras de urbanização. A prefeitura, por sua vez, teria a possibilidade de divulgar as intervenções como realizações da gestão. Em contrapartida, conforme a investigação, as forças de segurança reduziriam as incursões policiais durante as obras e, após a conclusão dos trabalhos, os criminosos retomariam o controle das áreas sem novos confrontos.
A PF também aponta suspeitas de aproximação política entre Canella e grupos de milicianos. Segundo a investigação, o deputado eleito teria nomeado para cargos na Prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, ex-vereadores investigados por supostas ligações com milícias.
Outro ponto citado pelos investigadores é a relação com Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, apontado como uma das principais lideranças do grupo miliciano Somos Comunidade. A investigação também destaca a nomeação de Giane Prudêncio, mulher de Jura, para um cargo comissionado de assessora no gabinete parlamentar de Canella, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Quem são os presos na oitava fase da Operação Unha e Carne
A oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), mirou um grupo suspeito de utilizar uma rede de postos de combustíveis, na Região Metropolitana do Rio, para lavar dinheiro. Seis pessoas foram presas, incluindo o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), o delegado Marcus Amim e outros quatro policiais civis. De acordo com as investigações, os detidos fazem parte de três núcleos da organização criminosa.
Segundo a Polícia Federal, Canella - segundo deputado mais votado no estado - integra o núcleo político e institucional da quadrilha. Ele é apontado como o patrono político e articulador de alto escalão do grupo, exercendo papel de ligação entre os integrantes do núcleo econômico, agentes públicos e estruturas políticas.
As apurações indicaram que o ex-prefeito de Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense, seria beneficiário recorrente de valores provenientes da atividade ilícita do organização, além de ter atuado na indicação de agentes para cargos estratégicos da administração pública.
De acordo com a PF, o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil, faz parte do mesmo núcleo de Canella. Ele teria atuado como operador institucional da organização criminosa, proporcionando proteção administrativa e policial ao grupo, além de receber recursos por meio de empresas vinculadas a seus familiares.
O inspetor Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, é considerado integrante do núcleo financeiro e de lavagem de dinheiro do grupo. Segundo a investigação, ele é o principal operador econômico da quadrilha e exercia o controle de uma extensa rede de postos de combustíveis, formalmente registrada em nome de terceiros, usando as empresas para ocultar o patrimônio, movimentar recursos ilícitos e lavar dinheiro.
As apurações indicam que Pablo exercia funções de administração, coordenação financeira e de interlocução com diversos agentes públicos e particulares vinculados aos interesses do grupo. Um dos contatos teria sido feito com um escrivão da própria Polícia Federal. O agente da PF, que teve pedido de afastamento decretado, pode ter disponibilizado acesso privilegiado a informações sobre investigações em curso para o inspetor.
José Carlos Alves de Souza Júnior, do mesmo núcleo de Pablo, foi identificado como gestor operacional e financeiro do grupo, responsável pelo controle da arrecadação e distribuição de valores entre os integrantes. Diversos documentos apreendidos durante as apurações mostraram que o inspetor repassou dinheiro para diferentes membros da organização.
Os irmãos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes, que seriam integrantes do núcleo de lavagem de capitais e ocultação patrimonial, são apontados com sócios ocultos de empresas vinculadas ao grupo e beneficiários de repasses financeiros oriundos da atividade investigada. Ambos ficariam responsáveis por lavar o dinheiro conquistado.
Christiano é secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo. A reportagem enviou um e-mail para a prefeitura, às 11h40, pedindo um posicionamento sobre a prisão, mas ainda não recebeu retorno. O espaço está aberto para manifestação.
Procurada, a defesa de Márcio Canella ainda não se pronunciou sobre as acusações e a prisão. A reportagem ainda não conseguiu localizar as defesas dos suspeitos citados acima. O espaço está aberto para manifestação.
fonte: JORNAL O DIA 15/10/2026 18h:36

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