terça-feira, 20 de outubro de 2026

Brasil: Revista Piauí diz que Flávio Bolsonaro foi sócio indireto de Bet


              Flávio Bolsonaro e, à direita, Willer Tomaz, em uma foto encontrada pela PF no iCloud do advogado - Crédito: Reprodução

Documentos acessados pela piauí no Brasil e no exterior indicam que o senador foi sócio indireto de uma casa de apostas online – a Best Bet.



Tudo começou em janeiro de 2023. Terminava o governo de Jair Bolsonaro, e as bets, que funcionavam no Brasil desde 2018, ainda não haviam sido regulamentadas. O mundo das apostas, com isso, se transformara num vale-tudo. No vácuo regulatório, o Supremo Tribunal Federal resolveu autorizar as loterias estaduais a explorar o jogo. Abria-se assim um universo para que governos e empresários pudessem faturar alto. A possibilidade fez brilhar os olhos de Cláudio Castro (PL-RJ), então governador do Rio de Janeiro, e de Willer Tomaz, amigo de todas as horas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Naquele mesmo mês de janeiro, Tomaz entrou em ação. Com um capital de 50 mil euros, criou a Cathedral Holdings, com sede em Funchal, capital da Ilha da Madeira, em Portugal. Com isso, ele e seu sócio formal, Jorge Barbosa Dias, aproveitavam os benefícios fiscais oferecidos pela ilha, que é considerada uma espécie de paraíso fiscal. Instalaram a nova empresa numa salinha, de número 105, no Marina Club, um moderno edifício da Avenida Arriaga, uma das principais de Funchal.

Em fevereiro, veio o passo seguinte. Com um capital de 1 milhão de reais, o grupo empresarial de Tomaz criou a Rede Loto Ltda, uma empresa de apostas. Escolheu um nome fantasia para sua casa de jogos: Best Bet. A Best Bet, cuja sede ficava em São Paulo, era controlada pela Cathedral, na Ilha da Madeira. Com esse movimento, Tomaz repetia um modelo comum adotado pelas casas de aposta na época, em que empresas no exterior eram as principais controladoras das bets no país. Armava-se o cenário para Tomaz explorar as apostas que, já então, movimentavam bilhões de reais.

Em abril, deu-se o grande passo. O governador Cláudio Castro, aproveitando a decisão do STF de permitir que as loterias estaduais faturassem com bets, resolveu entrar no negócio. A Loterj, loteria do estado do Rio, abriu uma licitação, que resultou, em maio, na concessão de licenças de operação para treze empresas – entre elas, a recém-criada Best Bet. Em pouco tempo, a empresa de Willer Tomaz obteve a autorização para explorar o jogo, em despacho assinado pelo presidente da Loterj, Hazenclever Cançado, que ocupava o cargo por indicação de Flávio Bolsonaro, segundo o jornal Folha de S.Paulo (e cujo filho, o advogado Hazenclever Cançado Júnior, trabalhou como assessor no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques entre agosto de 2020 e junho deste ano). Em julho, outra boa notícia: graças a uma gambiarra permitida pela Loterj, a Best Bet passou a operar nacionalmente, e não apenas no Rio, onde havia obtido a licença. Seu potencial de mercado ampliou-se enormemente.

Na mesma época em que ganhou a licitação da Loterj, Tomaz tomou uma nova providência no exterior: criou a Alcazar Holdings, também na Ilha da Madeira, com um braço no Brasil, a Alcazar Brasil Ltda, sediada em São Paulo. As conexões entre a Cathedral, dona da Best Bet, e a Alcazar são evidentes. No papel, as duas têm o mesmo dono, Willer Tomaz. Também têm o mesmo administrador, Mateo Scudeler. E as duas funcionam naquela mesma salinha de número 105 do edifício Marina Club, em Funchal. A piauí esteve no local na sexta-feira, dia 16 de outubro. Não há sinal de que as duas firmas funcionem de fato no prédio. São empresas de fachada, o que não é incomum em paraísos fiscais. No papel, a Cathedral tem apenas um funcionário. A Alcazar, nem isso.

Os registros contábeis das duas empresas, obtidos pela piauí junto à Iberinform, empresa espanhola com filial em Portugal e especializada em informações comerciais e análise de risco de crédito, mostram ainda outros vínculos entre a Cathedral e a Alcazar. Em 2025, por exemplo, a contabilidade da Cathedral informava que a empresa era credora de 984 mil euros, um salto em relação aos 7,8 mil euros que tinha para receber no ano anterior. A contabilidade da Alcazar, por sua vez, mostrava o movimento exatamente oposto: a empresa devia 8,1 mil euros e passou a dever 824 mil euros, valores próximos ao que a Cathedral tinha para receber.

Um auditor fiscal que trabalha na Autoridade Tributária e Aduaneira, equivalente português da Receita Federal, examinou os relatórios contábeis a pedido da piauí. Ele falou sob anonimato por não ter autorização do fisco português para se manifestar publicamente. “É possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente”, afirmou ele, mencionando um laço que torna as gestões das duas empresas uma coisa só.

É exatamente neste ponto que entra em cena o senador Flávio Bolsonaro, amigo de Willer Tomaz. Conforme revelou o UOL, Flávio era “usuário máster” da conta bancária da Alcazar, no Santander. A designação “máster” refere-se a uma pessoa cadastrada no banco com elevados privilégios de acesso e de administração dos serviços bancários digitais, sobretudo de contas empresariais. Um “usuário máster” pode consultar saldos, extratos e movimentações financeiras. Pode cadastrar, alterar ou excluir outros usuários da conta. Também pode definir permissões e limites operacionais de outros usuários. E pode, por fim, fazer e autorizar transferências, pagamentos e outras operações financeiras. Na conta da Alcazar no Santander, havia apenas dois usuários máster – Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.



