domingo, 4 de outubro de 2026

Além do Macallan: Os luxos de Vorcaro e autoridades em Londres

 

                                 foto:reprodução        

Na reportagem Dois relatórios e um Supremo, publicada em 10 de setembro, a piauí revelou detalhes da viagem organizada por Daniel Vorcaro a Londres, em abril de 2024, onde ocorreu o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, com a presença de aproximadamente cinquenta autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário.

Um mês antes, no fim de março, ele fez uma outra viagem para o mesmo destino. Estavam acompanhados de Fabio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, do arquiteto Kiko Sobrinho e do empresário Pedro Mesquita. Era época de um jogo da seleção brasileira contra a Inglaterra, no Estádio de Wembley, em Londres, no dia 23 – mas não há registros de que tenham visto a partida ou de outro motivo para a viagem. 

A piauí teve acesso a trocas de mensagens, fotos e vídeos inéditos encontrados no celular de Vorcaro, que foi descoberto pela Polícia Federal. O conteúdo é revelado sobre a forma como o então banqueiro seduziu as autoridades do primeiro escalonamento – e o quanto estava disposto a depender para isso. 

A viagem de março foi organizada pelo mesmo Leonardo Serrano Giunchetti, da SL Consulting, que se encarregava das extravagâncias internacionais do ex-banqueiro. A hospedagem foi no Connaught, um hotel cinco estrelas em Mayfair, um dos bairros mais valorizados da cidade. Vorcaro escolheu o local em razão da academia de ginástica. A turma ficou hospedada em suítes com diárias a partir de 3.600 libras (quase 25.000 reais pela cotação atual). Vorcaro pediu uma suíte mais cara do hotel, de mais de 200 metros quadrados e 16.000 libras (110.000 reais) por dia, mas não havia disponibilidade. Por isso, dormiu em uma de "apenas" 72 metros, que depois comparou a "uma prisão". Vorcaro contratou ainda duas seguranças para os dois dias em que estaria na cidade.

A programação era agitada. Na quinta, dia 22, jantar e festa no Annabel's, casa noturna onde só são admitidos sócios. Sexta, almoço numa sala privativa do Cipriani, a 10 mil libras apenas o aluguel do local. Pelo planejamento, toda a programação contaria com a companhia de pelo menos vinte modelos, a quem ambos se referiam como “flowers”. Giunchetti pergunta se Vorcaro queria “flores” no Cipriani. Ele pede que o funcionário reserve uma mesa para elas separadas, para caso quisessem se dirigir às moças.

Vorcaro e convidados de uma das festas em Londres, em abril (imagem: reprodução)

À noite, festa privada no Nikita, clube em frente ao Cipriani. “A gente tá vendendo as flores com um cara que arruma para as festas do Di Caprio tbm”, escreve Giunchetti. Os celulares das garotas tinham que ficar confiscados durante o evento. Na festa do Nikita, Vorcaro reclamou que havia apenas "treze" garotas e o restante eram promoters. Para tranquilizar Vorcaro, Giunchetti diz que havia, na verdade, trinta meninas no local – e mais 25 a caminho. E que o DJ Bob Sinclair tocasse para Vorcaro e seus convidados. Um desses programas incluía a performance de uma mulher que despejava parafina quente sobre o corpo seminu. 

Às 23 horas da própria sexta, o jatinho decolaria de Londres com destino ao Brasil. Vorcaro e os amigos abriram as caixas de uísque que não estavam no bagageiro da aeronave para que fossem servidas durante a viagem. O ex-banqueiro não deixou Londres antes de dar instruções a Giunchetti para que, diante de qualquer questionamento, tanto o hotel quanto ele próprio confirmassem que Vorcaro estava sozinho na capital inglesa, em reuniões, pois era essa a desculpa que havia dado à mulher com quem era casado na época.

O 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, que aconteceu no mês seguinte, foi quase financiado integralmente pelo Master. As mensagens demonstradas pela PF mostram que os custos da viagem cresceram vertiginosamente, e que as pessoas envolvidas na organização chegaram a anunciar Vorcaro sobre o risco de o banco pagar tantas despesas das autoridades convidadas.

No dia 20 daquele mês, Giunchetti, da SL Consulting, também responsável pela logística da viagem, avisou Vorcaro de que os gastos com hospedagem no Hotel The Peninsula haviam aumentado, entre outras razões, porque as autoridades fizeram upgrades em seus quartos. A conta do hotel chegaria a 760 mil libras (cerca de 5 milhões de reais) por três dias. Em mensagens posteriores, o valor subiria para 850 mil libras (cerca de 6 milhões de reais).

