O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Divulgação)
O candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro, André Marinho, filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, elaborou um “memorando estratégico” com diretrizes em inglês de como seria uma parceria entre Brasil e Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras em um eventual governo de Flávio. A identificação de Marinho como autor do documento está nos metadados do arquivo e foi confirmada pelo próprio ao Amado Mundo. O documento, ao qual o Amado Mundo teve acesso, tem 22 páginas em formato de uma apresentação de PowerPoint e detalha como seria essa aliança com os americanos. Foi elaborado em 19 de março deste ano, cerca de duas semanas antes de André Marinho viajar aos Estados Unidos para se reunir com o vice-presidente J.D. Vance. Sete semanas depois, em maio, foi a vez de Flávio reunir-se com o vice-presidente americano e com o próprio Donald Trump em Washington.
A família de Paulo e André tem ligação com o trumpismo: a cantora Giulia Be, filha do empresário e irmã do candidato do Novo, é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr.
Procurado pelo Amado Mundo, Marinho disse que o documento não teria relação com a campanha de Flávio, embora a capa da apresentação seja explícita, ao estampar “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” (veja abaixo). Todas as demais páginas trazem uma logo “Flávio Bolsonaro”, com o slogan “Prosperity Partnership” abaixo.
Marinho também afirmou que a apresentação não foi levada a nenhum interlocutor americano (veja íntegra do posicionamento de Marinho ao fim do texto).

A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu se encomendou a produção do documento a Marinho, se tem alguma relação com as ideias ali expostas, se deu anuência a elas e se esperava que o documento fosse apresentado nos Estados Unidos. A campanha também não se pronunciou se recebeu algum recurso financeiro de empresas americanas ligadas ao grupo Rockbridge, formado por investidores trumpistas. A acusação foi feita por Renan Santos, do Missão, adversário de Flávio na disputa pelo Planalto.
André Marinho admitiu em entrevista ao Amado Mundo ter analisado junto à Rockbridge a instalação de uma célula do grupo no Brasil. Foi Marinho também quem conectou à Rockbridge o empresário Pedro Sang, apontado por Renan Santos como intermediário dos supostos repasses para a campanha de Flávio. Se comprovada, a conduta poderia levar até à cassação da chapa do PL, por receber recursos de governos estrangeiros para financiamento eleitoral, o que é vedado.
Agora, porém, este documento traz um elemento novo e revelador sobre um possível financiamento por parte de empresários americanos ligados ao trumpismo à campanha de Flávio Bolsonaro.
O mesmo André Marinho que estudou trazer a Rockbridge ao Brasil preparou, há seis meses, uma apresentação em inglês — com o nome de Flávio Bolsonaro — sobre como um eventual governo do PL seria uma escolha mais segura para que os Estados Unidos consigam explorar minerais críticos e terras raras no Brasil.
O documento afirma que uma administração de Flávio “posicionará o Brasil como o principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental, ao mesmo tempo em que assegura a industrialização, a geração de empregos e a autonomia estratégica”.

Dividida em tópicos, a apresentação prossegue afirmando que o “Flávio Bolsonaro Way” se baseia em três princípios: o Brasil não seguiria sendo um exportador de matéria-prima, não se tornaria “estruturalmente dependente” de cadeias de processamento chinesas e “se alinhará com os Estados Unidos na construção de um sistema de abastecimento paralelo”.
Um documento para ‘interlocutores americanos’
O documento classifica o governo Lula como “pró-China” e direcionado por uma “ambiguidade geopolítica deliberada”, “flexibilidade de alinhamento com a China”, “avanço regulatório lento” em relação às terras raras e minerais críticos, industrialização “incerta” e atração de capital “reativa”.
Entre os riscos de uma continuidade do petista na Presidência são citados “tornar-se um mero fornecedor de matérias-primas para a China”, “perder oportunidades industriais” e “perder a janela de oportunidade para o realinhamento da cadeia de suprimentos dos EUA”.

