Neste final de semana o papa em mensagem em português - foto:reprodução
Mensagem do papa Leão XIV neste fim de semana voltou a colocar Maria no centro da tradição católica, dias depois de o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmar que, caso seja eleito, um de seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O senador é frequentador de uma igreja evangélica cujo fundador, o bispo JB Carvalho, faz críticas à devoção católica à Nossa Senhora Aparecida.
Em sua mensagem, em português, o papa apresentou Maria como uma referência para a compreensão cristã da vida e da esperança. Ao comentar a experiência de fé na Gruta de Massabielle, em Lourdes, na França, ele postou:
“Maria vem lembrar-nos a grandeza e a amplitude da nossa vocação para a vida, para a vida eterna. Perante as correntes atuais que procuram redefinir o valor da vida humana face à doença, ao sofrimento ou à velhice, a Gruta de Massabielle ergue-se como um santuário da esperança cristã. Aqui, nenhuma fragilidade é rejeitada.”
https://x.com/Pontifex_pt/status/2104179496572338660
A manifestação ocorre em um contexto de crescente presença da religião no discurso político de Flávio. Em vídeo publicado nas redes sociais em 24 de agosto de 2026, o senador declarou que “se for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A fala provocou reações entre católicos nas redes sociais e foi seguida por manifestações de bispos da Basílica de Nossa Senhora Aparecida. O debate envolve, entre outros pontos, a maneira como diferentes tradições cristãs compreendem o papel de Maria.
Igreja frequentada por Flávio condena culto à “Rainha dos Céus”
A relação de Flávio com a Comunidade das Nações, em Brasília, dá outra dimensão ao episódio. A igreja foi fundada pelo bispo JB Carvalho, que publicou em 2001 o livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, pela editora Doxxa.
Em um trecho da obra reproduzido pelo pastor Sérgio Lourenço, Carvalho escreve: “Deus odeia o culto a Rainha dos Céus”. O bispo utiliza passagens dos capítulos 7 e 44 de Jeremias para sustentar uma condenação ao culto de uma divindade feminina mencionado no Antigo Testamento.
Na interpretação apresentada no livro, os habitantes de Judá teriam oferecido incenso, alimentos e bebidas à entidade e atribuído a ela a prosperidade alcançada. Carvalho relaciona esse culto aos castigos sofridos pelo povo de Judá e à destruição de Jerusalém.
O autor também estabelece uma associação entre essa tradição e a devoção católica a Maria. Em outro trecho, apresenta uma narrativa envolvendo Ninrode, Semíramis e Tamuz e relaciona a chamada “Rainha dos Céus” à imagem de uma mulher com uma criança.
Carvalho sustenta ainda que antigas celebrações dedicadas a divindades femininas teriam influenciado festas e práticas posteriormente associadas à devoção mariana.
Essa interpretação é apresentada pelo autor como uma leitura religiosa da história. A tese de que a devoção católica a Maria tenha origem direta no culto a Semíramis, porém, não é um fato histórico estabelecido. Na doutrina católica, Maria é venerada, enquanto a adoração é reservada exclusivamente a Deus.
A ligação de Flávio com a igreja
A proximidade entre Flávio e Carvalho começou antes da atual corrida presidencial. Em 2024, o senador e sua mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações.
Em 7 de dezembro de 2025, dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência, Flávio escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública após o anúncio. Desde então, sua participação nos cultos da instituição também foi registrada publicamente.
A relação entre o bispo e a família Bolsonaro não se limita à participação religiosa de Flávio. Livros escritos por Carvalho também foram levados a Jair Bolsonaro durante o período em que o ex-presidente esteve na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
Em novembro de 2025, Flávio chegou para visitar o pai carregando Metanoia: A chave está em sua mente, de autoria de Carvalho. O episódio foi registrado pela Folha de S.Paulo.
Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro levou outro livro do bispo ao marido: A jornada de meninos a homens, publicado em 2019 e dedicado à formação masculina sob uma perspectiva cristã.
Maria na tradição católica
A mensagem papal deste fim de semana evidencia a distância entre a compreensão católica sobre Maria e a interpretação apresentada por Carvalho em seu livro.
Ao mencionar a Virgem Maria, o papa não a apresenta como uma divindade concorrente de Deus. Sua referência está inserida na doutrina católica, que atribui a Maria um papel de intercessão e veneração, distinguindo-o da adoração devida exclusivamente a Deus.
A formulação usada pelo papa também associa Maria à esperança diante da doença, do sofrimento e da velhice. Para ele, a figura mariana remete à “vida eterna” e à ideia de que nenhuma fragilidade humana deve ser rejeitada.
Esse entendimento é diferente da interpretação de Carvalho, que identifica na chamada “Rainha dos Céus” uma prática religiosa incompatível com a adoração exclusiva ao Deus cristão e estabelece uma relação entre essa tradição e práticas de devoção mariana.
O contraste ganha dimensão política porque Flávio mantém uma relação pública com a igreja fundada pelo bispo e, ao mesmo tempo, utiliza referências explícitas ao cristianismo em sua campanha presidencial. A mensagem do papa, por sua vez, recoloca Maria como figura integrante da fé católica em um momento de debate sobre o espaço da religião no discurso eleitoral.
Fonte: REVISTA FÓRUM - 27/09/2026
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