Asucessão de eventos é indireta, mas clara: Flávio Bolsonaro tinha conta bancária conjunta com Willer Tomaz na Alcazar, a Alcazar é vinculada à Cathedral, e a Cathedral, por sua vez, é dona da Best Bet. Em razão dessas conexões, a Polícia Federal solicitou ao STF a abertura de um inquérito para investigar a suspeita de que Flávio era, na verdade, sócio oculto da Best Bet, a casa de apostas online que operava com a loteria do seu aliado Cláudio Castro. Um outro desdobramento da investigação veio à tona nesta terça-feira (20), com uma reportagem do UOL revelando que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro faturou 14 milhões de reais entre 2023 e 2026. Parte dos pagamentos, segundo a reportagem, foram feitos à conta do Santander que o senador compartilhava com Willer Tomaz.

Os indícios de sociedade entre Flávio e Tomaz vão além da bet, incluindo o uso de jatinhos, viagens conjuntas e movimentações bancárias entre os dois, detectadas pela Polícia Federal numa apuração sigilosa. Os valores ainda não são de conhecimento público. Um relatório da PF obtido pela piauí levanta a hipótese de que as contas de Tomaz “estariam funcionando como ponto de concentração, circulação e redistribuição de recursos em favor de terceiros”. Em outras palavras, a investigação considera a possibilidade de que Tomaz fosse apenas um laranja.

A piauí perguntou para Flávio Bolsonaro desde que data ele mantém a conta bancária conjunta com Willer Tomaz na Alcazar. O candidato não respondeu. Sabe-se, no entanto, a data em que Flávio deixou de ser um “usuário máster” da conta conjunta com Tomaz. Em 22 de maio de 2025, dois anos depois da criação da Alcazar, uma funcionária de Willer Tomaz enviou ao Santander um pedido para excluir Flávio da condição de “usuário máster”. Nesse dia, o senador estava com Willer em Portugal. No dia seguinte, viajaram junto com suas famílias de Cascais para Nice, na França, usando um jato contratado em nome da Cathedral. No e-mail em que solicitou a desvinculação de Flávio da conta do Santander, a funcionária Fayla Zulmira Menezes não explicou o motivo da exclusão – mas, naquela altura, a Best Bet, que tinha faturado alto durante dois anos, já não era um negócio apetitoso, pois havia perdido o direito de operar nacionalmente.

Isso aconteceu porque, em julho de de 2024, o governo Lula começou a regular o setor de apostas esportivas online. Como parte do processo, determinou que a Loterj tirasse do ar a operação nacional de bets que só tinham licença para operar no Rio – caso de Best Bet. A Loterj, interessada em proteger a empresa de Willer Tomaz, recorreu à Justiça e conseguiu uma liminar favorável no TRF1. (Na mesma época, Tomaz convidou os senadores Dr. Hiran, presidente da CPI das Bets, e Soraya Thronicke, relatora, para falar sobre a Loterj em seu escritório em Brasília. Para surpresa dos convidados, estava ali presente o governador Cláudio Castro. Por videochamada, participou da mesma reunião Hazenclever Cançado, presidente da Loterj.) O governo Lula recorreu da liminar do TRF1 e, além disso, entrou com uma ação no STF. Em janeiro de 2025, por fim, o ministro André Mendonça decidiu que a Best Bet não podia operar nacionalmente, mas apenas no Rio. Quatro meses depois, Flávio Bolsonaro foi excluído como usuário máster da conta bancária da Alcazar. Em meados do ano, a Best Bet encerrou suas atividades.

A suspeita de que Flávio tinha uma sociedade oculta com uma bet é grave, seja porque esteve mantida em sigilo, seja porque revela laços obscuros do candidato e joga luz sobre as razões pelas quais os donos de casas de apostas estão alinhados em peso com a sua candidatura presidencial – entre eles, Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, dono da 7 Games Bet, e Ernildo Júnior de Farias Santos, dono da Pix Bet. Todos esses empresários apostam que, se eleito presidente, o candidato do PL vai derrubar a proibição das bets decretada por Lula em setembro passado.

A piauí também perguntou a Flávio Bolsonaro se ele era sócio da Best Bet e se tinha acesso direto ou indireto aos negócios da Cathedral, a dona oficial da casa de apostas. O senador também não respondeu. Recentemente, quando o UOL noticiou a existência da conta bancária compartilhada entre ele e Willer Tomaz, o senador se manifestou, afirmando que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Tomaz, na ocasião, também negou as informações, dizendo que a conta bancária “nunca lhe pertenceu” e que ele “jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma”.

Até agora, Flávio não foi capaz de explicar plenamente sua relação com Willer Tomaz, limitando-se a dizer que se tratava apenas de uma relação de amizade. As evidências mostram que a relação extrapolava simples laços de amizade. Tomaz bancava luxos de Flávio, como viagens de jatinhos para o exterior (parte deles em uma avião que tinha entre seus cotistas a Alcazar). Tomaz também está sob investigação por envolvimento nos desvios de dinheiro do INSS. A reportagem questionou o advogado sobre a conta com Flávio no Santander, sobre as semelhanças contábeis entre a Cathedral e a Alcazar e sobre o imbróglio judicial envolvendo a Best Bet, mas não houve retorno.

FONTE: REVISTA PIAUÍ/REPRODUÇÃO -20/10/2026 21h:17

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