Já a “parceria para a prosperidade”, como o plano descreve suas ideias para um governo Flávio Bolsonaro, em oposição a Lula, teria diretrizes como “claro alinhamento ocidental”, foco na “execução”, “política industrial + integração minerária”, “aceleração regulatória” e “atração de capital”.
“A diferença é simples: Lula hesita, Bolsonaro executa”, resume o texto de André Marinho.
Como resultados aos EUA a partir desse alinhamento de um eventual governo Flávio Bolsonaro, o documento de Marinho cita redução de “dependência estrutural” em relação à China, garantia de cadeias de suprimento para infraestrutura de inteligência artificial, sistemas de defesa, transição energética e mobilidade elétrica.
Para o Brasil, as vantagens alegadas seriam “avançar na cadeia de valor”, atração de “capital ocidental de longo prazo”, criação de empregos de “alta qualificação” na indústria e obtenção de influência geopolítica. “O Brasil torna-se um dos três principais fornecedores globais fora da China, principal polo de processamento do Hemisfério Ocidental, elo fundamental em cadeias de suprimentos alinhadas aos EUA nos setores de defesa, energia e IA”.
A “proposta estratégica” da parceria com os americanos teria seis pilares: aceleração de reformas na legislação minerária e de licenciamento; demanda pelos minérios brasileiros “apoiada pelos EUA” e “estabilidade de preços”; “processamento e industrialização domésticos”; união de capital americano e ativos brasileiros; posicionar o Brasil no bloco de suprimentos alinhado aos EUA, em um “clube de minerais críticos”; e enquadrar esses materiais como “ativo central de segurança nacional”.

Uma projeção para um horizonte de dez anos prevê potencial de investimento de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em mineração, refino e processamento, criação de 500 mil a 1 milhão de empregos e aumento de 1,5 a 2,5 pontos percentuais no PIB.
O documento de André Marinho também traça uma perspectiva para os próximos quatro anos. Diz a “mensagem estratégica final” do documento, a ser direcionada a “interlocutores americanos”:
“O Brasil não está pedindo por assistência. O Brasil oferece escala. Escala geológica. Escala territorial. Escala de oportunidade. O que o Brasil precisa é de: certeza de demanda. Alinhamento de capital. Parceria estratégica. O que os Estados Unidos precisam é de: uma base de suprimentos confiável, em grande escala e independente da China. O OCIDENTE NÃO TEM UM PROBLEMA DE MINERAIS. TEM UM PROBLEMA DE EXECUÇÃO. O BRASIL É A SOLUÇÃO”.

Em 28 de março, nove dias após o documento ser elaborado por Marinho, Flávio disse algo parecido ao discursar na CPAC, conferência do trumpismo em Dallas, Texas: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.
Encontros com o vice de Trump, fundador da Rockbridge
No início de abril, cerca de três semanas após a elaboração do documento, André Marinho esteve nos Estados Unidos, onde se encontrou com o vice-presidente americano, J.D. Vance. O encontro foi articulado por Robert Kennedy Jr., pai do cunhado de Marinho. O candidato do Novo disse na ocasião ter tratado com Vance da expansão do crime organizado no Rio de Janeiro e das conexões de facções criminosas com redes internacionais.
Em 26 de maio, Flávio Bolsonaro se reuniu com Donald Trump em Washington (foto abaixo). Ele disse na ocasião ter discutido com o presidente americano tarifas, terras raras e a designação de facções criminosas brasileiras como terroristas. No dia seguinte, 27 de maio, Flávio esteve com J.D. Vance e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Segundo o senador, os encontros também trataram das facções.

Em entrevista ao Amado Mundo, o empresário Pedro Sang citou André Marinho como o responsável por aproximá-lo da Rockbridge Network, rede de financiadores políticos trumpistas fundada por Vance. Sang é o protagonista das acusações feitas pelo presidenciável Renan Santos, do Missão, e aliados dele, como o ex-deputado Arthur do Val, de que a campanha de Flávio Bolsonaro teria recebido dinheiro americano por meio da Rockbridge.
A acusação, sobre a qual não foram apresentadas provas, é grave porque a legislação eleitoral proíbe que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, doações de entidades ou governos estrangeiros.
O que diz André Marinho
Em manifestação ao Amado Mundo, André Marinho afirmou que o documento elaborado por ele não tem relação com a campanha de Flávio e não foi apresentado a nenhuma autoridade americana.
“Esse estudo foi uma iniciativa exclusivamente minha e estava armazenado em meu dispositivo. Causa estranheza que esteja circulando sem meu conhecimento e sem minha autorização. Não enviei nem apresentei esse conteúdo a nenhuma autoridade americana, nem tive reunião ou encontro para tratar desse assunto. Minha viagem aos Estados Unidos também não teve qualquer relação com esse tema. Meu pai nunca teve acesso ao estudo e também não o recebeu. Da mesma forma, não houve qualquer pedido, orientação ou iniciativa nesse sentido por parte da campanha de Flávio Bolsonaro. Jamais tratei ou presenciei qualquer tratativa sobre recursos estrangeiros para campanhas eleitorais no Brasil”.
FONTE: AMADOMUNDO.COM/REPRODUÇÃO DO SITE 12/09/2026 -11h
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