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Flávio Bolsonaro (PL) recorreu a informações falsas, distorceu dados e citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 45 vezes durante a entrevista concedida à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, nesta sexta-feira (16), a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais.
Em aproximadamente 43 minutos de entrevista, o candidato bolsonarista fez 28 menções nominais a Lula e outras 17 referências indiretas ao adversário, como “meu concorrente” e “atual governo”, segundo levantamento do Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum. Na prática, Flávio mencionou o presidente ou fez referência a ele, em média, uma vez a cada 57 segundos.
O expediente veio acompanhado de uma série de declarações que não resistiram à confrontação com dados oficiais.
Levantamento realizado pelo Ranking dos Políticos, confirmado pela Fórum e outros institutos de checagem, identificou cinco afirmações falsas e outras 12 imprecisas entre 26 declarações verificadas durante a sabatina. Juntas, representam 65,4% da amostra analisada pela organização.
As checagens mostram que Flávio mentiu sobre segurança pública, Polícia Federal, exploração de petróleo e integrantes do PT, além de distorcer números relativos às contas das estatais, ao Bolsa Família, aos ministérios e à política de segurança.
O candidato também foi pressionado por Renata Lo Prete a explicar suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro (PL). Nervoso, ele tentou deslocar o assunto para outros temas e a relação com Vorcaro ficou sem resposta.
Cinco afirmações falsas: da Polícia Federal à criminalidade
Entre as cinco mentiras ditas está a tentativa de Flávio de atribuir a substituição de um superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, em 2019, a supostos resultados insatisfatórios. A própria PF negou que a mudança tivesse relação com o desempenho do dirigente.
Na ocasião, Renata Lo Prete confrontou o senador, dizendo que a interferência na corporação levou até mesmo à demissão de Sergio Moro, então ministro da Justiça, que rompeu com o clã Bolsonaro e só retornou ao grupo político nas eleições de 2022. Flávio gracejou e desconversou dizendo que o ex-juiz da Lava Jato, eleito governador do Paraná pelo PL, voltou a ser aliado.
O candidato também afirmou que o governo Lula seria recordista em criminalidade, embora os dados sobre mortes violentas intencionais apontem que a taxa registrada em 2025 foi a menor da série histórica iniciada em 2012.
Outra declaração falsa envolveu a visita do então ministro da Justiça Flávio Dino ao Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro sustentou que Dino teria entrado na comunidade sem segurança policial, versão contrariada pela Polícia Federal, que confirmou ter realizado a segurança do ministro.
Na área ambiental, o senador afirmou que Lula não havia conseguido iniciar a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A declaração desconsiderou a licença concedida pelo Ibama em outubro de 2025 e o início da perfuração exploratória pela Petrobras.
Flávio também confundiu nomes e funções de integrantes do PT ao atribuir a Cândido Vaccarezza a responsabilidade pelo Instituto Lula, cuja direção é exercida por Paulo Okamotto.
Master e Dark Horse: prestação de contas sob questionamento
Um dos momentos mais delicados da entrevista ocorreu quando Renata Lo Prete questionou Flávio sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que recebeu recursos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro.
A jornalista lembrou que o senador teria solicitado aproximadamente R$ 134 milhões ao dono do Banco Master, dos quais cerca de R$ 70 milhões teriam sido repassados.
Flávio defendeu o financiamento como uma operação privada, afirmou que não havia contrapartidas e sustentou que o contrato não havia sido integralmente cumprido. Também disse que a produtora já havia prestado contas dos recursos.
“Mas já vieram a público. A produtora do filme aqui no Brasil, ela prestou conta de tudo, não tinha um centavo da produtora que não tivesse autorização do fundo. Vamos separar as coisas e é muito importante a sua pergunta e mais uma vez: eu vou esclarecer quantas vezes forem necessárias. Eu estou falando de um pedido de um patrocínio privado para um filme privado sem nenhuma contrapartida pelo fato de eu ser senador da República”, disse, demonstrando nervosismo.
A informação é mentirosa e foi distorcida pois até agora não houve uma prestação pública de contas capaz de comprovar a afirmação.
Do Bolsa Família às estatais: as 12 distorções
Além das cinco afirmações falsas, outras 12 declarações foram distorcidas pelo senador, envolvendo principalmente dados econômicos, administrativos e de segurança pública.
Uma delas diz respeito ao resultado financeiro das empresas estatais. Flávio apresentou um déficit de R$ 36 bilhões atribuído ao governo Lula, enquanto a checagem do UOL apontou R$ 23,81 bilhões de déficit primário no período considerado. O candidato também se esqueceu de dizer que o ex-governo do pai inflava dados das estatais com dinheiro arrecadado na série de privatizações levadas a cabo.
O candidato também reivindicou para Jair Bolsonaro o aumento do Bolsa Família para R$ 600, sem esclarecer adequadamente que a ampliação de 2022 teve caráter temporário, em razão da pandemia, e foi viabilizada por emenda constitucional aprovada pelo Congresso Nacional.
Na estrutura administrativa, afirmou que o governo Lula possui 39 ministérios, quando a checagem contabilizou 38. Em outra resposta, sustentou que Lula havia substituído todos os 27 superintendentes da Polícia Federal, sem considerar que as mudanças ocorreram em momentos distintos.
Flávio também relacionou a queda dos homicídios em 2019 à política armamentista de Jair Bolsonaro, sem apresentar evidências que demonstrassem uma relação direta de causa e efeito.
A lista de imprecisões inclui ainda afirmações sobre o Porto de Santos e o tráfico internacional de cocaína, queimadas, imóveis da União, inelegibilidade de parentes de políticos, a faixa azul para motociclistas em São Paulo e valores relacionados a contratos envolvendo Luciano Huck e o Banco Master.
Renata cobra respostas sobre golpe e ajuste fiscal
Além das declarações falsas e distorcidas, a entrevista foi marcada por momentos em que Renata Lo Prete precisou insistir para que Flávio respondesse às perguntas, enquanto o candidato frequentemente deslocava as respostas para assuntos de seu interesse.
Um dos episódios ocorreu quando foi questionado sobre a tentativa de golpe após as eleições de 2022. Na resposta, Flávio passou a falar dos motoboys de São Paulo, afastando-se do tema apresentado pela entrevistadora.
O candidato também não apresentou cálculo que permitisse verificar como pretende executar o ajuste fiscal anunciado durante a campanha. Flávio prometeu reduzir despesas, extinguir ministérios e cortar cargos comissionados, mas não detalhou a economia correspondente a cada medida nem demonstrou como as propostas seriam compatíveis com a preservação dos programas sociais.
Lula, Lula e Lula: 45 referências em 43 minutos
Enquanto evitava detalhar pontos de suas propostas, Flávio Bolsonaro manteve o adversário no centro da entrevista. De acordo com o levantamento, o senador citou nominalmente Lula 28 vezes e fez outras 17 referências indiretas ao presidente.
Foram 45 referências ao adversário ao longo de aproximadamente 43 minutos de vídeo — praticamente uma por minuto. O número inclui menções diretas e expressões que, segundo o levantamento, se referiam ao presidente, como “meu concorrente” e “atual governo”.
A insistência em mencionar Lula atravessou respostas sobre economia, segurança pública, políticas sociais e a própria trajetória de Jair Bolsonaro.


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