A tentativa da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e de amplos setores da imprensa corporativa de classificar como “fake news” as discussões sobre projetos que atingem símbolos da fé católica sofreu um duro golpe vindo de dentro do próprio campo conservador. O ex-deputado federal e pastor evangélico Victório Galli (PP) reabriu publicamente o debate sobre o tema ao defender a legitimidade do Projeto de Lei 2.623/2007, de sua autoria, que visava retirar de Nossa Senhora Aparecida o status oficial de padroeira do país.
Em declarações concedidas ao portal UOL nesta quarta-feira (30), o aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) reafirmou que a concessão do título à padroeira católica fere o princípio constitucional da laicidade do Estado e alegou que não há qualquer impropriedade em submeter a matéria ao crivo do Poder Legislativo.
Candidato a uma cadeira na Câmara dos Deputados no pleito deste ano e ex-assessor especial da Presidência da República no primeiro ano da gestão Bolsonaro, o líder religioso sustentou que a apresentação da proposta legislativa cumpria estritamente o papel institucional do Parlamento. “Que mal tem um projeto de lei desse que foi da minha autoria levado em plenário? A Casa dos Deputados é uma casa de ressonância do povo, é onde se discute, é onde se fala, por isso que é parlamento. O parlamento vem de parlamento, é de falar, é de discutir as coisas. Então, eu não vejo nada de mal numa questão dessa não”, declarou o pastor, rebatendo as alegações de que a iniciativa seria fruto de desinformação ou invenção da oposição.
A controversa matéria apresentada por Galli em dezembro de 2007 buscava alterar os termos da Lei Federal nº 6.802/1980, norma que instituiu o feriado nacional de 12 de outubro e oficializou o patronato da fé católica no país. Pelo texto do projeto, a denominação “Padroeira do Brasil” seria substituída pela expressão restritiva “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta acabou sendo arquivada em 2008, mas, segundo a versão do próprio ex-parlamentar, o arquivamento não ocorreu por invalidação do mérito, e sim por orientação do então relator da matéria na comissão correspondente, o deputado Arthur Lira (PP-AL).
De acordo com o relato do pastor, Lira teria concordado com a tese de que a lei vigente padece de inconstitucionalidade ao privilegiar uma vertente religiosa específica em um país laico, mas desaconselhou o prosseguimento da tramitação devido ao desgaste político com a comunidade católica. “O que eu fiz foi corrigir essa inconstitucionalidade, inclusive o Arthur Lira, relator do projeto, concordou comigo que é inconstitucional”, alegou Galli. “Ele me disse: ‘Victório, já tem uma jurisdição no TSE e se for mexer nisso vai dar muito pano para a manga’. Então foi arquivado, foi arquivado a meu pedido”, revelou.
Contradições no discurso e fricção com a campanha de Flávio Bolsonaro
O ressurgimento da controvérsia ocorre em um momento delicado para a estratégia do senador Flávio Bolsonaro na corrida presidencial de 2026. A pauta voltou ao centro dos holofotes após o próprio candidato do PL gerar desconforto no eleitorado católico ao declarar publicamente que, se vencesse a disputa ao Planalto, “decretará que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração do senador acendeu o sinal de alerta entre estrategistas, que passaram a rotular qualquer menção a iniciativas legislativas contra símbolos católicos vindas da base aliada como “narrativa mentirosa” ou “ataque sistemático da imprensa”.
A postura intransigente de Galli, contudo, enfraquece a linha defensiva do comitê bolsonarista. Questionado sobre a fala do filho do ex-presidente, o próprio pastor criticou o enquadramento conceitual usado por Flávio para acenar à militância neopentecostal. “A não ser que o Estado seja teocrático, mas o nosso Estado é democrático, então não pode fazer isso”, ponderou o ex-deputado do PP, apontando vício jurídico na promessa do presidenciável liberal. Diante da repercussão negativa entre líderes católicos, a equipe de campanha de Flávio buscou contemporizar o episódio, alegando em nota que a afirmação sobre colocar o país sob o domínio de Jesus Cristo possui caráter meramente figurativo e temático, visando simbolizar a busca por proteção e paz social.
Na tentativa de blindar o núcleo duro da família Bolsonaro de contaminações diretas, Victório Galli garantiu que nem Jair nem Flávio participaram da elaboração do projeto que atacou o título de Nossa Senhora Aparecida, assegurando que o clã nunca debateu formally a revogação do estatuto da santa.
O pastor descartou, por ora, a intenção de desarquivar o texto ou protocolar uma nova redação caso seja eleito em outubro, justificando a mudança de prioridades. “Tem tantas outras coisas para tratar, então a gente vai vivendo e aprendendo com as experiências”, disse.
Por fim, ao abordar a separação entre Igreja e Estado no âmbito prático, Galli defendeu a manutenção de atos religiosos em instalações do serviço público, como a realização de cultos evangélicos nos gabinetes e plenários do Congresso Nacional e de prédios do Poder Executivo, rejeitando qualquer tentativa de proibição. Para o ex-assessor presidencial, não há contradição entre apontar a inconstitucionalidade do título da padroeira e apoiar manifestações confessionais no espaço estatal. “A política e a religião sempre andaram juntas, está entendendo? Inclusive, a política vem primeiro do que a religião. Então, não vejo mal nenhum as pessoas também demonstrarem a sua fé. O Estado é laico, mas o cidadão que está dentro do Estado, cada um tem o seu princípio religioso”, concluiu.
AO TSE
Victório Galli é candidato pela 7ª vez a deputado federal. Já foi filiado em 6 partidos: PMDB, PSC,Patriota,PSL, PTB e agora no PP. Neste pleito declarou possuir R$ 3.474,40 em conta-corrente no BB de bens.
fonte:REVISTA FÓRUM -C/ACRÉSCIMO DO BLOG - 30/09/2026
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