Giunchetti explicou ao banqueiro que o contrato com o hotel estava em nome do Grupo Voto, organizador do fórum, mas que o grupo arcaria com apenas 90 mil libras. O restante sairia, na prática, dos cofres de Vorcaro. E uma advertência explícita: "Todos esses upgrades de quartos de autoridades, etc., contarão com a nossa. Isso, em teoria, por lei, não pode." Não fica claro que lei Giunchetti se refere.

O Código de Conduta e Ética do STF restringe a coleta de presentes ou brindes que valham mais do que 1% dos salários mensais. A regra, porém, aplica-se apenas aos servidores e colaboradores do tribunal, e não aos próprios ministros que recebem 46.366 reais brutos. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afirmou que os magistrados receberão benefícios ou vantagens que possam comprometer sua isenção. Mas, até hoje, nenhum ministro do Supremo foi punido por aceitar a generosidade alheia. 

Havia ainda uma maneira de evitar que as diárias aparecessem de forma tão evidente. Segundo Giunchetti, embora o dinheiro viesse de Vorcaro, a nota do hotel seria emitida em nome do Grupo Voto. O problema, ele escreveu, era que o “fluxo financeiro” deixaria clara a verdadeira origem dos recursos. "Acho que tudo bem, né? Pois quero evitar dar M para vocês depois", acrescentou. Vorcaro respondeu que não teria problema.

Em 23 de abril, véspera do início do evento, Vorcaro declarou em desvincular o nome do Master do encontro em Londres. Pediu a Giunchetti que retirasse “Master da lista de convidados” e disse que era preciso evitar, “a qq custo”, a exposição do banco e a sua própria. No dia seguinte, voltei ao assunto. "O negócio do pgto do hotel pode dar merda grande. Você tem que pedir fatura total pra voto", escreveu, referindo-se à fatura do Península. Giunchetti respondeu que as exceções já estavam encaminhadas.

Vorcaro se ocupava dos mínimos detalhes da viagem. Sua atenção a eles, porém, contrastava com a que dispensava às contas que deveriam pagar. Em uma das conversas, pediu a Giunchetti que providenciasse alguém do hotel para esperá-lo com as chaves do quarto, evitando que tivesse de passar pelo lobby com a roupa esportiva e os capuzes que usaria durante a viagem. Já durante o evento, avisou a Giunchetti que alguns convidados “mais velhos” passariam pelo hotel antes da famosa avaliação de uísque Macallan previsto para aquele dia. Orientou Giunchetti a providenciar garrafas do próprio hotel para atendê-las enquanto a degustação não começasse. Por aqueles mesmos dias, Giunchetti invejou a Vorcaro uma cobrança de 2 milhões de dólares para ressarcir despesas do evento. O banqueiro não respondeu. Dias depois, cobrado novamente, determinou que a fatura fosse encaminhada à Moriah Asset, empresa que tinha como sócio seu cunhado, Fabiano Zettel.

Só a demonstração de Macallan custou a Vorcaro o equivalente a 3,3 milhões de reais, despesa paga, segundo as mensagens, com seu cartão de crédito. Dos mais de sessenta convidados do fórum, 22 participantes da reunião, um gasto de aproximadamente 145 mil reais por cabeça apenas naquele fim de tarde. Entre as cabeças lideraram os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli; o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; o presidente da Câmara Hugo Motta; o ex-ministro Ciro Nogueira; o procurador-geral da República Paulo Gonet; o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski; e os ministros do Superior Tribunal de Justiça Luis Felipe Salomão e Benedito Gonçalves.

Ciro Nogueira e o "irmãozão" Daniel Vorcaro (imagem: reprodução)

Foram todas festas animadas, com muitas mulheres, e uma iluminação vermelha que se repetia. Imagens no celular de Vorcaro mostram Faria às gargalhadas, deitado no chão, em alguns momentos ao lado de Motta, que estava de cabelo raspado após passar por um implante capilar. Há muitas mulheres no entorno e clima de grande animação.

Ao final da manifestação, cada participante recebeu uma garrafa de uísque avaliada em 1.800 libras, ou cerca de 12,4 mil reais.

Hugo Motta e Fábio Faria em Londres (imagem: reprodução


Fonte: SITE DA REVISTA PIAUÍ/REPRODUÇÃO - 04/10/2026

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