sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Flávio Bolsonaro insulta Globo após onda de repúdio por ataque a Nossa Senhora



                                                  foto:reprodução/- O senador Flávio Bolsonaro - Foto: Marina Uezima/Brazil Photo Press/Brazil Photo Press)/AFP


 Na reta final da corrida presidencial ganhou ares de crise generalizada no comitê de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL). Em visível estado de perplexidade diante da repercussão negativa entre o eleitorado católico de uma apuração relacionada a um suposto ato de intolerância religiosa, o candidato à Presidência da República partiu para o ataque frontal contra a imprensa. O alvo da vez foi o Grupo Globo e, em especial, a emissora de notícias GloboNews, classificada pelo parlamentar como uma “central de disseminação de mentiras”.

A reação enfurecida e atabalhoada de Flávio nas redes sociais ocorreu após a veiculação de uma informação que trouxe à tona a suposta articulação de setores de sua base aliada para destituir Nossa Senhora Aparecida do posto oficial de Padroeira do Brasil. O tema, que provocou uma onda instantânea de repúdio por parte da sociedade civil e de lideranças religiosas, expôs a fratura grave na estratégia do bolsonarismo de instrumentalizar a fé na disputa política de 2026.

Para tentar conter o desgaste e desviar o foco da denúncia, o filho do ex-presidente divulgou um mapa digital que, segundo ele, comprovaria um “movimento criminoso e orquestrado” alinhado à oposição para desgastar sua imagem. Prometendo ações nas esferas criminal e eleitoral, Flávio vociferou contra o jornalismo profissional no mesmo momento em que tentava desvincular sua candidatura de uma pauta histórica e incômoda de seus próprios aliados.

Veja a postagem:

Raízes da proposta e a sombra do passado

A tese de rebaixar o status de Nossa Senhora Aparecida não surgiu no debate público por geração espontânea. A origem da controvérsia remonta ao Projeto de Lei apresentado na Câmara dos Deputados pelo ex-parlamentar e pastor evangélico Victório Galli. O texto buscava alterar a legislação vigente para retirar o título de “Padroeira do Brasil”, rebaixando a santa para a condição restrita de “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

Embora o senador intente classificar a associação do caso à sua candidatura como propaganda adversária, as pontes entre o autor do projeto anticatólico e a espinha dorsal do bolsonarismo são institucionais e amplamente documentadas. Galli não é uma figura periférica: após perder a eleição em 2018, foi acolhido no Palácio do Planalto em 2019 com a nomeação para o cargo de assessor especial da Presidência da República sob Jair Bolsonaro (PL).

Mais do que o holofote do cargo público, os registros de bastidores escancaram a intimidade política e pessoal de Galli com a família do candidato. O ex-deputado coleciona registros fotográficos ao lado do próprio Flávio Bolsonaro e do patriarca da clã, além de imagens ao lado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, reconhecida publicamente por sua atuação alinhada ao fundamentalismo religioso e por sua forte ascendência sobre o eleitorado neopentecostal.

Atualmente em campanha para retornar ao Congresso Nacional, Galli permanece como peça ativa na engrenagem eleitoral que sustenta o projeto presidencial de Flávio, tornando inócuo qualquer esforço retórico de distanciar o candidato das pautas defendidas por sua militância mais radical.

Cálculo eleitoral e a reação da Igreja Católica

A eclosão do escândalo ocorre em um momento delicado de rearranjo político. A insatisfação de setores expressivos do episcopado brasileiro com a retórica da extrema direita já vinha se desenhando ao longo dos últimos meses. Importantes bispos passaram a manifestar posições em defesa da soberania nacional, do meio ambiente, da proteção aos povos indígenas e do fortalecimento das instituições democráticas, pautas historicamente associadas à plataforma de Luiz Inácio Lula da Silva (PL).

Essa reaproximação de vertentes expressivas do catolicismo com o campo progressista acendeu o sinal de alerta no bolsonarismo. A resposta da base de apoio de Flávio foi a intensificação de ataques verbais à hierarquia católica, ambiente no qual propostas de esvaziamento de símbolos tradicionais, como o dogma de Aparecida, voltam a ganhar novo fôlego nos bastidores.

A situação ganhou contornos críticos quando o candidato do PL, buscando inflamar sua base radical, declarou abertamente em agenda pública que, caso seja eleito, assinará um decreto oficial declarando que “o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”. A promessa de palanque, voltada a agradar setores confessionais, foi lida por juristas e lideranças religiosas como uma afronta direta ao Estado Laico garantido pela Constituição de 1988 e um aceno explícito à marginalização das demais manifestações de fé.

Perplexidade no comitê e o tiro pela culatra


Surpreendido pela velocidade com que a apuração jornalística alcançou a opinião pública, Flávio Bolsonaro gravou um vídeo durante o cumprimento de agendas no estado de Minas Gerais. Notavelmente alterado, o candidato buscou se vitimizar, afirmando que a denúncia se tratava de uma “invenção” desprovida de fundamento.

No entanto, o tom agressivo utilizado contra a imprensa e a recusa em condenar categoricamente o histórico de seus aliados mais próximos em relação ao tema apenas aprofundaram a crise. O uso da expressão “central de disseminação de mentiras” contra o jornalismo da Globo evoca a conhecida tática de confrontação direta com os veículos de comunicação sempre que denúncias de alto impacto atingem o clã.

A tentativa de sufocar o debate por meio de ameaças de processos judiciais e acusações de conluio político demonstra a perplexidade de uma campanha que perdeu o controle da narrativa no terreno moral e religioso, justamente onde julgava deter o monopólio. Ao tentar minimizar o projeto de rebaixamento da Padroeira como mero boato, Flávio tropeça no passado de seus próprios assessores e deixa transparecer o receio real do impacto que o episódio terá nas urnas.

Fonte:Revista Fórum - 25/09/2026 18h:35

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